
Os escritores Gustavo Rosseb e Hélio Rocha discutem sobre aventura, literatura e fantasia
Não raramente, ouve-se que o gênero fantástico não é literatura. Muito por esse motivo, alguns profissionais de língua portuguesa preferem ver longe das bibliotecas escolares sagas como “O Senhor dos Anéis” ou “Harry Potter”.” “Tia, só leio Harry Potter. Serve?”, indaga, receoso, o aluno, à espera de uma resposta negativa da professora. O assunto rende conversa e, frequentemente, tem se tornado o centro das atenções. Basta voltar para 2013, quando Paulo Coelho deu o que falar ao cancelar sua participação na Feira do Livro de Frankfurt. A decisão foi tomada como protesto por escritores de literatura fantástica não terem sido convidados para o maior encontro do setor editorial.
A despeito de qualquer julgamento pessoal, o segmento é tão significativo que vem se tornando a principal aposta de editoras. Seguindo esse filão que se forma, o Grupo Editorial Pensamento, criou, em 2011, o selo Jangada, focado na publicação de obras nas áreas de ficção científica, ficção histórica, suspense e ficção comercial em geral. Com a primeira saga lançada, “Acampamento Shadow Falls”, a empresa ultrapassou a marca dos cem mil exemplares. “O segmento representa uma média, de 50% a 60 % do nosso catálogo. É um nicho que teve boa aceitação no país”, afirma Adilson Ramachandra, editor do selo, que trouxe para Juiz de Fora ontem, na primeira edição da Bienal do Livro, o escritor Gustavo Rosseb, autor da trilogia recém-lançada “As aventuras de Tibor Lobato”.
“Apostamos, há quatro anos, na publicação de ficção científica com uma pegada moderna que abrange literatura fantástica também. É um fenômeno que vem desde “Crepúsculo”. Depois da série “Acampamentos”, viemos com “Cidade da meia-noite” e agora ‘Ecos do espaço'”, enumera o editor, celebrando novos projetos na área. “Vem aí uma trilogia que deve se iniciar mais à frente para o público feminino. Ela envolve uma distopia em que a alquimia suplantou a ciência da química. São “Os Jogos Vorazes” com essa pegada”, adianta Ramachandra.
A mãozinha da internet
Para Rosseb, que comandou uma mesa ontem na bienal juiz-forana sobre aventura, literatura e fantasia, a sétima arte é, em boa medida, uma das responsáveis pela disseminação do gênero fantástico. Na visão dele, a adaptação das aventuras do bruxo criado por J. K. Rowling é o pontapé inicial do fenômeno que se instaurou. “Consumimos muito o cinema, e muita gente vai para as livrarias para ver como é que a saga vai continuar. A fusão faz com que a gente queira consumir mais histórias. Agora, inclusive, está vindo uma montagem teatral do ‘Harry Potter'”, diz o autor e músico, indo além nesse debate. “Antes do boom do ‘Harry Potter’, o público juvenil não tinha muito interesse pela leitura. Quando comecei a procurar uma editora, em 2010, 2011, foi difícil. Algumas disseram que não publicavam autores nacionais. Agora, é bem diferente. Você vai ao metrô e vê crianças, jovens e adultos com esse tipo de livro.”
Se entre os nomes estrangeiros, C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien e George R. R. Martin estão entre as preferências dos leitores de literatura fantástica, no Brasil, Eduardo Spohr é visto como um dos papas do gênero. Já na obra de estreia, “A batalha do Apocalipse” (Verus, 2010), o autor de “Filhos do Éden” se tornou um hit na internet, invadindo a lista dos livros mais vendidos na categoria ficção.
“Todos os gêneros ganharam força pela própria internet. Antigamente, se eu quisesse falar com o meu vizinho que morava no prédio de frente, só conseguia se eu me deslocasse até lá. E as pessoas que gostam de determinada literatura acabam se juntando. Por exemplo, muitos falam do finado Orkut, mas ele ajudou muito por causa das comunidades de literatura fantástica com dez mil, cem mil membros”, aponta Eduardo Spohr, para quem “Harry Potter” pode até ter dado uma mãozinha, mas não foi determinante para a disseminação do gênero em terras brasileiras.
“O determinante é o fato de as pessoas terem conversado mais sobre o tema”, sentencia. Por que a literatura fantástica foi, durante muito tempo, não reconhecida pela crítica? “Para ser bem sincero, não penso muito nisso. Hoje em dia, onde está a crítica? Ela está na internet. Está nos blogs. Cada um é um crítico, o que é muito bom. A crítica especializada, acadêmica, talvez se interesse por um outro tipo de literatura, mas cada um tem o direito de ter um gosto pessoal. Acho isso democrático, não afeta ninguém. Mas a crítica de peso mesmo está na internet. É lá que você vai quando quer saber algo sobre o livro. Hoje, ela não está nos grandes meios, nem nos jornais”, defende o escritor, durante entrevista para o quadro “Sala de leitura”, transmitido pela Rádio CBN Juiz de Fora.
Juiz de Fora e seus seres fantásticos
Quem foi que disse que Juiz de Fora não produz escritores de literatura fantástica? O jornalista aqui da cidade Hélio Rocha escreve no gênero, participou da mesa capitaneada por Rosseb e fica, até domingo, na Sala de Autores Independentes da Bienal, com a divulgação de “Málkian – Livro I: A Lenda de Florine”.
Gustavo Rosseb lança segundo volume de “As aventuras de Tibor Lobato”
“Não dá para quantificar um crescimento da literatura fantástica no Brasil. Dá para dizer para que ela está sempre em patamares bem altos, e isso motiva autores nacionais a investirem nisso. O motivo é o interesse mediático, a projeção que tem alcançado e a capacidade que ele tem de mexer com o imaginário dos leitores, que vivem hoje num mundo tão árido, cientificista, pouco místico, em que as pessoas levam uma vida pragmática e monótona”, diz o jornalista, lamentando que, embora possa se falar que existe uma literatura de fantasia sendo produzida aqui no país, ela é, ainda, muito ingênua e colonizada pelo imaginário europeu.
“É muito comum autores brasileiros escrevendo sobre lordes ingleses, com nomes que soam bonitos nos filmes, mas são estranhos para nós e para nossa cultura, como Axel Branford, protagonista do Raphael Draccon em seu “Os dragões do Eden”. Isso é ruim. Acho que a literatura de fantasia nacional vai se consolidar quando nos voltarmos para Monteiro Lobato, mais que para J.K. Rowling”, ressalta o jornalista. “No meu livro, como comecei quando adolescente, sou muito influenciado por esse arcabouço, mas busquei incorporar elementos latinos que fazem a diferença.”
‘Sou apenas um grãozinho nessa areia’
Gustavo Rosseb mal lançou “A guardiã de Muiraquitãs” (Jangada), segundo título da série “As aventuras de Tibor Lobato”, e a obra já teve os direitos vendidos para o cinema. O longa deve ganhar as telonas em 2017 com direção de Diego Freitas. A proposta da publicação, segundo o autor, é abordar o folclore nacional a partir de uma linguagem juvenil moderna. “Sou apenas um grãozinho na literatura fantástica. Tem o Felipe Castilho, a Kel Costa. Há várias pessoas que estão embarcando nesse mundo. O mundo está passando por um momento em que as pessoas estão precisando trabalhar um pouco a mente. Está tudo muito superficial. Acho que a literatura juvenil traz assuntos no quesito humano de uma maneira metafórica mais leve, faz com que a gente reflita, faz com que a gente deixe de ser tão superficial com relação a tudo.”
Na história, Sátir desaparece, e seu irmão Rurique, com Tibor Lobato, parte em busca de pistas, numa jornada que envolve viagens subaquáticas, cidades fantasmas, ataques de lobisomens, botos e filhotes de saci. Quando os garotos pensam que as coisas não poderiam piorar, recebem um aviso da Guardiã de Muiraquitãs de que o último amuleto, que poderia garantir a vitória sobre a Cuca, foi roubado. Os rumores são de que o suposto Ladrão é um forasteiro que ronda a Vila Serena, gerando muitas suspeitas e ainda mais mistérios.
“O Harry Potter é um apanhado de vários personagens da mitologoia deles. Fica muito distante. Quando a gente tem um livro que fala do que é nosso, estamos falando sobre mim, sobre você, sobre minha avó. É um reencontro com a nossa própria identidade”, reflete o autor paulista, também vocalista e compositor da banda Capela, grupo que possui três discos lançados de maneira independente.
Bienal nesta quinta
O amor é o ponto alto da programação cultural da 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora nesta quinta. Enquanto às 16h as escritoras Marina Carvalho e Graciela Mayrink, autoras de histórias que em muito se aproximam dos contos de fadas, debatem sobre “Como escrever um romance”, três horas depois, às 19h, Nana Pauvolih conversa com o público sobre sua literatura erótica. Com uma agenda cheia, das 9h às 20h, o evento também sedia a mesa “Teoria e literatura”, às 18h, com o escritor e professor da Faculdade de Letras da UFJF Fernando Fiorese, o escritor e professor da UERJ Gustavo Bernardo Krause, além do editor da Tribuna, músico e escritor Wendell Guiducci. O esporte também surge com o tema, encerrando as atividades do dia, às 20h, e recebendo para a mesa os jornalistas Dudu Monsanto e Márcio Guerra, bem como o professor e educador físico Maurício Bara.
Bienal do Livro de Juiz de Fora
Até domingo
Quinta e sábado, das 9h às 22h, domingo, das 10h às 19h
Independência Trade Hotel
(Av. Presidente Itamar Franco 3.800). Entrada gratuita.
Programação completa em www.tribunademinas.com.br

