Mariana Firjam começou a fazer balé quando ainda nem tinha completado 3 anos. “Na escolinha mesmo, aquelas ‘aulas depois da aula'”, detalha a mãe, Giovana. Mesmo muito criança, a bailarina já era elogiada pelas professoras. “Elas até brincavam: ‘ainda bem que tem a Mariana na aula’, porque ela decorava a coreografia do início ao fim.” Nessa época, mesmo observando o quanto sua filha gostava da arte, não passava pela cabeça de Giovana que a paixão e talento de Mariana iriam resultar em sua aprovação para a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, única filial do Bolshoi de Moscou do mundo, uma das maiores escolas de balé clássico do mundo.
A menina se aventurou por dois anos na ginástica olímpica, ficando esse intervalo sem o balé. Mariana voltou para a dança aos 7 anos e nunca mais parou: passou pelas escolas Studio de Dança Vívian Mockdece e Corpus Núcleo de Dança, academias específica de balé. Além de dançar em todas as apresentações da escola, Mariana também participava dos exames da Royal Academy of Dance, uma organização de exames avaliativos do método inglês para alunos de balé clássico, de nível internacional, e tinha bons resultados.
Giovana lembra que a filha sempre recebia elogios, “como ela é delicada para dançar”, “ela dança sorrindo”, “você consegue ver alegria no que ela faz”. Mesmo com a aptidão para a dança, Giovana diz que a família sempre levou tudo com muita leveza, sem forçar ou exigir algo mais forte de Mariana. “A coisa mais importante sempre foi ela fazer o que gostava, e aproveitar.”
O sonho da menina aumentou ainda mais quando, em janeiro de 2019, fez o curso de verão na tradicional Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, na cidade de Joinville, Santa Catarina. “Na época, estávamos com viagem marcada para o Sul e vimos, por acaso, no site do Bolshoi, que a academia iria disponibilizar alguns cursos de verão”, lembra Giovana.
A data do passeio coincidiu com as aulas, então a família aproveitou a oportunidade e seguiu para Joinville. Na cidade, Mariana fez aulas por cinco dias e pôde conhecer a escola. “Ela amou, ficou deslumbrada com toda a estrutura, com os professores, figurinos.” Depois dessa experiência, a filha voltou para Juiz de Fora muito empolgada e motivada com a dança.
Seleção atípica
Tradicionalmente, representantes da escola do Bolshoi vão a várias capitais do país realizar uma pré-seleção, para que os bailarinos possam ir para a prova em Joinville, que geralmente ocorre em outubro. A triagem esse ano foi diferente. Em razão da pandemia e das medidas restritivas, as audições foram remarcadas para janeiro e depois para março, que foi quando aconteceu a seleção. E dessa vez a inscrição foi feita através de vídeo. As crianças precisaram realizar exercícios específicos, orientados pela escola.
Levando em consideração a acessibilidade para participar do processo seletivo, a academia recebeu muitas inscrições. No dia 18 de março ocorreu a primeira etapa da seleção presencial, com cerca de 200 crianças. Nela, candidatos e candidatas foram avaliados por médicos e fisioterapeutas. Os profissionais mediam, pesavam, olhavam gordura corporal e avaliavam a flexibilidade do bailarino.
“Nesse dia, alguns bailarinos já foram eliminados. De noite, o site divulgou os nomes de quem voltaria no outro dia, e o nome da Mari estava lá!”, conta Giovana. As crianças avaliadas foram reduzidas de 200 para 80, aproximadamente. A etapa ponderava a parte cognitiva dos candidatos, com provas de português e matemática. No mesmo dia também ocorreu, a parte musical rítmica, em que tinham de seguir um pianista no ritmo, para avaliar a musicalidade.
‘Decidimos ir atrás do sonho dela’
Apenas na terceira e última fase, os examinadores analisaram a aptidão artística. Assim, as crianças tiveram que fazer exercícios técnicos de balé e flexibilidade, avaliados por cinco professores do Bolshoi. No final de toda essa seleção, foram escolhidas 20 meninas que fariam parte da turma desse ano, e novamente o nome de Mariana estava na lista.
A mãe admite que foi uma surpresa, que sabia do talento e da tendência da filha para o balé clássico. Porém, passar para uma escola profissional tão importante foi um espanto. A decisão da mudança para o Sul não foi difícil. “Vimos que essa é uma oportunidade única e que não podíamos deixar passar. Pensamos que, se ela foi uma das poucas escolhidas, devíamos investir e ir atrás do sonho dela”, comemora Giovana.
A família já está em Joinville à procura de apartamento, mas por enquanto apenas Giovana, Mariana e o irmão Mateus ficarão direto na cidade. Ricardo, o pai, devido ao trabalho, ficará entre Juiz de Fora e a cidade catarinense. As aulas começam nesta segunda-feira (17), de forma presencial, seguindo protocolos de segurança sanitária. Apesar da oportunidade única, Giovana ressalta que a prioridade é que a experiência seja prazerosa para Mariana, que, afinal, ainda é uma criança.
