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‘Saio muito fortalecido’

sombra e agua fresca pintar e pescar estao entre os planos de gerson

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“Sombra e água fresca”: Pintar e pescar estão entre os planos de Gerson

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A segunda casa do botão da camisa já está livre. Em seu primeiro dia como aposentado, Gerson Guedes parece mais confortável. Sorridente, encontra espaço para contar uma piada sobre um matuto e não para de enumerar seus planos como artista em tempo integral. “A pintura ficou muito represada em mim nesses últimos dois anos. Agora vou fazer meu registro de microempreendedor individual (MEI) e ter meu ócio criativo para pintar”, projeta. Após 30 anos como professor do Colégio de Aplicação João XXIII, estando nos dois últimos anos à frente da Pró-reitoria de Cultura da UFJF, Gerson Esteves Guedes, aos 57 anos, olha para trás e percebe o que permaneceu e o que mudou. “Não consegui vestir o paletó do gestor. Nunca combinei com ele. Por ser uma área e uma função em que tive muita liberdade, isso compensou meu desconforto. É possível ser simples e ter elegância”, diz, aos risos, em entrevista exclusiva para Tribuna.

Com olhos marejados, ele repete o mesmo discurso de quando decidiu aceitar o convite para coordenar as atividades de importantes equipamentos e entidades culturais da universidade, como o Cine-Theatro Central e o Museu de Arte Murilo Mendes: “A gente passa, e as instituições ficam. E ficam para nossos filhos, que saberão que fizemos algo para que aquilo esteja de pé. Tive a chance de contribuir e para isso usei o que é norte na minha vida desde quando engraxava sapatos, de quando comecei a pintar – ‘Tudo vale a pena quando se faz com o que se é'”. Agora, o homem que recusa pompas e por muitas vezes foi visto “pegando na enxada” – como no Festival de Jazz do ano passado, em que se juntou para limpar a Praça Cívica depois do show -, quer ter mais tempo para a mulher Joana e para os filhos Jonas, de 21 anos, e Gabriel, 13.

Justo agora

Gerson Guedes se despede justamente em um momento de cortes no orçamento das universidade e diante das muitas especulações sobre a possibilidade de renúncia do atual reitor Júlio Chebli. Contudo, assegura que sua intenção é antiga e independente da conjuntura. “Ao longo desse início de ano, não fomos muito prejudicados com a crise econômica. Sempre tivemos muito apoio para trabalhar, apesar de o ritmo ter diminuído. A minha hora chegou, e acho que dei minha contribuição”, comenta, mostrando os documentos que comprovam o protocolo de sua aposentadoria e renúncia ao cargo de pró-reitor no dia 1º de abril, quando Chebli ainda não havia entrado de férias. “Não tenho mais promoção nenhuma. Minha carreira na universidade terminou”, afirma Gerson, contando ter atingido, em dezembro, o nível máximo de progressão, após receber o Reconhecimento de Saberes e Competências, equivalente a um doutorado para professores do ensino básico.

De acordo com o artista, sua saída só deu após a concretização de dois grandes projetos, do qual se orgulha ao narrar detalhes. “A restauração do Central já está em fase de finalização, e ele está completamente lindo. Consegui, também, trazer a terceira edição da Bienal de São Paulo, que exigiu um imenso esforço”, diz. “Deixei todos os projetos lá, para que possam dar continuidade”, completa, afirmando sua disponibilidade e compromisso em repassar todos os procedimentos e planejamentos da pasta. Segundo informação da assessoria de comunicação da UFJF, quem assume o cargo é a professora do Instituto de Artes e Design Valéria Faria, que esteve à frente do então Centro de Estudos Murilo Mendes justamente no período de transição para Museu de Arte Murilo Mendes, em 2005.

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O acesso como norte

Ao assumir outro lugar no sistema da arte – de ocupante à gestor dos espaços -, Gerson Guedes se comprometeu a abrir portas. Para o garoto nascido no Bairro de Lourdes, criado entre o Bairro Alto dos Passos e o povoado de Santo Antônio do Chiador, que aos 13 anos começou a trabalhar como desenhista em uma fábrica de plásticos e daí mudou suas perspectivas de vida, dar acesso era o mais importante. “A minha vida se transformou completamente quando entrei pela primeira vez, com uma professora, no Museu Mariano Procópio e me deparei com o quadro “Tiradentes supliciado”, de Pedro Américo. Fiquei uma semana pensando no que vi. Talvez tenha decidido pintar com aquela oportunidade”, recorda-se. Durante sua curta gestão, o artista criou eventos de ocupação para a Praça Cívica, um dos principais destinos dos finais de semana do juiz-forano, além de idealizar e manter o projeto Coletivo Cultural. Segundo ele, os ônibus fretados pela UFJF para o Museu de Arte Murilo Mendes já levaram mais de cem escolas da cidade às exposições.

“Fico feliz por ter mostrado outros caminhos, confirmando que o aparelho cultural da universidade pode ser muito próximo da comunidade. É preciso haver uma simbiose”, discursa o filho de um serralheiro com uma professora, autor dos muitos quadros que tecem uma ode à cidade. Apesar de se despedir antes de concluir planos como o Espaço Angelo Bigi, uma espécie de museu no interior do Central, Gerson diz ter cumprido um papel, principalmente em relação às muitas parcerias firmadas pela instituição com entidades e com a Prefeitura. “Agradeço muito a todos pelo espaço que me foi dado. Saio muito fortalecido”, diz o pescador amador, pronto para os peixes grandes que lhe aguardam.

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