
Roqueiros participantes do festival se encontraram na Praça do São Mateus na tarde de segunda-feira
Vai ter rock, sim senhor. Mas também vai ter, a exemplo dos outros anos, a solidariedade de quem pode e quer ajudar o próximo. É com este espírito que tem início, nesta sexta-feira, a 11ª edição do JF Rock City, que vai reunir em dois dias, no Cultural, nada menos que 21 bandas, incluindo artistas locais, de Poços de Caldas e também Raimundos e Matanza, todos unidos pela música e por uma causa nobre: além do valor da entrada, o público terá de levar um quilo de alimento não perecível ou um litro de leite de caixinha, que serão doados para a Ascomcer no Dia Mundial de Combate ao Câncer (8 de abril). Segundo a organização do evento, no ano passado foram doados quatro toneladas em alimentos para a instituição, quantia que seria suficiente para suprir a Ascomcer por nove meses – devido a questões de prazos de validade, parte das doações foi repassada para outras instituições.
A primeira noite do festival terá cinco atrações: os locais Ellyot 5, Obey!, Smouke e Visco, além dos brasilienses Raimundos. O segundo dia do JF Rock City será no dia 26 no clima de maratona musical, com 16 bandas revezando-se nos palcos interno e externo do Cultural: a visitante Lotloryen (Poços de Caldas), as locais Algar, Usversus, Martiataka, Traste, La Macchina, Kymera, Outubro ou Nada, Insannica, Glitter Magic, Vivenci, Radiocafé, The Basement Tracks e Soul High. Para fechar os trabalhos, o Matanza volta à cidade para detonar todo o seu peso sonoro. Além disso, o festival vai abrir espaço para uma banda formada por universitários: cinco grupos foram selecionados pela organização, e o mais votado por meio do Facebook deve ser conhecido no próximo dia 21.
Um dos organizadores do JF Rock City ao lado de Luqui Di Falco, Rhee Charles lembra que o evento este ano terá uma estrutura menor que a de 2015, quando o festival comemorou dez anos. Além de um número menor de atrações, todas elas foram concentradas no Cultural, ao invés das quatro casas do ano passado. O que não quer dizer que o evento perca em qualidade. “Já faz alguns anos que abrimos os leques de estilos no festival, e isso é bom. A sonoridade é um pouco mais leve no primeiro dia, e mais pesada na segunda. Mas teremos bandas de hard rock, death metal, punk/hardcore, brit rock. As bandas poderão tocar num local com som legal, muitas pela primeiras vez, e o público poderá conhecer o som dessa galera. Em termos de bandas, não devemos nada a outras cidades do Brasil, tanto que o JF Rock City seria um sucesso somente com bandas daqui, afinal muitas delas têm seus próprios fãs”, pontuou.
Quanto a Raimundos e Matanza, Rhee Charles acredita que são artistas que o público em geral vai gostar de assistir. “É uma galera que impõe respeito. Matanza é uma das poucas bandas do underground nacional que consegue ter visibilidade, e o Raimundos tem toda uma história. Mesmo sem a formação original é um grupo muito querido.”
Sobre o caráter beneficente do evento, Rhee destaca que é o tipo de ação que deixa todos felizes por poder ajudar uma instituição como a Ascomcer e que é uma campanha que esperam jamais deixar de realizar. “Mesmo quem não for ao show pode fazer a doação, seja no local ou pedindo que a gente vá recolher.”
Rolando e agitando as pedras
Dos festivais realizados atualmente em Juiz de Fora, o JF Rock City é um dos eventos que acontecem há mais tempo, ao lado do Festival de Bandas Novas. O agito é reflexo de uma tradição do rock local, que para muitos vem desde a década de 1980. E não deixa de ser, inclusive, um atestado de que o cenário juiz-forano mantém-se em atividade apesar de todas as dificuldades. “É o maior festival de rock independente da cidade, que além de bandas conhecidas do cenário nacional apresenta artistas da cena da cidade, da nova à antiga”, destaca Matheus Pierrot, do Usversus. “E o mais legal é que não é apenas divulgar e movimentar a cena da cidade, pois tem a ajuda à Ascomcer, que é uma instituição que faz um trabalho muito maneiro. Isso dá um gás maior ainda para que o evento dê certo.”
Victor Polato vai tocar pela terceira no festival com a Vivenci, mas é um dos músicos locais que tem experiência para confirmar que em Juiz de Fora a roda gira, mesmo que nem sempre seja fácil como muitos possam imaginar. “O primeiro Bandas Novas, em 1999, no Parque da Lajinha, foi incrível! A banda ganhadora foi a Altumm Flowers, que tinha como guitarrista Maurício Ávila, que hoje é guitarrista da Glitter Magic. Todas as pessoas que estão na ativa, hoje em dia, com bandas em destaque no JF Rock City, começaram ali. Toquei em todas as edições do Bandas Novas que aconteceram no Tupi, de 2000 a 2006. Foi como eu realmente aprendi a tocar e tenho certeza que foi como toda a nossa cena atual foi moldada”, diz Victor, para quem o cenário local tem evoluído. “As bandas estão cada vez melhores. Tocando melhor, compondo melhor, se organizando melhor, mas ainda tem muita dificuldade para fechar os shows. Como o rock não está tão em alta como há tempos atrás, a luta para conseguir uma data numa casa bacana, com estrutura, fica maior. Mas as bandas estão querendo fazer, quando uma ajuda a outra, a coisa tem andado.”
Quem tem pensamento quase idêntico ao de Victor Polato é Del Guiducci, o frontman do Martiataka. “Eu creio que Juiz de Fora nunca viveu um momento melhor na música independente. Há uma produção muito boa, com muito cuidado por parte dos artistas, desde os mais antigos até os mais novos. E também nunca houve tanta integração entre as bandas, o que é determinante na constituição de uma cena de verdade”, anima-se. “E essa organização, muitíssimo influenciada pela maneira como o pessoal do JF Rock City vem conduzindo o festival a cada ano, tem aberto espaços para que as bandas toquem mais, façam eventos juntas, convençam as casas de show e bares de que ter uma noite de rock com duas, três bandas é legal, mas também pode ser rentável. Nunca houve tanto espaço: você pode ter shows no Cultural Bar, no Café Muzik, no Galpão, no Maquinaria, no Cai & Pira, até bem pouco tempo podia ter no Bar da Fábrica, que infelizmente não pode ter mais bandas tocando alto lá… é proporcionalmente melhor que qualquer outra cidade do Brasil onde eu já tenha tocado, porque as bandas têm investido no seu show autoral, e as pessoas têm ido assistir”, acrescenta Del, citando as dificuldades que artistas de cidades como São Paulo, Rio, Curitiba e Belo Horizonte – locais em que sua banda já se apresentou – têm para mostrar seu trabalho no próprio quintal.
“Vivemos um momento único”, emenda o artista, que alerta para que o que foi conquistado não acabe se perdendo. “Temos de ter muito cuidado para manter essa evolução. Juiz de Fora hoje é exemplo para qualquer outra cena do Brasil. O próximo passo é a regionalização, que já começa a acontecer aos pouquinhos, com o ingresso de outras cidades neste circuito, como Ubá, que já expande a abrangência através do Dellano Rock Bar. É um momento muito especial para o rock de Juiz de Fora e pode ser para toda a região.”
JF ROCK CITY
18 de março, às 22h, com os grupos locais Ellyot 5, Obey!, Smouke e Visco. Encerramento com Raimundos
26 de março, às 16h30, com Lotloryen (Poços de Caldas), Algar, Usversus, Martiataka, Traste, La Macchina, Kymera, Outubro ou Nada, Insannica, Glitter Magic, Vivenci, Radiocafé, The Basement Tracks e Soul High (Juiz de Fora). Encerramento com Matanza
Cultural Bar
(Avenida Deusdedit Salgado 3.955)

