
Nova passarela, escolas antigas e o mesmo objetivo: retomar o carnaval na cidade. O desfile das escolas de samba de Juiz de Fora voltou a ser realizado na noite de domingo (15), dois anos depois da última edição. Com duas agremiações do grupo A e duas da chave B – que buscam o acesso -, os 750 metros, aproximadamente, da avenida foram tomados de animação e emoção por cerca de quatro horas, com cobertura da Tribuna nas redes sociais.
Anteriormente, o desfile era realizado na Avenida Brasil; depois, a Funalfa chegou a alterar o local para a Avenida Garcia Rodrigues Paes, no Bairro Barbosa Lage. Contudo, a passarela foi o Circuito Júlio Guedes, com concentração no Viaduto Roza Cabinda e cortejo até a Arena Flavinho da Juventude, na Praça da Estação, no Centro da cidade. O bloco Afoxé Filhos de Oyá, mais uma vez, fez as honras de inaugurar a nova avenida do samba.
A arquibancada foi montada com capacidade para 500 pessoas, junto a uma área exclusiva para pessoas com deficiência (PCD). De qualquer forma, o espaço era livre: o acesso à avenida gratuito permitiu a chega de diversos foliões que acompanharam de perto o retorno do carnaval no município. A Tribuna tentou apurar uma estimativa de público presente, mas não obteve retorno da Prefeitura e do Corpo de Bombeiros até esta publicação.
O diretor-geral da Funalfa, Rogério Freitas, destacou, antes do desfile, que a expectativa para o evento era a melhor possível. “As escolas capricharam. Vamos apresentar um bom ‘carnaval da retomada’, testando a nova passarela. O (acesso do) público é gratuito e as pessoas compareceram”, celebra.
Alegria dentro e fora da passarela
Seja sentado na arquibancada, em pé nas grades que separavam as pessoas da passarela e até mesmo de cima do viaduto: o importante era prestigiar. A animação era tanta que os profissionais do Demlurb, responsáveis pela limpeza ao fim de cada escola, eram celebrados a cada passagem pela Avenida Francisco Bernardino. O enfermeiro Gustavo Wenzel, animado do início ao fim, conta que aproveitou o evento. “Achei muito bacana. É a primeira vez que assisto presencialmente. Já fui no Rio de Janeiro, em São Paulo e outras cidades, mas, como juiz-forano de nascença, posso dizer que faz muita falta o carnaval aqui.”
Dentro da passarela, chamou atenção a história de Simone Mattoso, da ala das baianas da União das Cores. Ela já desfila há mais de 30 anos e se mostrou extremamente feliz com a retomada na cidade. “Um ano que não tem carnaval não rende do mesmo jeito, não é a mesma coisa”, destaca. Até cerca de 40 minutos antes de entrar na passarela, Simone não ia desfilar. “Um amigo meu me ligou e disse o seguinte: ‘estou na avenida e ainda tem vaga’. Não resisti e vim”, conta. Como ela mesma definiu, estava “a cara da felicidade”.
Augusto Vieira, da comissão de frente da Mocidade Alegre, tem o carnaval na veia desde criança. “Minha mãe era diretora de uma escola de samba no meu bairro. Esse amor foi passando de geração em geração na minha família e, assim, continuamos. Desfilo desde que me entendo por gente”, relata.
Escolas brigam por acesso e título
Unidos do Ladeira e União das Cores, as duas primeiras escolas a desfilarem, abriram também a competição pelo acesso ao Grupo A do carnaval juiz-forano, aguardando a vez de Encantos da Vila e Roseira da Zona Sul. Enquanto isso, Feliz Lembrança e Mocidade Alegre – a atual campeã – inauguram a disputa pelo título. Rivais da Primavera e Real Grandeza completam o grupo especial. Com pontualidade, o desfile foi completamente encerrado ainda antes da meia-noite.
Após o desfile da corte do carnaval 2026 em Juiz de Fora, o Unidos do Ladeira teve a missão de dar início ao desfile. Apesar de a missão de estrear a nova passarela não ter sido um problema para a agremiação, o ex-presidente e alegorista Nilton Braida acredita que a folia da cidade “merecia mais”. “Pelo que já vivemos, esse não é o carnaval de Juiz de Fora. As escolas precisarem fazer carro alegórico e montar ala dentro de um mês é uma covardia”, comenta.
Carlos Fernando Cunha, mestre de bateria da União das Cores, complementa que a tradição, infelizmente, se perdeu nos últimos anos. “Agora retomamos, de acordo com as condições que temos no momento, mas com a expectativa de fazer desse desfile algo cada vez maior. Que ele conquiste as comunidades e volte a ser o que foi nos anos 1980, 1990.”
Outro ponto de crítica recorrente foi o circuito utilizado como passarela, tanto pelo sentido do desfile (do Viaduto Roza Cabinda para a Praça de Estação) como pela largura. “O povo merece o carnaval, mas o local precisa ser melhorado. Aqui é muito apertado. Seguimos lutando pelo retorno dessa festa”, diz o presidente da Feliz Lembrança, Jair de Castro.
Apesar dos problemas apontados e dificuldades enfrentadas, as escolas ressaltaram o papel da Funalfa para a realização do desfile – mas exaltando ainda mais a vontade das próprias agremiações para que o evento, de fato, acontecesse. Foi o que reforçou o mestre de bateria da Mocidade Alegre, Thoddynho Show. “A minha ala, por exemplo, tem cerca de 90 anos. Trabalhamos bastante para estar aqui.”
Repasse para escolas de samba foi feito com mesmo valor de 2025
Sobre a volta dos desfiles de escolas de samba na programação do carnaval de Juiz de Fora, houve dificuldade em se adequar às novas exigências para o repasse de verbas, que passa a acontecer sem intermediários – uma vez que, antes, o dinheiro ia para as contas da Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf) e era repassado para as agremiações.
Agora, o repasse acontece por meio de um chamamento público, que exige o cumprimento de alguns requisitos, bem como a documentação necessária. Os valores variam entre R$ 80 mil para o grupo A, R$ 32 mil para o grupo B e R$ 8 mil para as escolas mirins. Em entrevista à Tribuna, Gilberto Jubinha, presidente da Liesjuf, explicou que o repasse feito não é o suficiente para uma apresentação de um grande espetáculo, mas foi o que a Funalfa tinha para disponibilizar, com base nos anos anteriores.
Além disso, houve um atraso para que as escolas se adequassem ao novo modelo de repasse, mas Gilberto acredita que todas conseguiram trabalhar dentro de suas possibilidades.
Cidade teve apenas terceiro desfile em nove anos
No início de janeiro do ano passado, a Funalfa anunciou que não haveria desfile das escolas de samba no carnaval de 2o25, juntamente com o comunicado de um novo edital para qualificar os desfiles e garantir espetáculos melhores a partir de 2026.
O evento enfrentava dificuldades e já apresentava desafios, desde que o Ministério Público começou a apurar fraudes na prestação de contas das despesas realizadas pela Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf) com os recursos recebidos do Poder Público Municipal no carnaval de 2023.
O desfile das escolas de samba havia retornado em 2023 e foi realizado em 2024. Antes disso, houve um hiato de cinco antes – entre 2018 e 2022. À época, a justificativa para a paralisação foi a falta de tempo hábil para a organização das agremiações.
Confira os horários do segundo dia do desfile das escolas de samba de Juiz de Fora
- 19h30 – Escola Mirim Império da Torre
- 19h50 – Encantos da Vila
- 20h50 – Roseira da Zona Sul
- 21h50 – Rivais da Primavera
- 22h50 – Real Grandeza
A apuração dos votos que vai definir a escola campeã do carnaval 2026 de Juiz de Fora será realizada nesta terça-feira (17), no Teatro Paschoal Carlos Magno, às 14h.
