Depois do terceiro sinal, a cena de Juiz de Fora pode ser vista com otimismo: os espetáculos de hoje se preocupam com o bom acabamento em todas as áreas, da dramaturgia ao figurino. Antes do primeiro sinal, o cenário também é interessante: plateias mais cheias e espectadores mais envolvidos com o que é feito pelas bandas de cá. Essa é a opinião unânime de atores e diretores teatrais ouvidos essa semana pela Tribuna. Se no momento não há nenhuma peça em cartaz, o que poderia indicar um marasmo no teatro realizado na cidade, as perspectivas para a comunidade cênica se traduzem num tom positivo. Comemorando a crescente ampliação de público e de investimentos, os artistas indicam um desenvolvimento local, apesar de ainda encontrarem dificuldades durante o processo de uma peça.
Encerrada no último dia 3, a 12ª edição da Campanha de Popularização do Teatro e Dança reuniu aproximadamente 15 mil espectadores ao longo de quatro semanas, o equivalente a 3% da população juiz-forana. Contando com apenas 30 espetáculos e uma semana a menos – em 2012 foram apresentadas 36 peças em cinco semanas -, o evento desse ano confirmou, segundo seus realizadores, o fôlego da produção teatral de Juiz de Fora. "Me surpreendeu demais. Em termos de qualidade, assisti espetáculos de alto nível", afirma Pádua Teixeira, representante do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas (Sinparc) e coordenador da campanha na cidade.
Para Cristiano Fernandes, presidente da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (Apac), o saldo positivo da campanha se deve a diversos fatores, entre eles, o aumento de peças inéditas na programação (11 espetáculos), a manutenção do valor cobrado (R$ 6), a melhor distribuição de peças na agenda, a maior cobertura da mídia e o adiamento das férias na UFJF. "A campanha é uma grande vitrine de nossa produção, e, sem dúvida, percebemos que o nosso teatro tem qualidade", pontua.
Se confrontados com os dados do evento em Belo Horizonte, que já soma 39 edições e termina na primeira semana de março, a realidade juiz-forana ainda é tímida: BH reuniu, no ano passado, 156 espetáculos, em dois meses, com um público estimado em 350 mil, 14% de sua população total. Diante disso, Teixeira afirma que o Sinparc se interessa em investir mais em Juiz de Fora. "O público da cidade já considera a campanha como um evento cultural, como o carnaval. Nesses 12 anos, a cena local cresceu muito", pontua Teixeira, destacando que o mesmo evento também acontece em Araxá e Ipatinga.
Ocupando a maior parte da grade de programação de espetáculos da campanha esse ano, o gênero comédia foi o responsável por grandes plateias, mas não eclipsou produções dramáticas ou experimentais. "Claro que as comédias são as preferidas. Antes eram só elas que lotavam. Hoje tudo esgota", ressalta Pádua Teixeira. "Em três dias, recebemos quase 200 pessoas", festeja Marcus Amaral, diretor de "A farsa do advogado Pathelin", texto medieval do gênero farsesco. Segundo o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o público local tem uma predisposição ao riso, o que não pode ser caracterizado como negativo. "É um movimento real. A comédia tem feito sucesso no cinema, no teatro, nas novelas", pondera.
De acordo com Cristiano Fernandes, existe hoje um interesse em investir, também, em grupos que trabalhem com outras linguagens, para oferecer ao público a variedade que compõe o cardápio cênico da cidade. Porém, segundo ele, ainda há um entrave, visto o alto custo de algumas apresentações.
Tendo no palco sua segunda fonte de renda, Amaral pontua um crescimento na cena local, principalmente em relação ao teatro corporativo, no qual espetáculos são contratados por empresas como estratégia motivacional. "É um filão de remuneração, apesar de ser muito seletivo. Não é um campo em que você encontra portas abertas em todas as horas", explica o ator e diretor, envolvido nessa área há 12 anos. Para ele, Juiz de Fora "ainda tem muito a crescer, mas já existe um grande engajamento".
Empenhado em reabrir o Teatro Paschoal Carlos Magno, reformar a sala de encenação Flávio Márcio, no CCBM, e aprimorar o Festival Nacional de Teatro, Toninho Dutra comunga da percepção de que a expressão tem se desenvolvido. "Tem aparecido bons espetáculos, bons atores e diretores mais ousados", comenta Dutra. "Não é o ideal, mas já esteve muito pior. Era preciso muita coragem para fazer teatro antigamente", reforça Amaral.
Questão de conceito
Terra de Flávio Márcio, reconhecido dramaturgo do século XX, Juiz de Fora vê surgir, com potência, uma nova safra de autores teatrais, o que, segundo os artistas, denota o retorno do vigor nos palcos locais. Impulsionado a escrever a partir de uma bem sucedida montagem para o Festival de Cenas Curtas, o ator e dramaturgo Felipe Moratori acredita que a cidade precisa se envolver mais com a pesquisa, o que poderia ser solucionado com uma graduação em teatro, que, para ele, já conta com uma demanda. "Ainda falta formação, tanto dos artistas, quanto do público. Nosso teatro está no meio do caminho", comenta.
De acordo com Moratori, a profissionalização permite uma maior qualidade técnica, que também existe no teatro amador, mas que é alcançado com maior dificuldade. Para ele, "profissional" é uma questão conceitual e deve sempre passar pela pesquisa, pelo engajamento em alcançar novas respostas a fórmulas antigas. Fazendo coro, Marcus Amaral aponta para um cenário de migração de bons agentes da cena, que se despedem de Juiz de Fora para ganhar a vida no teatro de capitais como Rio de Janeiro e São Paulo.
Certo de que o profissionalismo não é garantia de qualidade, Cristiano Fernandes acredita que há outras saídas para um maior fortalecimento da expressão na cidade, como por exemplo, uma ampliação na agenda teatral local. Na mesma direção, Toninho Dutra questiona: "Porque não podemos ser um pólo de teatro amador e estudantil de qualidade?".
