Enfrentando dificuldades, sobretudo de espaço, as escolas de samba do Grupo A, embora tenham mantido atividades recorrentes em suas quadras, retomam o mesmo discurso quando o assunto é o custo para voltar à avenida. Incomodados com a ideia preestabelecida de sucateamento das sedes, os dirigentes anunciam formas de enfrentar os desafios e subvencionar esforços para obter cada vez mais recursos independentemente do poder público, que ainda é o grande tutor do desfile. Na opinião do presidente da Liga das Escolas de Samba, Ney Gerald, é preciso fomentar, nos respectivos redutos, projetos desenvolvidos pelas próprias agremiações. "Os dirigentes têm que mudar a cabeça quanto ao carnaval, pensando não só na beleza, mas na criatividade", ressalta o presidente, confirmando a verba de R$ 60 mil disponibilizada pela Funalfa a cada uma das seis escolas do grupo.
De olho no terreno ganho no Bairro Santa Cecília, a Mocidade Alegre – que deixou o nome São Mateus de fora esse ano para aglutinar mais comunidades como Dom Bosco, Teixeiras e Mundo Novo – pretende, por lá, instalar um atelier para a confecção e o ensino. "Nosso objetivo é formar costureiros e carnavalescos para 2013", adianta o vice-presidente Marcos Tadeu. Com R$ 80 mil previstos para o desfile desse ano, a escola – única a não ter sede – investiu na comercialização de 600 camisetas da agremiação (cada uma a R$ 20, sendo R$ 8 de custo) e no bar durante os ensaios iniciados em janeiro na Rua Belo Horizonte, no Bairro São Mateus. A gente gosta de incrementar", brinca o vice-presidente Marcos Tadeu. "Por isso contamos ainda com rifas e sorteio de brindes", completa Tadeu.
Com R$ 10 mil a mais que a Mocidade Alegre no custo para 2012, a Feliz Lembrança poderá ter seu ginásio poliesportivo ainda este ano, estimulando, assim, a prática de atividades esportivas e artísticas na comunidade onde está afixada, no Barbosa Lage. Para chegar aos R$ 22 mil acumulados ao longo de 2011, a agremiação apostou em churrascos e jantares dançante a partir de junho, além de R$ 8 mil investidos pela diretoria. "De uns dois anos para cá, o acesso da comunidade às quadras melhorou muito", observa o presidente Jair de Castro.
Enquanto isso, a turma da Mocidade do Progresso tem se virado para guardar o material adquirido para a reforma da fachada. A presidente Leila Petrato informa que pretende reforçar as cores da escola nos muros e no portão, além de grafitar, na entrada, uma mulata e um passista com um pandeiro na mão. Outra novidade é o projeto aprovado pela última edição da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, cuja proposta são aulas de dança para crianças.
Reformas estruturais
A necessidade de reformas e mais espaço para abrigar tanto a produção que vai para a avenida quanto o público é o que aponta o antropólogo paranaense José Guilherme Cantor ao definir que a quadra deve reforçar e promover vínculos de interação com o lugar e entre as pessoas. "Sem um ambiente para o encontro, os vínculos existentes entre os membros da escola de samba não seriam tão estáveis e sólidos", defende Cantor, atualmente coordenador do Núcleo de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).
Em função do incêndio ocorrido em dezembro na quadra da Mocidade do Progresso, por exemplo, Leila Petrato, além do desafio de remodelar alegorias (R$ 2 mil) que foram destruídas, trocou a parte elétrica (R$ 5 mil). Para isso, ela contou com recursos obtidos a partir de atividades como sorteio de brindes, churrasco e aluguel do espaço para eventos como aniversário de casamento. "Ainda conseguimos reformar o banheiro, concluir a reforma da rampa de acesso e dos banheiros", completa. Entretanto, atividades de lazer para a terceira idade e cultos religiosos são o forte para a quadra da escola permanecer aberta à comunidade.
Ao tentar promover rodadas de pagode, Leila foi impedida por falta de alvará. "O Corpo de Bombeiros não aprovou, porque o projeto de emergência não estava pronto, mas pedirei uma vistoria após o carnaval", ela afirma, revelando que a agremiação arrecadou cerca de R$ 600 por mês, de abril a dezembro. Entre arcar com as despesas e economizar para o desfile, a Mocidade do Progresso acumulou cerca de R$ 4.800, quantia suficiente para garantir todas as sapatilhas e a ferragem dos carros alegóricos.
Dona do maior orçamento da festa, no entanto, a Unidos do Ladeira, que chegou a ensaiar na rua por falta de espaço, está de olho em outro local na cidade. De acordo com a diretora de carnaval, Mirian Neder, a equipe está à procura de um terreno para construir um barracão, onde a agremiação pretende executar ações como reforço escolar, aulas de dança, corte e costura e projetos de mestre-sala e porta-bandeira.
Segundo Mirian, foram investidos R$ 180 mil no desfile da escola, sendo R$ 120 mil captados via sede social. Com dois bailes por semana, o espaço, conhecido como Toca da Raposa, recebe adeptos da dupla sertaneja Fabrício & Gabriel, às sextas, e do forrozeiro Paulinho Tchê Tchê, aos domingos. "Alugamos o local e ficamos com o bar", explica Miriam, informando ainda que a Unidos do Ladeira, diferentemente da maioria das escolas, não recorreu à carta de crédito, mecanismo de financiamento de custos antes da chegada da verba pública. A entrada, como confirma o presidente Marcus Valério, varia entre R$ 10 e R$ 20.
Com déficit de aproximadamente R$ 20 mil, a Real Grandeza se manteve "de pé" em 2011, por meio de almoços e eventos como casamentos e bailes. Contudo, o presidente Luiz Carlos Masson promete um carnaval de R$ 125 mil.
Enfrentando o dilema de compartilhar o espaço com as alegorias, a Partido Alto deixou a imagem de sede do funk para abrigar atrações como a velha guarda da Mangueira. "Só não fazemos mais porque não comporta", lamenta a presidente Regina Rabelo, ao justificar que não colocará a Verde e Rosa local na avenida por menos de R$ 70 mil. "Assumi a presidência em maio, ainda está tudo muito corrido", justifica.
