
João continua suas anotações e não pretende parar (Leonardo Costa/12-11-2015)
“Eu, João dos Santos, nascido a 14 de março de 1928. Filho de Sebastião dos Santos e Maria das Dores dos Santos. Pois, nasci em uma chácara por número sessenta e três. Esta propriedade é do Senhor Domingos Demartins. Meu pai é encarregado das plantações de arroz, milho, feijão.” Quando João dos Santos, aos 87 anos, abre o primeiro caderno escrito na vida, surge ali um emocionante testemunho de alguém que dá aos próprios passos a oportunidade da perenidade. Morador do Bairro Nossa Senhora Aparecida, o motorista aposentado não tem a pretensão de soar como o historiador de si mesmo, mas de fazer registrado toda a trajetória de suor, começada aos 11 anos, na zona rural de Matias Barbosa, município onde nasceu.
“Na Fazenda Paciência tinha que anotar tudo o que fazia. Assim, acabei me acostumando. Já anotei o que fiz hoje”, diz, na última quarta-feira, para logo recitar suas lembranças escritas: “Dia 11 de novembro de 2015. Acordei às 5h20. Permaneci deitado. Não dormi mais. Estive assistindo a notícia, inclusive a tragédia na cidade Mariana, mais a violência que está. Pois, levantei às 8h, pois um problema na coluna. Tomei café com leite e pão. Às 9h fui tirar um defeito da porta lateral da Besta, a van do João Cimar. Terminei às 13h.” Simpático, conversador e entusiasmado com a estrada que percorreu na vida, o homem que dirigiu por 3.585.497km, transportando 804.942 passageiros, anota meu nome e o do motorista Thiago França para logo em seguida escrever em seu 59º caderno.
1ª parada: Quilometragem
A letra, tão bonita, esconde o que João não teve tempo de fazer. “Estudei só o primário, não pude mais. Eram seis irmãos, eu o mais velho. Tive que trabalhar para ajudar o papai”, conta ele, que nasceu numa chácara e logo se viu trabalhando numa fazenda. “Comecei tratando de cavalo, vaca, porco, capinando terreiro”, diz o senhor, que em 1955 transferiu-se para o Bairro Retiro, contratado por uma fábrica de cerâmica, na qual iniciou como servente, até que o patrão sugeriu-lhe tirar carteira de habilitação. “Eu puxei 80% dos tijolos que construíram a Santa Casa”, orgulha-se. Dali, seguiu para oficinas e, na década de 1960, entrou para uma funerária. “Fazia enterros e outros serviços fúnebres. Mudei muita roupa em defunto e também fiz recomposição. Recompus o corpo de uma dona que deitou na linha e foi cortada pelo trem, em 1959, e de outro senhor, muito gordo, que tropeçou e caiu na linha do trem”, recorda-se. Perguntado se registrou todos os tristes casos, responde: “Anotei até 200 e poucos corpos, depois parei”. Motorista profissional, deu partida nos caminhões e ônibus – nas maiores viações da cidade – e só parou recentemente. “Em 1988, me aposentei, mas continuei trabalhando. Na viação Progresso, rodei 1.500.000 quilômetros. Deram 13.913 viagens, algumas grandes e outras bem pequenas”, lembra, saudoso da categoria na carteira, agora reduzida a carros de passeio.
2ª parada: Amores
“Essa aqui é minha namorada”, apresenta-me João à sua Maria da Glória, a Glorinha, de 85 anos. “Que bobeira! Nós fomos criados na roça, por isso somos bobos mesmo”, diz, envergonhada, a esposa, com quem ele está casado há 64 anos, com seis filhos, 12 netos e nove bisnetos. “A minha neta mais velha está com mais de 40 anos”, conta Glorinha. A senhora cozinha e areia panelas, numa energia comovente. “Ela é quem faz tudo. E não salga demais a comida, nem deixa faltar”, emociona-se o marido, ao que ela sorri ainda com brilho nos olhos. A todo momento nas narrativas à caneta de João, a família se faz presente. Em todos os quilômetros, a certeza era a mesma: a cada pisada no acelerador, diminuía a distância da mulher e dos filhos.
3ª parada: Eternidade
Quando peço que João me conte sobre suas anotações, as quais ele guarda num cômodo na área de casa, quero dizer-lhe que aquilo que fez como uma prática normal e, intimamente, afetiva tem valor para mim. Com seu jeito matuto – um personagem real das obras de Guimarães Rosa -, João minimiza o trabalho que seguiu não apenas na vida pessoal, mas também na profissional, anotando detalhes de cada viagem. “Minha letra é igual à do papai, mas falta muita coisa. Quem estudou vê que está faltando acento, mas dá para compreender”, ri. “Se eu não anotar o que estou fazendo parece que falta alguma coisa”, completa. E quando se for, deseja que seja feito o que com seus cadernos? “Espero que fique como lembranças. Sempre mexi com o dinheiro dos outros, com passagens de ônibus, e nunca roubei um tostão”, responde, mostrando o diário de uma vida reta. Segundo ele, não haverá ponto final em seus escritos. “Só paro quando morrer.” No papel, contudo, sempre haverá vida.

