
Do alto da torre, é possível ver a Getúlio Vargas em toda a sua extensão
Barracão guarda pesquisa sobre patrimônio feita por Nívea
Biblioteca preserva influências literárias da família
Torre de mosaico de vidros permite uma das mais belas experiências
O som da velha corrente sendo desfeita após aberto o cadeado foi substituído pelo ruído curto do sistema eletrônico. O portão da casa de número 300 da Rua Antônio Dias, no Bairro Granbery, anuncia mudanças. Os vestígios de Carlos, Celina, Décio, Nívea e Paulo, bem como dos pais Hemengarda e Waldemar continuam a dar conta de uma família que fez da vivência a experiência viva da arte. O caos dos últimos anos, quando Nívea, já com a saúde debilitada, não conseguia mais organizar suas práticas e memórias, deu lugar a uma sistematização simples, porém capaz de expor o universo de genialidades que compreendia a família Bracher. Num curto período de tempo, com as mãos hábeis da terceira geração – Cecília Bracher, filha de Paulo, e o marido Marcelo Andrade -, o Castelinho dos Bracher abre suas portas para visitas guiadas, justamente no ano em que completa 110 anos de existência.
“É importante que isso fique para nossa família. Queremos preservar, sem mudar as características que têm histórias”, comenta Cecília. “Nosso projeto é transformar essa casa em uma casa-museu, não um lugar estático, mas em movimento sempre”, completa Marcelo, que recebe os agendamentos por e-mail (agenda@castelinhodosbracher.com.br). Cada visita, voltada para grupos de cinco a dez pessoas, tem o valor unitário de R$ 20 e duração de cerca de duas horas. Segundo o casal, esse é apenas o primeiro passo de um projeto que se deseja grandiloquente. “O espaço e a estrutura que temos hoje nos permitem iniciar em 2016 uma pequena escola de pintura para adultos e crianças. Também há um projeto para inserir crianças carentes no universo da arte e da música.”
Marcelo e Cecília, junto da filha e de dois cachorros, chegaram há poucos meses na casa, com o objetivo único de zelar pelo espaço e pelas coleções gestadas em muitos anos pelos irmãos Bracher. “Quando mudamos para cá a arte entrou na gente. Em todos os cantos ela está presente”, diz Marcelo, com os olhos brilhando para cada peça que descobre e para cada objeto que traz de volta à ativa. Contagiado, o casal identificou as muitas (e grandes) demandas de trabalho e já conseguiu limpar todo o terreno e a residência, bem como realizar reparos emergenciais na rede elétrica e na iluminação externa do imóvel. No acervo, os dois já desenvolveram a limpeza e descupinização de móveis, restauração de algumas molduras e organização das coleções de louças, livros e vídeos.
Os tons dos Bracher
“Estamos, agora, organizando o que encontramos, até mesmo para poder ver tudo num conjunto. Precisamos de gente que nos ajude a liberar o barracão”, aponta Cecília Bracher, filha de Paulo, citando um espaço que fica na área externa da residência e no qual Nívea reuniu milhares de jornais e peças sobre o patrimônio de Juiz de Fora, como as letras em cimento que formavam a placa de identificação do antigo prédio do Colégio Stella Matutina na Avenida Rio Branco – demolição que se tornou um marco na luta pela preservação arquitetônica na cidade.
Aguardando a aprovação de um projeto proposto para a Lei Murilo Mendes de revitalização das estruturas de madeira da casa – dos forros às janelas -, o casal espera participar de editais públicos para solucionar custosos e vultosos problemas do imóvel. “Algumas peças em madeira poderão ser reformadas, mas outras precisam ser trocadas. O orçamento de nosso projeto contempla o que é possível ser feito. Não vamos deixar a casa ruir. Garra para fazer, nós temos, só nos faltam recursos”, afirma Cecília, para logo acrescentar: “A parte mais complicada é a das intervenções, porque a manutenção é possível”.
Segundo Marcelo, o plano a longo prazo é conseguir realizar o sonho dos irmãos Bracher, de fazer da casa um centro cultural, com sala de exposição, auditório e museu, além de oferta variada de cursos. “Estamos trabalhando para que a casa volte a ter a vida que tinha em seu auge, quando se tornou um ponto de encontro entre a intelectualidade da cidade”, pontua ele, comemorando a recepção do coral Tons de Bracher, formação baseada no Coral Pró-Música/UFJF, que passa a ensaiar e se apresentar no espaço.
Tesouros afetivos e familiares
Construção de anos e anos de uma intelectualidade impossível de ser dimensionada, o Castelinho dos Bracher tornou-se muito mais que um atrativo arquitetônico local ou um exemplar de especial acervo de arte. Detalhes preservam uma família em suas muitas referências e influências, como os tetos reproduzindo obras de grandes artistas mundiais. Marcelo Andrade, genro de Paulo Bracher, conviveu com a agitação da casa, mas não chegou a ter contato com a família dos anos em que a Galeria de Arte Celina ditou a agenda das artes em Juiz de Fora. Como um desbravador, ele descobre, dia a dia, histórias inusitadas por detrás dos guardados da residência, como um quadro de Décio que destoa completamente de seu traço, feito “no beco da antiga Antônio Parreiras”, conforme inscrição no verso, possivelmente feita por Nívea.
Marcelo também achou fitas de vídeo com entrevistas dos irmãos e outras com amenidades como os desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, além da faceta de escritor do pintor Roberto Gil num amontoado de livros. Nas pilhas de jornais, encontrou o registro de relevantes momentos de Juiz de Fora e do Brasil. “Nunca entendi porque a Nívea gostava tanto de guardar jornais”, comenta o irmão Paulo. “Ou guardava por conta de uma boa notícia de pintura, ou de cinema, ou de futebol, que ela gostava muito. Muitos desses jornais ainda estão aí por ela não ter tido tempo de ler. Teve uma época em que a sala era toda tomada por eles”, recorda-se.
Durante a visita, que passa por 12 espaços do Castelinho, um pouco do universo familiar é trazido à cena, como a própria construção da casa. “Essa foi a primeira residência que Raphael Arcuri fez em Juiz de Fora. Ele projetou para sua própria família, mas acabou passando para seu irmão Romeu e foi morar na casa ao lado, que ele também idealizou. Essa é a única construção de tijolo aparente assinada por ele e, certamente, visava a uma inovação, um rompimento. Era prática instituições públicas terem muitos detalhes e sofisticação, como essa casa era para ele, acabou sendo feita sem regras exatas”, explica o estudante de arquitetura Jonas Tadeu Ferreira, um dos voluntários na empreitada de tornar o espaço público.
Passando pelas salas principal, de áudio e vídeo e de TV, os Bracher são apresentados, bem como a geração da qual fez parte, ao lado dos pintores Dnar Rocha, Renato Stheling e Sylvio Aragão. Do corredor à cozinha, é possível conhecer um pouco da Louçarte em suas cerâmicas pintadas à mão. O visitante parte, então, para o segundo andar, e, posteriormente, para a área externa, com seus ateliês, jardins, biblioteca, pinacoteca e terraço. Do painel de mãos – com registro de quase todos os descendentes de Hemengarda e Waldemar – à impactante vista de uma Getúlio Vargas em toda a sua extensão, concluindo o trajeto com um café, o espectador é inserido no contexto de vidas que se fizeram no contexto da arte. Ali, onde cresceram Carlos, Celina, Décio, Nívea e Paulo, se formou a visualidade de uma cidade. O castelo de tintas e afetos mantém vivas suas cores.

