
Se a casa é o lugar que chamamos de lar, mansão de ‘A colina escarlate’ não vai fazer a protagonista se sentir à vontade
O cinema de terror costuma sofrer, atualmente, não só com a penca de remakes de clássicos do gênero, mas também com a profusão de cópias descaradas, esmaecidas ou hiperbólicas dos sucessos do momento, caso das produções “baseadas em fatos reais” registradas em fitas, gravações perdidas etc. – e que geralmente levam o subgênero ao esgotamento. Por isso mesmo, sempre é bom poder contar com figuras como o cineasta mexicano Guillermo del Toro, capaz de produzir pequenas pérolas do gênero: “O labirinto do Fauno”, “A espinha do diabo” e agora “A colina escalarte”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira. Este é seu primeiro trabalho na direção após o excepcional – e ainda hoje subestimado – festival de monstros kaijus e robôs jaeggers de “Círculo de Fogo”.
Em sua volta ao terreno do terror gótico, o mexicano pode até partir de um dos elementos mais batidos (a história de casa mal-assombrada), mas o enredo criado por ele busca fugir da mera repetição de clichês. Passada no final do século XIX, a história tem como personagem principal Edith Cushing (Mia Wasikowska), uma jovem escritora americana atormentada desde a infância por fantasmas que só ela consegue ver, afetada recentemente por uma tragédia familiar. Ela troca o futuro com um antigo amor da infância ao ser arrebatada pelo charme do misterioso inglês Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), que foi aos Estados Unidos com a irmã, Lucille (Jessica Chastain), para conseguir os meios necessários para acabar com a estranha gosma vermelha que brota da mansão que os dois herdaram na Inglaterra. Ela aceita se casar com Thomas e segue com os dois para a Allerdalle Hall, imponente mansão no alto de uma colina que já passou por dias melhores. Atualmente, ela é uma imensa construção caindo aos pedaços, escura, com paredes descascando e o teto parcialmente desabado.
Se a impressão já não seria das melhores (na verdade, qualquer pessoa com bom senso pediria para sair com menos de cinco minutos na casa), a situação da jovem piora quando ela começa a ser atormentada pelos fantasmas da mansão, local de incontáveis tragédias e mistérios que ela sequer poderia imaginar. Enquanto vai afundando numa espiral de sustos, vozes, criaturas do além e outras ferramentas básicas do terror, Edith não pode contar com a ajuda da fria e distante cunhada e muito menos do próprio marido, que passa a agir de forma estranha e perturbadora. Mas a jovem, fruto de um período em que o romantismo e a devoção ao marido falavam mais alto, faz o que pode para não ceder à loucura e desespero na casa assombrada.
Terror doméstico
A casa, aliás, é um personagem à parte que merece destaque. Guillermo del Toro conseguiu fazer um filme relativamente “barato” ao gastar US$ 70 milhões na produção, mas não economizou quando o assunto foi a mansão, inteiramente construída em estúdio e com a qual ele busca repetir o clima do clássico “O iluminado”, de Stanley Kubrick. Para criar os momentos de tensão e terror de “A colina escarlate”, o diretor mexicano preferiu os efeitos práticos em detrimento à profusão de efeitos especiais. Tanto o interior quanto o exterior da residência foram criados com atenção esmerada aos detalhes, fazendo crer que Allerdalle Hall é uma decadente construção com um espírito gótico e provocador de medo em plena Era Vitoriana, quando histórias como “Drácula” e “Frankenstein” provocavam sincero medo nas pessoas. Para completar, só precisaria mesmo que Guillermo del Toro mostrasse porque é um dos grandes nomes da atualidade quando o assunto é filmes de terror, e isso o mexicano de Guadalajara realiza com um pé nas costas.
A COLINA ESCARLATE
UCI 1: 19h, 21h30 (todos
os dias) e meia-noite (sexta-feira e sábado)
Classificação: 16 anos

