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O lado nu e cru

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Para uns, um subversivo. Para outros, um gênio. Na corda bamba entre a vulgaridade e a realidade mais imprópria e absurda, Dalton Trevisan elenca crianças, velhos e familiares na trama erótica de seus contos. Vencedor dos prêmios Portugal Telecom, em 2003, Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional, em 2008, Machado de Assis e Camões, em 2012, o escritor curitibano, recluso há décadas, ainda mantém o fôlego que o consagrou na arte de ficcionalizar as sombras de sua terra natal. Na antologia Novos contos eróticos (Editora Record, 206 páginas), que acaba de chegar às livrarias, a tradição literária brasileira entra em contato com um estilo próprio, baseado em diálogos curtos, cheios de dinamismo e sempre deixando por falar.

Não à toa, o livro se inicia com Capitu sou eu, no qual um jovem aluno defende a infidelidade da personagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Confuso, na falta de argumentos, supre-os com a veemência e a gesticulação arrebatada: infiel, a nossa heroína, pela perfídia fatal que mora em todo coração feminino, narra um observador, capaz de enxergar o desenrolar de uma história de atração entre a professora e o estudante. A correção da mulher se choca à rudeza e à petulância de um jovem destemido. Ao final do conto, fica a sensação de que a tal Capitu, mítica, é absurdamente comum. Trevisan, então, nas sublinhas, defende as obscenidades do clássico. O gênio, assim, também é subversivo.

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Em Tio Beto, novamente a escola entra na rota do autor, mas desta vez a estudante é uma menina, e mais nova, mais infantil. Assim que eu sentava no primeiro banco, ele passava a mão em mim. Pelo cabelo. O pescoço. O peitinho. Eu não sabia o que era, mas não gostava. Tinha medo do olhar dele no espelho. E tirava a mão. O tio voltava com a mão. E cada vez eu tirava, narra a garotinha, como em O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst. De olho nos desvios humanos, ambos autores souberam dosar as palavras. A estranheza, explorada por Trevisan, é elemento primordial para fazer com que o abuso de uma criança na van escolar soe mais palatável, embora grotesco.

Cotidiano incomum

Um vizinho é chamado para pendurar um quadro na casa de uma senhora viúva. A ação, solidária e banal, se transforma em sexo. Meia hora, se tanto. Pendurar o quadrinho, não me lembrei. O retrato oval do falecido na moldura dourada?, ironiza o homem, certo de que fez um favor maior do que o pedido inicialmente. Da mesma forma, um encontro trivial no ônibus se torna enlace amoroso em A gente se vê. Saí depressa pela rua escura. Nesta cidade social você é trombado, roubado e currado em cada esquina, comenta o homem que se depara com uma mulher na rua, adentra a casa dela, e como desconhecido, ama e se despede.

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Contudo, apesar de a banalidade do dia a dia saltar aos olhos na nova antologia de Dalton Trevisan, são os misteriosos ataques, a volúpia desenfreada do ser humano e a violência em meio a uma rotina comum que chamam atenção. Um dos pontos altos do livro, Macho não ganha flor, retrata um criminoso, que adentra a residência de uma mulher para estuprá-la, enquanto a mãe e a irmã estão fora. Num arroubo, o homem fala para a mulher: Que tanto chora e treme e se desespera? O que tem de mais? Pensa que é a primeira? E a única? Nem é tão ruim assim. Algumas bem que gostam. Uma ruiva, quando eu saía, pediu que voltasse. E quis me dar uma rosa ou cravo, sei lá.

Para se livrar do criminoso, a mulher dispara que homem não ganha flor. Ele vai embora, ofendido. Aí, a personagem e Trevisan deixam claro o argumento maior de Novos contos eróticos: palavra também é arma.

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