
Tirinha que Raphael Salimena publica na rede com apoio financeiro de seus leitores
No próximo mês, o quadrinista Raphael Salimena receberá U$ 272 (pouco mais de R$ 1.030) para a produção de duas tirinhas por semana. Quem pagou? Internautas. Para quem serão feitas? Internautas. Lançando mão da plataforma norte-americana de financiamento coletivo Patreon (patreon.com), o artista se compromete a publicar suas criações em seu site Linha do Trem (linhadotrem.com.br). Caso alcance U$ 325 mensais (aproximadamente R$ 1.235), Salimena garante duas tiras por semana mais a publicação de uma página mensal de “Vagabundos no espaço”, longo quadrinho de comédia de ficção científica dividido em capítulos. Até chegar ao atual valor, o artista gráfico já superou duas metas: U$ 100 (uma tirinha por semana) e U$ 250 (duas semanais). “Esse é um modelo no qual aposto muito, que é o produtor de conteúdo da internet podendo se dedicar à obra em si sem ter que vender anúncio, sem ser comercialmente agressivo. Esse é o futuro”, comenta Salimena.
Antes limitada a servir de espaço de divulgação artística, a internet hoje já é dominada pela compreensão de que pode, também, ser espaço de geração de conteúdos de artes que, não necessariamente, se alimentam do formato físico. Ironicamente, tudo se virtualiza, exceto a relação com o espectador, que se afina e se estreita. “A ideia é que quem gosta do meu trabalho me ajude a fazê-lo. A diferença para o financiamento coletivo padrão é que o valor é mais baixo, as metas são mais baixas, e o esquema é contínuo”, explica Salimena, que contribui, mensalmente, com cinco contas do Patreon. As cotas de participação variam de U$ 1 (citação nos agradecimentos) a U$ 30 (a cada três meses, o leitor recebe uma tira impressa em papel canson).
Ao contrário do que pode ser presumido, não se estabelece, assim, uma relação empregador-empregado. O leitor continua sendo leitor, e o artista, também. “O diálogo com o leitor sempre existiu. E isso é interessante. Não é porque ele está pagando que dirá o que vou fazer, mas é importante conhecer e trocar com ele”, pontua salimena, também autor dos quadrinhos semanais do Portal UOL Tecnologia.
Para o escritor Darlan Lula, que desde março publica semanalmente em seu blog (darlanlula.blogspot.com.br) os capítulos do romance “Nuvens”, o internauta não define os rumos do texto, mas indicam possíveis leituras e interessantes enfoques. “No papel, a escrita é solitária. Do início ao fim, não há o contato com o leitor. Na rede, é possível conhecê-lo e saber qual seu interesse. Com os folhetins dos jornais de antigamente era assim, porque as cartas guiavam os textos”, aponta.
A rede é uma rede
Cada vez mais potentes, os canais para downloads ou escuta de um disco também indicam que há um novo veículo para a produção musical, que não os caros e, de acordo com os novos modelos de aparelhos de som, ultrapassados CDs. Plataformas como Spotify, Deezer, Rdio disponibilizam por um custo bastante baixo (alguns por menos de R$ 2) álbuns que ainda nem chegaram ao formato físico. O músico Raí Freitas é um dos que apostam na rede, ainda que sua produção não seja voltada, exclusivamente para ela. “Não produzo para a internet, produzo para as pessoas, para mim, para compartilhar algo. A rede é um instrumento que viabiliza esse contato. A preocupação é o contato, então, eu não me restrinjo só a rede. Se for viável fazer disco físico, farei também. Vinil? Farei. Fita? Farei. Tudo que for viável e aumentar esse contato, essa interação, será feito”, diz.
Neste sentido, de ter a internet como meio e forma, Darlan Lula também não se rende à rede. “Não quero trazer a linguagem da internet, mas gerar a curiosidade no leitor a cada parágrafo. Quero que ele se sinta curioso em relação às ações dos personagens. Não é preciso, para estar na rede, nivelar-se à linguagem. É preciso pensar nos vários leitores, os que escrevem assim e os que não sabem ou não conseguem”, defende ele, que lança mão do padrão culto,sem ser hermético, para, a cada semana, revirar a história de personagens complexos, feito do bem e do mal, traidores e traídos, sempre sujeitos aos novos ventos, como o conjunto de partículas que dá nome à obra.
“Assim como a história vai evoluindo, a forma de escrever também vai ganhando corpo. A identificação também é minha com a história, permitindo um tom mais coerente. Desde o 20º capítulo, dou tonalidade mais descritiva ao que quero ambientar”, reflete o escritor, que se utiliza do Facebook e do Youtube para a veiculação de imagens e vídeos que instiguem o leitor a seguir no romance.
Entre facilitar e complicar
Segundo Raí Freitas, que lançou seu EP “O andarilho” primeiro na rede, a internet influencia a criação, mas não é um imperativo artístico. “Ela facilita o acesso a informações verídicas e não verídicas. Ela dá uma dinâmica muito mais acelerada. Isso influencia qualquer um que faz qualquer coisa, não só o compositor. A rede é um instrumento que pode ser um facilitador e um complicador. Esse, por sinal, é um excelente tema, e temas influenciam sempre a criação.”
Ainda que não ofereça meios financeiros para que se viva exclusivamente dela (com algumas exceções, dentre elas os blogs de moda e comportamento), a internet se profissionaliza tanto como mercado, proporcionando que captações sejam feitas de maneira muito mais célere, quanto como canal de expressão. “Não importa quantos leitores terei, mas quais leitores terei. A internet é uma grande janela, que dá visibilidade”, pontua Darlan Lula. Contudo, ainda não substitui o valor daquilo que é tátil. Raphael Salimena, Darlan Lula e Raí Freitas não excluem a forma física de seus projetos, já que é nesse padrão que ocorre a legitimidade diante da grande oferta presente na web. “Não faço pensando em livro, não é objetivo, mas uma consequência legal do trabalho”, diz o quadrinista. “Minha prioridade é o contato, o formato final – CD, vinil, site, fita, show – é o instrumento”, conclui Raí.

