Comentar é sinônimo de criticar. Curtir é, de algum modo, a defesa do gosto. Na era do Facebook, as próprias plataformas das redes sociais induzem ao que já ocupou páginas e mais páginas de jornais e revistas, definindo plateias, destruindo ou alavancando carreiras e, incontestavelmente, registrando a história cultural do país. Hoje, há críticas que se fartam em menos de 140 caracteres e outras que demoram um livro todo para serem debatidas. Ainda que os artistas se ressintam de que faltam olhares analíticos, a crítica não morreu. Algumas agonizam, vitimas de um formato estruturalista há muito datado. "Acredito que o estruturalismo está lento e rapidamente sendo diluído. Para além de uma consciência coletiva ressurge o indivíduo, e é nessa fresta que a singularidade vai retomando a cena criativa. Um novo estranhamento", explica o professor do Centro Universitário Geraldo Di Biase, Alan Flávio Viola, organizador do recém-lançado "Crítica literária contemporânea" (Editora Record).
Se ao longo da trajetória cultural brasileira, foram os críticos quem escreveram os principais capítulos da arte nacional, as penas de hoje funcionam de modo diferente. Com 90 anos de vida e mais de meio século de carreira, a crítica teatral Barbara Heliodora é uma das resistentes na prática moderna, que enfileira elementos detidamente, para, enfim, observar o todo. A temida senhora de cabelos alvos e gestos firmes, maior tradutora da obra shakesperiana no Brasil, foi influenciada por Décio de Almeida Prado, do qual se tornou amiga. Através das análises do crítico, a história recente do teatro brasileiro foi registrada em livros fundamentais, como "Teatro brasileiro moderno" entre outros. Da mesma linhagem, o imortal Sábato Magaldi e Yan Michalski, no teatro; Flávio Lins, na literatura; Sérgio Milliet, nas artes plásticas; Jean-Claude Bernardet, no cinema; e José Ramos Tinhorão, na música; entre outros, contribuíram para o pensamento e para o registro.
"Acredito que hoje talvez ocorra a permanência de uma crítica mais rigorosa – no sentido usual de apontar o que vai ficar e o que não vai ficar. Não sei se isso seria ainda uma herança da apologia do rigor, soberana na década de 1980. Nada garante que esses leitores críticos estejam absolutamente certos", afirma Alan Flávio Viola, que em seu livro apresenta uma nova crítica, com frescor e mais comprometida com discussões amplificadas, capazes de extrapolar a própria obra, como José Castello, um dos grandes nomes na área literária. Como diria Roland Barthes, o desafio do crítico é sua própria linguagem. "A crítica é uma leitura profunda (ou melhor: profilada), ela descobre na obra um certo inteligível, e nisso, é verdade, ela decifra e participa de uma interpretação", defende o escritor e filósofo francês em seu "Crítica e verdade".
Segundo Viola, o que a crítica literária contemporânea faz hoje é o que Machado de Assis almejava, já em 1865, em texto publicado no "Diário do Rio de Janeiro". "Crítica é análise – a crítica que não analisa é a mais cômoda, mas não pode pretender a ser fecunda." Para Edil Costa, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural da Universidade do Estado da Bahia, um dos poucos a se dedicar ao assunto no país, a crítica tem esse papel abrangente. "A partir da constatação de que a cultura é lugar de poder, conflitos, construção de identidades e que pode ser um forte instrumento de dominação, a crítica cultural pode contribuir para apontar caminhos de transformação social. Desse modo, o crítico cultural pode, também, servir às diretrizes das políticas públicas", destaca Edil.
Novas vozes, outros espaços
Enquanto o mercado fonográfico se vê às voltas com a ampliação de recursos da internet, reduzindo tiragens de discos e aumentando a circulação de álbuns pela rede, o trabalho de análise musical se espalha por blogs e sites especializados. Criado em 2006, o blog "Notas musicais", de Mauro Ferreira, é prova da efervescência atual. Já tendo passado por veículos como o jornal "O Globo", a revista "Isto É Gente", atualmente Ferreira é crítico de "O Dia", folhetim carioca, e colabora com a revista "Rolling Stone". Em seu espaço virtual, chega a fazer cinco postagens diárias, alcançando um público de seis mil leitores por dia. "São apenas seis mil leitores, mas são qualificados, por isso percebo que a influência do blog se mede muito mais pelo nível desses internautas", comenta ele, que diz ver na internet uma partilha maior. "Ela diluiu o poder. E prefiro assim, já que a responsabilidade diminui. Não há um dono da verdade, e sempre há o diálogo."
Segundo Edil Costa, a migração dos jornais para a internet é natural, mas não definitiva. "Não é de hoje que se preconiza o ‘fim do mundo’. A cultura se transforma o tempo todo, como a própria sociedade, que se adapta às novas formas e suportes que vão surgindo, muitas vezes por exigência das novas demandas. Se o conteúdo é disperso, isso vai exigir dos leitores mecanismos para acompanhar e dar coesão a esse material. A crítica pode ter migrado para a internet, mas nem por isso deixou de estar no jornal", sentencia. De fato, toda palavra, mesmo que jogada no ar, é seleção, é crítica em alguma medida.
Curadora prestigiada no Rio de Janeiro, Daniela Labra iniciou-se na crítica em 2002, num periódico especializado, e concorda com os rumos apontados por Ferreira e Edil. "A crítica hoje mudou, o meio como um todo mudou, e o mercado, também. A circulação de dinheiro nunca foi tão frenética na história da humanidade. Então todos os modos de produção nas artes mudaram de alguma forma. Todos os atores foram afetados", reflete. Segundo ela, um dos lugares da crítica de arte hoje é na curadoria de exposições, percebida como modo de fazer análise crítica de fatos e possibilidades estéticas na relação com o mundo, a história e a própria arte. "O texto curatorial sobre um determinado projeto de exposição, por exemplo, pode estar apontando para novas questões. Não é exatamente uma escrita crítica no modelo passado. A curadoria contemporânea deve ser uma prática com reflexão crítica, e a escrita a acompanha", avalia Daniela, que atualmente assina a curadoria da exposição "Vazio de nós", da paraense Berna Reale, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR).
No teatro, a curadoria de festivais também tem sido uma via. Segundo o dramaturgo, dramaturgista, diretor e crítico teatral Lucianno Maza, que esteve em Juiz de Fora na última semana, como convidado do 7º Festival Nacional de Teatro, a prática é, nos dias de hoje, um meio de sobrevivência para os críticos. "A curadoria trabalha com a formação de uma identidade, e, para construí-la, é preciso analisar com pensamento crítico as propostas apresentadas", explica, para logo defginir outra função para o qual é requisitado: "Em geral, o dramaturgista é o profissional que colabora com o diretor nas escolhas em relação ao desenvolvimento do texto, oferecendo uma interlocução bastante interessante. Muitas vezes, o dramaturgista acaba sendo um crítico interno, alguém que questiona e ajuda o grupo a compreender seu próprio trabalho antes de ele ir para o palco."
Ainda que uma nova identidade se configure no trabalho desses espectadores/leitores/ouvintes informados, há descompassos não superados. A crítica de rodapé, aquela que se bastava em tom professoral e não lançava mão da teoria, dominando a imprensa no início do século XX, ainda existe de forma camuflada. "A crítica hoje, tem sim, perdido espaço. E digo mais, tem perdido credibilidade, tem sido uma ação entre amigos", dispara Mauro Ferreira, pontuando que esse profissional não pode se contaminar pelas amizades. "Isenção não existe, cada um faz uma seleção. Mas o que tem que haver é a honestidade."
Para Lucianno Maza, seu exercício prescinde de sensibilidade, o que não define a necessidade de um distanciamento. "Esse olhar individual não deve ser confundido com gosto, porque a crítica não trata disso. Menos do que ‘gosto’ ou ‘não gosto’, é mais sobre a decodificação de um espetáculo para o público, sobre pensar as questões que o mesmo provoca, sobre dialogar com seus artistas", destaca.
Além de diversos sites, jornais e revistas especializados, a crítica também está no centro das atenções da academia. São muitas as pesquisas acerca da produção cultural nacional, que tentam mapear e classificar um momento, tarefa antes restrita aos profissionais da crítica. Nas palavras de José Castello, o que existe hoje, mais do que a análise, é a paixão. "Talvez a expressão ‘crítica literária’ seja hoje usada mais para amedrontar, para intimidar, do que para dialogar e acolher. Talvez por isso desperte mais suspeitas que confiança. Declarar-se crítico literário é, quem sabe, pretender uma autoridade que, hoje, ninguém mais tem. Se o crítico não é um juiz que aprova ou desaprova, se ele não é um especialista em aferição de qualidades, se não é um severo inspetor de ‘boa escrita’, como eu penso que ele não é, o que sobra para o crítico? Sobra ser um leitor", escreveu Castello, um dos nomes de "Crítica literária contemporânea", para o jornal "Rascunho".
Em suma, a literária, a musical, a cinematográfica, a artística e muitas outras críticas estão em muitos cantos. Aparecem onde está a cultura e seu público. Na rede, que não é só a virtual, mas o emaranhado da arte. Alguém curtiu um espetáculo, um disco, um livro ali. Outro não curtiu nada acolá. E ainda outro curtiu e comentou. Em tempo, "todos são plateia e todos são críticos", com o cuidado de manter as aspas.
