Lá pelos idos dos anos 1980, a então rainha dos baixinhos dizia, na música aparentemente inocente, que um “arco-íris de energia” deixaria o mundo cheio de alegria, já que este, “feio e dividido”, poderia ficar “tão colorido”. Os versos infantis e simplórios não poderiam ser mais análogos à realidade de um Brasil polarizado diante de um evento que celebra tanto a diversidade como o Rainbow Fest Brasil, que começa nesta sexta (16) e vai até domingo (18), com uma programação diversificadíssima e, em sua maior parte, gratuita e em espaços públicos. O festival é organizado pelo MGM – Movimento Gay de Minas e pelo GAG-MGM, Grupo de Adolescentes Gays do MGM e tem o apoio da Prefeitura de Juiz de Fora, através da Funalfa.
Em sua 22ª edição, o Rainbow Fest teve vários formatos, chegando a incluir a realização da extinta Parada Gay, mas, desde a primeira, em 1998, buscou ter pluralidade de linguagens, manifestações e expressões. Para Marco Trajano, diretor-geral do festival, o evento hoje é o maior promotor da cultura LGTBQ+ no interior do Brasil. “Acho que ele foi dando frutos ao longo dos anos. O Movimento Gay de Minas (MGM) é consequência do Rainbow, a Lei Rosa também, e a própria Semana Rainbow da UFJF bebe na fonte do evento, fica claro pelo nome. Acho que conseguimos dar identidade a uma comunidade que antes carecia de eventos que a afirmasse. O Rainbow é conhecido em grandes capitais como Rio, São Paulo, mas, ao mesmo tempo, não dá para manter o projeto exatamente como era feito há 20 anos”, pondera o diretor.
Segundo Marco Trajano, a atual realidade política também impacta o significado do Rainbow Fest e de eventos. “Precisamos fazer um trabalho de fortalecimento político da nossa comunidade, ocupar espaços políticos. Embora o Rainbow Fest atue na vertente de fortalecer a identidade cultural das pessoas LGBTQ+, com oficinas, cinema, artes em geral, gastronomia, shows de drag queens, festas, música, espaços como adoção de animais, enfim, uma enorme gama de atrações, não podemos nos esquecer que isso também é político. Tudo nessa vida é um ato político”, observa. “Além de tudo isso, o evento tem uma enorme relevância turística e econômica para a cidade, movimentando a rede hoteleira, de transportes, o comércio… E isso também é um viés de fortalecimento e promoção de cidadania da comunidade”, conclui Trajano.
Programação e homenagens
Parte da programação gratuita do Rainbow Fest rola na Praça Antônio Carlos (PAC), no Centro, no palco Fernanda Muller, em homenagem à travesti Fernanda Muller, um dos grandes ícones da comunidade LGBTQ+ em Juiz de Fora, falecida em 2013. Emocionado, Marco Trajano fala sobre a importância de se celebrar Fernanda, sua amiga. “A gente se conhecia desde criança. Ela foi uma grande artista, de performances e roupas deslumbrantes, a primeira – e acho que única – rainha de bateria travesti da cidade. Foi a associada número 1 do MGM e morreu muito jovem, não teve acesso ao mercado de trabalho, teve uma vida árdua”. Trajano dá dicas ainda de uma surpresa que a organização prepara. “Vamos dar visibilidade a LGBTQ+ que morreram e/ou foram assassinados. Essas pessoas acabam se tornando estatística, e a gente quer dar justamente esse tom de humanidade”, pondera.
Sexta
A Praça Antônio Carlos concentra atrações fixas como a área gourmet, a feira de adoção de pets e a mostra de cinema. Na sexta, o palco Fernanda Muller terá shows das drags Nayla Brizard, Charlotte Evans, Shayenny Vegan, Rihanna Ravel, MC Lovato e Dreams, Drag Perfect , AyslaPirv, Susy Brasil e Allexya Diamond. Ainda na sexta, o Rocket Pub recebe a festa Rocket Pride, com destaque para o show da queen Aretuza Lovi. Já no Danke Club, a pista será tomada pelo Chá da Alice, festa famosérrima que surgiu na cena carioca e ganhou o Brasil e o mundo. Em sua passagem por Juiz de Fora como parte do Rainbow Fest, o Chá comemora dez anos de realização em uma noite extremamente dançante e comemorativa.
Sábado
No sábado, um dos destaques é a Oficina de Personagens LGBT no Cinema, realizada no Anfiteatro João Carriço, às 14h. A Praça Antonio Carlos segue com o movimentado Palco Fernanda Mullher que novamente terá show de drag queens e DJs tocando os sets eletrônicos mais variados, numa festa que dura o dia todo. Ali ao lado, o Bar da Fábrica realiza a festa Bemdita, com as incríveis mulheres do Samba de Colher fazendo uma noite de muito samba e pagode. O Miss Gay, além do glamoroso desfile, menina dos olhos da semana, engloba também as badaladíssimas festas Stomp e FunHouse, e ainda promove o show que vem sendo esperado há tempos, da diva pop nacional, Pabllo Vittar.
Domingo
Para quem ainda estiver com a corda toda, no domingo a festa continua na Praça Antônio Carlos (PAC) com a programação habitual de DJs, gastronomia e show de grandes artistas drags locais, incluindo Titiago e Duda Flux e o grupo de dança As Barbies. “Espero que, para as gerações mais jovens como já é para outras, o Rainbow Fest represente esperança, identidade, justiça. E que as pessoas em geral entendam que é um movimento justo, doce, suave, que constrói pontes e não muros. E espero que a juventude perceba que este mundo pertence a ela, sim. E também por isso cabe a ela que ele possa ser bacana para todo mundo”, arremata Trajano.
Programação completa: facebook.com/rainbowfestbrasil

