Negro, solteiro, naturalidade desconhecida, alfabetizado, sem parentes, antecedentes policiais, esquizofrenia paranóide. A breve descrição da ficha médica da Colônia Juliano Moreira, de Jacarepaguá, Rio de Janeiro, é o suficiente para justificar o fato de Arthur Bispo do Rosário ocupar posição central no debate acerca do preconceito e os limites entre a insanidade e a arte no Brasil. A obra dele preenche um espaço diferenciado no cenário mundial por três motivos. Em primeiro lugar, por ele ter sido considerado um louco, e, na nossa sociedade, pessoas assim não têm voz. Depois, por ter criado seus trabalhos sem ser um intelectual, sem ser apontado como um nome consagrado, afirma Rejane Granato, doutora em estudos literários pela UFJF, autora da tese Eu preciso destas palavras … alteridade e enunciação verbal na obra de Arthur Bispo do Rosário, e professora do Colégio Militar de Juiz de Fora.
Hoje, ela é a convidada do Café Filosófico, programado para as 19h30, no Museu do Crédito Real, sob coordenação de Tiago Adão Lara e Maria Helena Falcão Vasconcellos. O tema deste ano é a ‘afirmação da vida’, um conceito nietzchiano. Ter resistido a todo o arsenal da psiquiatria, que era quase uma indústria da loucura, e ainda assim ter criado uma obra singular, faz com que o Bispo tenha essa trajetória de afirmação de um lugar, de construção de uma história. O bate-papo, que percorrerá vida e obra, partirá da mesma frase que a instigou na produção acadêmica: Eu preciso destas palavras. Escrita. A docente explica: Como ele fazia parte de um território marginalizado, precisava das palavras como um meio de se fazer ouvido. É como se, com elas, estabelecesse para ele um lugar na cultura. Em duas horas de conversa, o público ainda vai ter a oportunidade de assistir ao artista falando sobre si mesmo na exibição do documentário Prisioneiro da passagem, lançado em 1982, sete anos antes da morte de seu protagonista, por Hugo Denizart.
Se atualmente Bispo do Rosário tornou-se referência na arte contemporânea brasileira (na 30ª Bienal de São Paulo de 2012, ele foi homenageado), pouco se sabe de sua infância e adolescência. Há quem afirme que ele veio ao mundo em 1909. Outros apontam 1911 como a data de seu nascimento. Contudo, o que a história não deixou de registrar é que ele viveu, durante 50 anos, num quartinho apertado de um manicômio. No cubículo, alheio a tudo que acontecia fora dos limites do hospício, produziu um trabalho que extrapolou as fronteiras do país.
Sem nunca ter passado por escolas de arte ou folhear livros, construiu uma biografia suntuosa que deixou pistas nos objetos de madeira e nos bordados de estandartes, fardões e de seu Manto do reconhecimento. A partir destas produções, há vestígios de seu emprego na casa da família Leone, de onde saiu em peregrinação por igrejas cariocas sob a justificativa de estar seguindo orientação de algumas vozes.
Em nome de Deus, produziu, incessantemente, mesmo sob fortes choques elétricos, centenas de obras, entre colagens, tapeçarias, estandartes, pinturas e bordados. Como matéria-prima, utilizava entulhos e papelões. Ele é um artista que tinha capacidade de transformar o que via. Era considerado louco por estar num espaço que não absorvia o que ele tinha para oferecer. A vida no delírio foi a forma como encontrou para viver, defende Rejane.
Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o artista, acabou de chegar às prateleiras o livro Arthur Bispo do Rosário – Arte além da loucura (Nau Editora/Livre Galeria), do crítico Frederico Morais, responsável por montar sua primeira coletiva, no Museu de Arte Moderna, em 1982. A organização é da psicanalista Flavia Corpas, diretora de um documentário em 3D sobre Bispo do Rosário, com lançamento previsto para o ano que vem.
Café Filosófico
Hoje, às 19h30
Museu do Crédito Real
(Av. Getúlio Vargas 455)
