
Darlan Lula reflete sobre a morte, real e simbólica, em livro de contos que ganha ilustrações (abaixo) do artista visual Paulo Alvarez (Marcelo Ribeiro)
Falta-nos preparo para aceitar a finitude da vida. Quando ela cisma em nos rodear, tudo dói. Ela nos faz sofrer. Darlan Lula, no entanto, traz nos 12 contos de “Todos os dias” (102 páginas) uma morte, real e simbólica, que nos faz, ao contrário, pensar na vida. “O livro traz essa atmosfera de esperança, de tentativa de que a gente percebe que não somos nada. Podemos ter títulos, mas somos todos iguais. Somos as mesmas pessoas circulando nesse mundo, vivendo esse exercício de caos. Então, que vivamos esse caos de mãos dadas, como diz Drummond, e sigamos em frente”, reflete o escritor, cuja obra ganhou ilustrações de Paulo Alvarez. O lançamento da publicação acompanhado da abertura de exposição homônima está agendado para esta sexta, às 19h30, no Espaço Reitoria. Com o amigo artista, Darlan percorreu a ideia de tratar o livro como uma obra de arte.
“O Paulo Alvarez é um adendo à parte. Como ele tem uma sensibilidade muito grande para a vida, para o mundo, é um artista supercompleto, ele soube entender e perceber essa dinâmica da escrita e a traduziu através de imagens. Nossa parceria é como se fosse um pergaminho escrito por uma tinta, e essa tinta fosse absorvida pelo pergaminho e se fundisse. Não tem como separá-los, dizer o que é obra escrita e obra visual”, atesta o autor, que buscou, em referências suas e de terceiros, o material para as histórias. “Estou sempre querendo entender minha existência através da memória.”
Não por acaso, o garoto de “Nasce uma borboleta”, segundo conto do livro, é de Itacarambi, cidadezinha pequena, no interior de Minas Gerais, de onde Darlan Lula saiu para se radicar em Juiz de Fora, cidade que se faz presente em “Todos os dias”. “Estou morando aqui desde 1996, aqui construí minha família, minha mãe e meu filho nasceram aqui. É como se ela tivesse me adotado. Fico pensando nessa urbe e trago essa ambiência de maneira natural”, diz o escritor que, como o menino do conto, tem um pai que sempre sonhou em ter um filho escritor. Também não por acaso a figura paterna percorre toda a obra. “Assim como o pai do último texto (“Porta-canetas”), meu pai sobreviveu a dois transplantes de fígado”, confidencia Darlan, seguro de que seu “fim” representa “a esperança”.
Além de manter em dia o projeto “À procura das nuvens”, em que publica fotos e poemas de sua autoria em darlanlula.blogspot.com.br, Darlan prepara, para 2017, uma releitura de seu primeiro livro – “Pontos, fendas e arestas”, e a continuação do romance “Nuvens”, publicado na internet no ano de 2015. Para 2019, planeja “Areia.” “Nesse livro, vou contar minha experiência num colégio interno. Infelizmente, na época, o colégio, em Cachoeiro do Campo, foi até fechado. O padre foi acusado de pedofilia, e nós, alunos, conseguimos tirá-lo de lá. É um livro denúncia, que vai ter todo esse trabalho de burilamento da concepção da arte como poema.”
Tribuna – – Um tema recorrente na sua obra é a morte. Por que falar, em “Todos os dias”, sobre a finitude da vida, ainda que de maneira tão sensível e leve?
Darlan Lula – É uma espécie de continuação do meu projeto, porque isso vem me perseguindo durante muito tempo. Notava que era uma angustia interior minha. Tem uns laços biográficos também. No ano passado, lancei o livro “Casa de madeira”, contando uma história muito forte de tentativa de suicídio, em 2013, e superei isso. Desde então, pensava em fazer um livro que tratasse desse tema de uma forma muito leve, porque nós ocidentais, principalmente, nós brasileiros, não entendemos muito o fato de que a morte está sempre presente o tempo todo na nossa vida e que é algo que tem que ser levado com naturalidade, principalmente, a morte morrida. Ela acontece com todos nós, é a única certeza de que nós temos. O livro trata dessa passagem nossa por aqui, tanto que é divido em partes, o crescimento, o amadurecimento, a certeza de que somos perecíveis e a esperança. Se todos tivéssemos essa percepção, essa sensibilidade para entender isso, talvez nossas relações interpessoais até melhorassem.
– A leitura que fiz é a de que a morte é sempre apresentada para o filho através da figura do pai, que é o elemento que dá unidade aos contos…
– O leitor tem uma liberdade de interpretação que o escritor não pode bloquear. Se eu disse que essa é a única leitura, vou estar inviabilizando a interpretação dos outros leitores. Mas ela é muito pertinente, até porque minha relação com meu pai é muito forte. Essa concepção da ideia da morte me veio através dele. Como leitor de mim mesmo, eu interpretaria dessa forma, mas outros leitores podem interpretar de outra também.
– Quando li a dedicatória que você faz para seu filho, vi o Darlan presente nos contos como pai e como filho…
– Dediquei esse livro ao meu filho até para pedir perdão de uma certa forma. Como aconteceu de eu tentar suicídio, eu quero mostrar para ele que isso não vai mais acontecer, porque eu me preocupo com ele. Naquela época, eu estava em depressão profunda, e eu não pensava em ninguém, pensava só em acabar com tudo. Quando me veio a certeza de que eu tinha um filho, de que eu tinha que cuidar dele, passar para ele mensagens boas, esperança de uma vida bacana e respeitosa com os outros, tive a sensação de que eu fiz muito errado com ele. Eu me julguei muito. Então, o livro é uma espécie de pedido de perdão a ele por tudo que eu o fiz passar, porque não deve ter sido fácil.
– A referência de Machado de Assis nas suas obras é muito forte. Nesse livro, ela já não está tão presente, apesar de o narrador do primeiro conto, por exemplo, ter características machadianas. Você quis se distanciar dessa influência e buscar referências contemporâneas?
– Foi natural. Quando eu escrevia com influência de Machado de Assis, não percebia. Fui perceber depois. Com o tempo, fui percebendo que eu peguei um pouco da minha faceta própria de escrita e fui modificando, transformando esse narrador que é incisivo, chato, perspicaz, mas impertinente, que incomoda o leitor o tempo todo. Ele poderia ser um narrador um pouco mais avesso a isso e um pouco mais distante da narrativa, só um narrador observador, e o leitor vai interpretar o que quiser. Essa é agora a minha ambiência de escrita, mas pode ser que eu mude. Depende de como eu quero construir a história.
– Como é ser escritor em Juiz de Fora?
– Não é fácil, porque aqui tem um grande número de escritores. Tem a Lei Murilo Mendes também, ainda bem, porque ela incentiva cada vez mais as pessoas a escreverem. Mas eu noto que há alguns nichos literários, e eu tento evitar fazer parte deles. Percebo que fica um grupo só se elogiando. Um fica falando da obra do outro. Quando eu falo da obra de alguém, falo porque li e gostei mesmo. Já fiz algumas resenhas críticas de algumas pessoas que escrevem em Juiz de Fora, e foi algo que fluiu naturalmente. Acho difícil, mas prazeroso, porque você pega influência muito forte de outros escritores contemporâneos que estão buscando outras leituras, mas tem esse porém. Apesar de ser uma cidade grande, temos esse lado de interior. Todo mundo conhece todo mundo, todo mundo se influencia por todo mundo. Eu quero estar em todas as tribos.
TODOS OS DIAS
Lançamento de livro de Darlan Lula e exposição das ilustrações do artista visual Paulo Alvarez
15 de julho, às 19h30. Visitação de segunda a sexta, das 8h às 20h, e aos sábados, das 9h ao meio-dia. Até 5 de agosto.
Saguão da Reitoria do Campus da UFJF
O quadro “Sala de leitura” vai ao ar aos sábados, às 10h30, com reprise nas segundas, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1.010).

