
Querido e controverso, morador de rua conta histórias sobre si
William Bezerra de Souza, 43 anos. Diz ter nascido no Rio de Janeiro, crescido em Petrópolis e vivido por Juiz de Fora. “Sempre tive família, mas foi uma opção minha (ir para as ruas). Porque eu botei na minha cabeça que a vida é curta, os amigos são raros e os pais são únicos e eu vim para as ruas para conhecer o mundo. Não quero mais ver o sol da minha janela. Minha casa era maneira. Sou de Petrópolis, tenho uma casa boa, tenho família. Para falar a verdade, deve ter uns 11 anos que saí de casa. Até hoje estou na rua. Até hoje sempre tive as respostas, mesmo estando nas ruas. Eu não vivo de perguntas, vivo de respostas. Fui um cara que estudei. Estudei filosofia. Tenho até um Platão desenhado aqui (aponta para o braço). E tem aqui uns livros. ‘Conhecimento é o poder dos sábios’ (outra tatuagem). Conhecimento é isso aí, ensinar as pessoas o que você aprendeu. Não estudei só para mim. Estudei para todo mundo.”
A doação
“Perdi um pessoal aí, e tive um problema de saúde muito sério e entrei em depressão. Até hoje, deprimido. Acho que nada para mim tem sentido mais. Botei isso na cabeça e ninguém tira. Vendi cinco carros que eu tinha. Vendi tudo por causa de mulher. A mulher faleceu e minha vida desmontou. Nunca mais fui saber de nada. Durmo no final da Rio Branco. Não vivo pedindo nada a ninguém. Fico escrevendo e sempre aparece alguém de bom coração, boa pessoa, boa personalidade, pessoas amigas, que se preocupam. ‘Já almoçou?’, ‘Quer tomar um café?’, ‘Comer alguma coisa?’. Não fico à mercê da sensibilidade das pessoas, mas fico à mercê de tudo o que acontece, de ficar sem jantar, de só tomar um café, e está tudo certo. Só não roubo nada de ninguém e não desrespeito ninguém. Não é minha área.”
A leitura
“Sou formado pela Federal do Rio de Janeiro. Fui estudar em Petrópolis, cheguei a dar aula de filosofia, mas tudo passa. Passou e já tem um bom tempo. O cara ser professor, ser mestre, não muda a vida de ninguém, não. Já olhei carro aqui, já fechei loja de um pessoal aí. Fiz um monte de coisa e já dei palestras em várias unidades, dei palestra de medicina, de psicologia, de enfermagem, das coisas que já sei. Estudo o comportamento das pessoas, estudo o que estou passando, poderia ser melhor, mas está bom por eu estar aqui. É inexplicável isso, mas é verdade. Tudo é uma ilusão. A maioria (dos livros) eu ganho. Esse daqui, por exemplo (aponta para ‘Por fim, a liberdade’, de Cristóbal Zaragoza), eu ganhei. Gosto de ler com calma.”
A doença
“No abrigo, os caras bebem muito durante o dia e, à noite, quando é para recolher, para descansar, eles chegam todos loucos. Eu, que não bebo e quero meditar, não posso e fico no meio daquelas pessoas com umas ideias sem pé e sem cabeça. Aquilo não era bom para mim, preferia a rua, porque na rua eu podia ver eles, mas podia me afastar. Ela (a tuberculose) voltou de novo. Vou ter que voltar (para o hospital, onde permaneceu durante meses) de novo. Estou sentindo que estou mal. Só que não falo para ninguém, guardo para mim. Não interessa a ninguém. Ninguém vai sentir a dor que eu estou sentido, ninguém vai passar pelo que eu passo, ninguém vai ver o que eu estou vendo. Tenho que voltar. Estou ferrado.”
A controvérsia
“Não quero casa. Não vai ter diferença de enterro. O enterro vai ser o mesmo para quem está nas ruas, para quem é médico, para quem é filósofo, para quem é budista, para quem é espírita. Tem um alemão que adorava um sábio no Tibet”, começa a contar William, dando detalhes da história na qual o turista se espanta com a humildade do ídolo e, em certo momento, pergunta-lhe pelas posses que a fama poderia ter lhe dado. “Então o sábio, muito inteligente, perguntou: ‘E as tuas, não carrega contigo?’. ‘Não, senhor sábio. Estou aqui só de passagem’, ele respondeu. ‘Eu também’, disse o sábio”, conclui William, o mesmo que me nega o vício nas drogas, mas, num curta-metragem local, disponível na internet, confessa. O mesmo que, numa postagem sobre ele em uma rede social, divide os comentários de centenas de internautas a respeito da veracidade ou não de seu discurso. O mesmo que cumprimenta e é cumprimentado por uma dezena de pessoas em pouco mais de meia hora. O mesmo que, diariamente, está sentado em alguma calçada do Bairro Alto dos Passos, paulatinamente mais adoentado. O mesmo que, sem pedir, recebe R$ 1 de um senhor que lhe sorri com a intimidade do encontro diário. O mesmo que volta para a casa sem da rua sair.

