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Antes do abracadabra

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O coelho sai da cartola, e a plateia aplaude. Espetáculo um. O mágico revela, para os íntimos, o compartimento que esconde seu assistente orelhudo. Espetáculo dois. Na arte, aos olhos do público, o processo de produção pode ser tão interessante quanto o resultado. Afinal de contas, quem não deseja desvendar os truques atribuídos à varinha? Em tempos de comunicação virtual, fica ainda mais fácil escancarar as janelas que dão para as dores e alegrias comuns a todo trabalho em construção. Inúmeros artistas locais assim têm feito. Resta saber como e porquê.

Por meio de um site, a Cortejo Companhia de Teatro vem relatando a trajetória que irá desembocar na peça "Uma história oficial", patrocinada pela Lei Murilo Mendes e pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Rio. Segundo o ator Tairone Vale, descortinar os bastidores significa multiplicar o interesse do futuro espectador. Para colocar o espetáculo de pé, o grupo, dirigido por Rodrigo Portela, experimenta instrumentos da dança contemporânea, do kung fu e da música. No último feriado, elenco e equipe técnica fugiram da cidade para uma proposta de imersão no universo da montagem. Tudo isso está sendo narrado na página umahistoriaoficial.wordpress.com. "Nossos leitores acompanham os problemas e riscos, torcem por nós. De certa forma, tornam-se co-autores da ideia e, até, mais tolerantes", observa Vale, destacando a cultura do making of trazida pelos DVDs.

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Em 2010, o artista havia participado de outra empreitada, "Entre infernos", que também lançou mão do diálogo com a plateia pela rede. De acordo com o assistente de direção Zezinho Mancini, o blog entreinfernos.blogspot.com acompanhou o passo a passo da Cia. Teatral Putz! e não excluiu nem mesmo as broncas do diretor Pablo Sanábio. "Em um dos primeiros ensaios, o elenco chegou atrasado. Então, gravamos um vídeo com o Pablo falando sobre o caso." Para Mancini, como acontece em relação às novelas, o público quer ver obstáculos na trama. Antes de tudo, porém, como complementa o artista, é preciso descobrir o perfil do espectador. "Pessoas interessadas vão falar do assunto e espalhá-lo."

O jornalista Davi Ferreira sabe disso. Tanto que levou os bastidores de gravação de seu documentário "Aos berros", sobre o movimento punk local, para o site que divulga outra iniciativa, o Festival Aos Berros de Cinema e Música Independentes, apoiado pela Lei Murilo Mendes. "Nós postamos e romantizamos um pouco todo o processo."

Onde está a verdade?

Em seus relatos, o ator Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, prefere refletir sobre dúvidas e entraves. Não tem medo de despir a arte de glamour. "Escrevo as observações à mão antes de digitá-las. Elas me ajudam a organizar meu trabalho, pois falo do dia a dia", comenta Moreira, responsável pelo blog da trupe (www.grupogalpao.com.br/blog) e por quatro dos cinco diários de montagem já publicados pela Editora da UFMG. É claro que ele recorre à autocensura e não repassa todas as inconveniências aos leitores. Mesmo assim, sobre o espetáculo mais recente, "Tio Vânia", não deixa de dizer: "a peça ainda nos escapa continuamente".

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Mas será que os registros de produção acabam por construir uma falsa realidade? Para responder à pergunta, o poeta e professor Anderson Pires faz outro questionamento: "onde está a verdade?". De acordo com o escritor, que postou, por capítulos, a novela de horror "Malditos" no signodeplutao.blogspot.com, a contemporaneidade subverteu a noção de real. Para exemplificar, ele cita o documentário "Jogo de cena", de Eduardo Coutinho. No longa, não fica claro se quem está contando sua história pessoal é artista, personagem ou gente comum. Ao refletir sobre o assunto, Tairone Vale afirma não acreditar em imparcialidade. Para ele, qualquer filtro ou seleção altera o fato vivido. Entretanto, para não interferir muito, o ator não se preocupa com a qualidade e a forma dos vídeos e fotos que vão para o site de "Uma história oficial". "O factual e o imediato aproximam o internauta. O que vale é o conteúdo." Atento à questão, o Canal Brasil lançou, na última segunda, seu primeiro programa exclusivo para a internet. A intenção é mostrar o que acontece antes, durante e depois das gravações.

 

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Crítica viva

Enquanto produzia "Ensaio sobre a cegueira", Fernando Meirelles também mostrou sua caminhada por meio de um blog. Depois de muito tempo longe do teclado, ainda durante as filmagens, ele escreveu: "caro leitor, se ainda houver algum". Segundo Anderson Pires, além de funcionar para a divulgação do trabalho, o registro virtual diminui o distanciamento entre o artista e sua plateia. Se, antes, escritor e leitor estavam sozinhos na feitura e na fruição da obra, hoje, um influencia o outro. "De comentários sobre poesias podem nascer outras poesias. É uma crítica viva", atesta o professor, que, desde os tempos de seu fanzine "Urgh", admira o contato com o espectador. Em "Tio Vânia", o Galpão explorou a ideia solicitando ao público, pelas redes sociais, livros para seu cenário. O vocalista Fernando Anitelli, vocalista do grupo O Teatro Mágico, também extrapolou fronteiras ao criar, pelo Twitter e com ajuda dos fãs, a letra da canção "O que se perde quando os olhos piscam".

Pires acredita que a valorização da intimidade seja um fenômeno do tempo atual. Por isso, se a narração da composição de um trabalho é capaz de denunciar o cotidiano e as referências de cada obra, acaba ganhando status de produto estético, tanto quanto o resultado. Na opinião de Eduardo Moreira, porém, um processo interessante não garante a qualidade final. "Erramos nesse ponto em ‘Arlequim servidor de tantos amores’", elucida, salientando que o artista não pode olhar somente para o próprio umbigo. E nem se esquecer dos aplausos ao vivo. Que seria da vida do mágico que, além do esconderijo na cartola, não tivesse um coelho sequer para mostrar?

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