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Discussões poéticas

em agosto de 2015 completam se os 40 anos de morte do poeta juiz forano

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Em agosto de 2015, completam-se os 40 anos de morte do poeta juiz-forano
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Em agosto de 2015, completam-se os 40 anos de morte do poeta juiz-forano

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Como que a conversar com o madrilenho Lope de Vega, o juiz-forano Murilo Mendes indaga: “Quanto tempo, Lope, deverá esse mundo durar?”, escreve ele em poema dedicado ao amigo das letras. “Murilo Mendes conheceu pessoalmente muitos literatos espanhóis e dialogava intensamente com eles”, afirma o tradutor e historiador literário José Leonardo Souza Buzelli, em tese de doutorado na obra do poeta modernista. O trabalho, defendido na Unicamp em outubro de 2014, coincidindo com a notícia das reedições pela Cosac Naify de obras do autor de “A idade do serrote” (a última edição de obras do escritor ocorreu em 2002), vai ganhar as prateleiras até junho pela editora Odysseus. Ainda que não calculado pelo pesquisador, o lançamento deve ocorrer às vésperas do quadragésimo aniversário de morte do poeta, falecido em agosto de 1975.

“Busquei fazer uma leitura bastante próxima dos textos e identificar as referências literárias com as quais Mendes ‘dialogava’, como as obras de literatos e artistas plásticos castelhanos, catalães, galegos e andaluzes”, conta Buzelli, ressaltando que a ligação de Murilo com catolicismo, que por sua vez, apoiava o regime político vigente na época, contribuiu para esse estreitamento literário. Antes um católico por convenção, ele se converte definitivamente ao conhecer, no Rio de Janeiro, o artista plástico e poeta Ismael Nery.

“Tento demonstrar que o interesse dele está bastante atrelado ao fato de a Espanha estar sob um regime fascista que contava com o apoio da igreja. Isso choca bastante com sua fé. Ele tenta compreender por que e como isso acontece. É aquele período de fim da segunda guerra e começo da Guerra Fria, quando vivia-se um embate entre comunistas e capitalistas. Esse apoio do clero acontece, principalmente, porque o Papa Pio XII era um ferrenho opositor ao comunismo e parecia apoiar qualquer um que se opusesse a essa ideologia , não importando se ditador ou não.”

Segundo Buzelli, o então colaborador da revista “A ordem” não demorou a sofrer forte abalo em suas crenças, ao constatar que o general Francisco Franco recebeu apoio não só do clero castelhano, mas do próprio pontífice. “Embora nunca tenha perdido a fé completamente, Mendes passou a questionar as razões que levaram a igreja, que deveria estar comprometida com a causa dos oprimidos, a dar sustentação a um regime autoritário”, afirma. Buzelli comenta que a primeira menção de Murilo à Espanha está numa “Crônica mundana”, publicada quando ele ainda morava em Juiz de Fora. Isso lá pela década de 1920. “Ele passa a falar da Espanha com mais frequência quando se muda para a Europa, na década de 1950.”

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Um passado existente na memória

“O passado espanhol idealizado por Mendes só existiu em sua construção retórica”, sentencia o historiador, fazendo referência às passagens em que Mendes revela nostalgia por um período que se foi. É no chamado “Século do ouro”, que vai de 1530 a 1680, que o reino ibérico atingiu sua máxima expansão econômica, política e militar. “Mendes não era ingênuo, sabia que Felipe II não era flor que se cheirasse, pois tinha uma personalidade difícil, era um governante brutal, não tinha qualquer problema em mandar executar, mas ele tenta mostrar que, pelo menos, ele tinha uma certa generosidade. Ele incentivou as artes. Enfim, foi um momento de esplendor da literatura e da pintura. Já Franco acabou com a literatura e com a pintura. Quem não era morto pelo regime, como Lorca, acabou tendo que se exilar, como Picasso.”

Paulistano de nascimento, Buzelli vive hoje em Campinas. Sua relação com Juiz de Fora é mínima. O avô nasceu aqui. Entretanto, por influência de sua orientadora, Maria Eugenia Boaventura, especialista na literatura modernista, e seu interesse pela literatura castelhana, Francisco  Quevedo e Miguel de Cervantes o aproximaram de Murilo Mendes. Veio à cidade para pesquisar no Museu de Arte Murilo Mendes duas vezes, a primeira em 2011 e a segunda em 2013. Importava a ele não só fazer um levantamento dos títulos espanhóis pertencentes ao acervo do escritor juiz-forano, mas, principalmente, folhear as anotações feitas pelo poeta nos exemplares. Também foi à Espanha e à Itália à procura de material para o trabalho, que analisou mais detidamente os livros “Espaço espanhol”, escrito entre 1966 e 1969, e publicado postumamente e “Tempo espanhol”, publicado em Lisboa, em 1959. Este último, conforme Buzelli, foi dedicado ao historiador português Jaime Cortesão, pai da viúva Maria da Saudade Cortesão Mendes.

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