Dois pontos de vista distintos norteiam o ensaio escrito pela professora doutora Patrícia Rangel. Em um deles, Patrícia se posiciona como cientista política ao analisar o fenômeno assimétrico dos fluxos migratórios; em outro, como vítima de violência e maus-tratos sofridos durante a detenção arbitrária em Barajas, aeroporto da cidade de Madri, na Espanha. O fato que aconteceu em 2008, quando a pesquisadora e um companheiro de mestrado foram impedidos de seguir viagem para Lisboa, em Portugal – onde participariam de um congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política – motivou as pesquisas que deram origem ao livro publicado no início do mês pela Editora Abaré, Barrados: um ensaio sobre os brasileiros inadmitidos na Europa e o conto da aldeia global (143 páginas).
Mesmo portando toda a documentação e demais requisitos exigidos pela União Europeia, a juiz-forana, que atualmente mora em Goiânia, onde leciona na Pontifícia Universidade Católica de Goiás, entrou para as estatísticas conflituosas referentes às recusas de imigrantes brasileiros pelas autoridades espanholas. Só no primeiro trimestre daquele ano de 2008, a polícia espanhola barrou 18 mil pessoas (entre elas, mil brasileiros), pontua Patrícia. É importante ressaltar que o meu caso não foi um fato isolado. Existe um problema de massa, sistemático e coletivo referente à migração dos povos da América do Sul, da África, entre outros. É uma questão complexa, que envolve fatores sociais e econômicos, relacionados à xenofobia, explica.
A experiência vivida pela juiz-forana é descrita, na introdução da obra, assinada pelo professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Fréderic Vandenbergue, como traumática e transformadora. Graças a sua sensibilidade, ela foi capaz de entender seu caso como universal, sentencia o pesquisador. Em seu percurso teórico por Foucault, Bauman, Negri, entre outros, Patrícia transformou sua própria experiência em um estudo de caso etnográfico da injustiça que tantos imigrantes de países em desenvolvimento sofrem ao visitar a ‘Fortaleza Europa’.
O ideal universalista de que estamos livres para descobrir diversas culturas e viver novas experiências em qualquer lugar do mundo nem sempre condiz com o que ocorre na prática, segundo Patrícia. Já no título, a pesquisadora demonstra seu posicionamento crítico – e seu descontentamento – diante das relações assimétricas travadas entre o Norte global e os povos do Sul, ao categorizar o termo aldeia global no gênero conto. Os ideais de hospitalidade, de que estamos destinados a conviver (já que o globo terrestre é limitado), de que não é uma virtude, mas um dever do Estado receber pessoas de outros povos – abordados por Kant – não é o que vivenciamos na prática. O que vemos é um fechamento de fronteiras, teoriza a autora da obra, disponível na cidade na Livraria Terceira Margem ou por meio de download gratuito no site www.barrados.org.
Ao receber imigrantes, o Brasil sempre optou, de acordo com a pesquisadora, pela cidadania global, pelo respeito aos estrangeiros. Recentemente o Brasil endureceu as políticas de reciprocidade, e alguns cidadãos espanhóis foram repatriados. Mas os que são barrados por aqui são aqueles que não cumprem de fato com o que é exigido pelas leis do país. Esta medida é um avanço, mas as relações de migração ainda são muito desproporcionais, e o tratamento das pessoas, muito diferenciado.
Para Patrícia, em certos momentos, parece que os governantes europeus se esquecem de todos os imigrantes enviados, no início do século XX, aos países daqueles que hoje rejeitam. E que muito da identidade europeia se deve à contribuição dos estrangeiros. A Europa é um grande caldeirão, que mistura diferentes nações. É fruto de várias culturas, da miscigenação.
