
Pedro Luís e toda trupe no estúdio
Do outro lado da linha, Pedro Luís até parece um menino, contando como tudo começou ao lado de C.A. Ferrari (percussão), Celso Alvim (percussão), Mário Moura (baixo) e Sidon Silva (bateria e percussão) há 15 anos. "Tocávamos com uma cantora de Niterói, com quem desenvolvíamos uma linguagem que desembocaria numa percussão brasileira com concepção pop. Mas ainda faltava explorar um trabalho em que eu pudesse exercitar meu dom de compositor." Não demorou muito, e, após cinco minutos de conversa, aquela voz de garoto começava a ganhar contornos de gente grande. Gente com mais de 300 composições na praça, shows em todo o Brasil e no mundo, parcerias invejáveis, como Ney Matogrosso, e a identidade de quem, apesar de 50 anos de idade, mantém em a disposição visceral em experimentar. Foi no dia 10 de abril de 1996 que o compositor e seus comparsas deram um dos maiores pontapés da música brasileira contemporânea, inaugurando um novo tempo da alegria com a primeira aparição, oficial, da banda Pedro Luís e a Parede (Plap). "Recebemos um convite do ator, poeta e dramaturgo Michel Melamed para meia hora de um projeto dançante no Espaço Cultural Sérgio Porto (Humaitá)", lembra o músico, que volta a Juiz de Fora hoje para brindar a cidade com seus 15 anos de estrada à frente da banda carioca.
Quando era diretor musical nos anos 80, Pedro Luís já usava o violão para colocar letra em melodia e vice-versa. O incalculável prazer em fazer música (desde 1979) teve de passar pelo crivo do tempo, encarregado de selecionar as canções que mais resumem a história do grupo, com sede em Botafogo, pertinho de onde tudo começou. "Nosso caminho é muito bacana com o Monobloco (projeto de oficinas e apresentações da trupe) e tantas pessoas que nos tomam como referências Brasil afora", destaca. Neste noite, eles seguem com a turnê do primeiro DVD, "Navilouca ao vivo", lançado em dezembro de 2010, na companhia do guitarrista Leo Saad, que também vem para o show no Cultural Bar. "Ele é um grande amigo, um músico do Monobloco que nos possibilitou ampliar um espectro harmônico e não solista. Como não sou instrumentista, senti a necessidade de uma base assim, diferente da convencional. Ele vem cumprindo esta missão", diz.
Entre as músicas registradas no trabalho, "Miséria no Japão" e a faixa-título "Navilouca" são do primeiro CD, "Astronauta tupy" (1997). E ainda tem "Menina bonita", "Rap do real", "Chuva de bala", "Selvagem", "Fazê o quê?", "Caio no suingue" e "Pena de vida". "Montar um repertório é sempre uma experimentação. A partir da turnê do disco ‘Ponto enredo’, na Europa, em 2009, observamos que algumas das músicas não conversavam entre si, e, no meio da viagem, conseguimos achar este diálogo, foi quando resolvemos fazer o DVD", conta Pedro Luís, que, para legitimar o óbvio, afirma ser este seu maior presente. "É uma construção bacana, com linguagem percussiva e autoral que a gente nunca havia feito", conclui.
Do caos é que se faz arte
Sem muitas regras para compor, Pedro Luís só não abre mão da solidão para dar voz aos pensamentos musicais. As parcerias diversas, que vão de Zé Renato a Lula Queiroga, passando por Beto Valente e Rodrigo Cabelo, servem para somar o "ambiente caótico" meticulosamente preparado para a criatividade. "Bagunço a casa toda, pego um gravador no quarto, um cavaquinho na sala, e saem várias canções, todas de uma vez", diz.
De acordo com ele, além da turnê de aniversário, a Plap continua a explorar a produção de trabalhos afins na própria casa. "Estamos em nossa sede há mais ou menos dois anos, um lugar que serve de estúdio, escritório e sala de visitas para amigos. Tudo isto é fruto de nossa busca por um padrão que se impôs", comenta. "Durante muito tempo, ficamos mergulhados em nosso objetivo, mas nossa ideia é deslocar com a velocidade de um cruzeiro, para gerar também projetos que admiramos", assegura.
Quanto à disponibilidade de produtos na internet, o mesmo Pedro Luís, aberto à universalização de conteúdo acredita que o comportamento comedido pode ser a chave do negócio. "É bacana que a pessoa crie o hábito de consumir cultura, apesar de este sistema de baixar músicas ser banal entre nós. Todos querem receber, mas também querem pegar o que é do outro", adverte o compositor, adiantando que, por aqui, eles apresentam algumas novidades, como a versão exclusiva do samba "Luz da nobreza" e o novo bis, formado por clássicas como "Cidade em movimento", "Sossego" (Tim Maia), "Podes crer, amizade" (Tony Tornado) e "Pena de vida". Aliás, a estreia do medley foi apresentada na tarde de ontem, via redes sociais, em que Pedro Luís encontrou mais um lugar na verve da boa e velha musicalidade brasileira.
PEDRO LUÍS E A PAREDE
Hoje, às 23h
Cultural Bar
(Av. Deusdedith Salgado 3.955)
Abertura com 2 Na Roda e fechamento com Thiago Miranda

