
Sem delongas, Caetano Brasil consegue resumir o que virá, nesta sexta-feira (18), com o lançamento de seu terceiro disco, “Pixinverso – Infinito Pixinguinha”: “O que me motiva a fazer o ‘Pixinverso’ é a conexão com o Brasil de verdade, que é aquele da ancestralidade, da nossa dor e delícia, porque o choro é isso desde quando nasceu. As pessoas estavam nessa mistura de tudo com nada. Perguntando-se: ‘Quem a gente é? O que é ser brasileiro?’ O choro é uma das linguagens artísticas que mais soube e sabe traduzir isso. O choro não acaba. A minha música e a do Pixinguinha ainda convivem, elas estão ligadas em uma mesma raiz. O ‘Pixinverso’ traz um olhar cosmopolita, contemporâneo, que busca essa conexão, de lembrar daquele cara preto, genial, e desse símbolo que ele é. O disco propõe: e se a gente parar tudo por 53 minutos para ouvir isso e saber que era isso o tempo todo? E ainda puxar as pessoas para dentro dessa música, como eu fui colocado. É um lugar muito mais do sentir do que do saber. Eu quero despertar nessas pessoas o que essas músicas despertam em mim há tantos anos”.
“Pixinverso” é o resultado de um diálogo que começou quando o clarinetista, saxofonista e compositor ainda era um criança e se viu de frente para a partitura de “Naquele tempo”, primeiro choro que tocou. Mas, para rever clássicos, é necessário amadurecimento. “Pixinverso reconstrói todos os degraus que eu subi, desde o primeiro disco.” Caetano precisou de tempo e de lançar dois discos autorais, um homônimo (2015) e “Cartografias” (2019). Com uma identidade construída, firmada nas intermináveis pesquisas da música popular mundial, o juiz-forano conseguiu adentrar por completo o mundo do Pixinguinha, um dos maiores compositores do Brasil, e, ainda assim, depositar seu olhar. É por isso que, mesmo sendo dez releituras, Caetano arrumou uma maneira de compor em cima das músicas já compostas há tantos anos.
Passeio por Pixinguinha
O disco foi dividido em dois lados, A e B. O primeiro é formado pelas músicas mais clássicas, como é o caso de “Carinhoso” e “Naquele tempo“, que já foram lançadas por Caetano em formato de single; e o segundo tem as músicas menos conhecidas, como “Canção da odalisca”, também lançada em single, além de “Quebra cabeça”, que nunca havia sido gravada. Caetano teve acesso à partitura no songbook, já indisponível, “Pixinguinha – Inéditas e redescobertas”. A primeira versão foi editada no século 20, mas também foi esgotada na época “Eu quis aproveitar o espaço que eu tenho para trazer as coisas que estão enterradas quase como um tesouro. Eu quero espalhar isso para as pessoas.” O diálogo dos dois chorões começou com “Um a zero“, single que Caetano considera como o zero do projeto, que foi gravado ainda quando ele estava no processo de produção de “Cartografias”. Quando passou a inserir no repertório dos shows músicas de Pixinguinha, viu que existia ali uma cola entre os dois. Na pandemia, de maneira espaçada, o disco foi ganhando forma. Mesmo depois do lançamento, Caetano deixa claro que o projeto não acaba por aqui.
Mas ele bem sabe e garante que não fez nada como mandava o figurino. Com várias influências, o disco não se restringe ao choro. “É uma paleta de cores bem variada.” De acordo com ele, essa caraterística de transformação das músicas já tinha sido sentida pelo próprio Pixinguinha, e ele bebeu disso. “Isso parte de um lugar de muito respeito e irreverência, mas entendendo que a obra do Pixinguinha é uma obra muito generosa e muito mais um ensejo que o ponto final. Isso para mim, enquanto chorão, de ver que a música está sendo recriada e repensada todos os dias, é essencial para mantê-la viva. Porque uma coisa que não se transforma, morre.”
Música e identidade
Há quase 20 anos tocando um instrumento, a intimidade que se cria é inevitável, assim como com o choro e com o próprio Pixinguinha, que é unanimidade nas rodas. Por causa disso, Caetano sente que as músicas já fazem parte de sua vida. “Tem coisa que eu toco e que simplesmente meu dedo toca. Eu ponho o clarinete na boca e aquilo sai. É natural para mim, depois de muito trabalho, é claro”, brinca. Além disso, elas, em conjunto, apresentam a forma como Caetano vê o mundo, transpassado pelas questões de raça, gênero e identidade. Quando analisa a história do ritmo brasileiro, enxerga um apagamento de mulheres e pessoas LGBTQIA+ nesse processo. “É claro que tinham mulheres e LGBTQIA+ na história. O que eu puder fazer para que esse apagamento não aconteça mais, eu não vou medir esforços.”
‘Vim ao mundo para esse encontro’
Quando Caetano conta a história do choro, é como se ele contasse sua própria história. Ele só é o músico que é hoje por causa dessa entrega de corpo inteiro ao gênero popular, responsável por criar uma identidade brasileira. Revisitando uma obra e apresentando um novo Pixinguinha, Caetano também contribui com a continuidade e transformação do choro. “Eu fui tocado por ele (Pixinguinha) de uma forma tão intensa e profunda que o choro não saiu de mim. Parece que eu vim ao mundo para esse encontro. O choro me conecta com coisas que são muito essenciais: o Brasil verdadeiro, a minha ancestralidade preta. Eu acredito que o choro é o retrato mais fiel da nossa gente, do nosso povo em forma de música. E o Pixinguinha é um dos mais hábeis pintores nesse sentido. Ele soube com muita genialidade e identidade fazer isso.” Por isso, para Caetano, existe um lugar afetivo, sim, mas a sua responsabilidade de fazer isso é grande. O resultado é parte de uma rotina planejada, cheia de caminhos possíveis, e a apresentação é, além de Pixinguinha, Caetano em essência.
O disco
Em “Pixinverso”, o músico conta também com as participações de Laura Conceição, em “Naquele tempo”, Leandro Domith, em “Soluços”, Quarteto Scherzo, em “Ingênuo”, e Pedro Paes, em “Vou pra casa”. O grupo de Caetano é formado por Guilherme Veroneze no piano, Adalberto Silva no contrabaixo e Gladston Vieira na bateria. O disco estará disponível nas principais plataformas digitais. Shows de lançamento ainda não foram marcados.

