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ENTREVISTA COM MARYA BRAVO, cantora e atriz

'nao sou do samba da mpb ouco hard core hip hop gangsta'

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'Não sou do samba, da MPB. Ouço hard-core, hip-hop gangsta'
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‘Não sou do samba, da MPB. Ouço hard-core, hip-hop gangsta’

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Sobre uma caixa, pisando com as pontas dos pés, parecendo estar se equilibrando a duras penas, Marya Bravo canta “Cais”, com uma tensão diferente, como quem sabe, de fato, a vez de se lançar. Em “Milton Nascimento – Nada será como antes”, musical de Charles Möeller e Claudio Botelho que passou pela cidade nesse fim de semana, a cantora e atriz joga novas luzes sobre músicas bastante conhecidas do público, como “Maria, Maria”, na qual também se arrisca. “Só música muito responsa”, brinca a filha mais velha do cantor e compositor Zé Rodrix, com seu forte sotaque carioca. Dona de uma dramaticidade rara na música brasileira, Marya também ressignificou as músicas do pai no disco “De pai para filha”, de 2011, e agora atualiza canções da ditadura militar com o álbum “Comportamento geral”, lançado na semana passada.

A voz que, aos 4 anos, cantava a música do comercial de Cremogema, entre as décadas de 1970 e 1980, se desenvolveu. Foi backing vocal de Marisa Monte e integrou os principais musicais da recente e prolífica produção nacional, como “”Beatles num céu de diamantes”, de 2008, “Um violinista no telhado”, de 2011, “Oui, Oui…a França é aqui!!”, do mesmo ano, e muitos outros. “Na verdade, tenho duas vidas, que é a dos musicais e a minha vida dentro da música. Esses mundos não se encontram, são totalmente afastados”, comenta. Maquiando-se para entrar no palco do Cine-Theatro Central, a cantora e atriz conversou com a Tribuna. Cheia de tatuagens, ostentando uma grossa corrente de prata no pescoço e com um tom de voz marcante, Marya preserva a atitude não apenas na voz.

Tribuna – Como foi revisitar as músicas do Milton Nascimento?

Marya Bravo – Esse trabalho é um dos mais especiais da minha carreira. Quando recebi o convite, fiquei muito feliz, não só pela obra dele ser linda, mas pela ideia ser fantástica. Já tinha participado de muitas peças do Charles e do Cláudio, e sabia que eles iriam fazer um formato além do “Beatles num céu de diamantes”. Essa peça junta instrumento e música, e o fato de eu tocar é o que mais amo, porque nunca tive coragem de tocar ao vivo.

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– Você é mais cantora ou mais atriz?

– Sou mais cantora, comecei cantando, mas também sou muito atriz, e é isso que faz a diferença, porque tem a interpretação das canções, que fica mais intensa.

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– E agora você está em mais musicais…

– Estou fazendo “Se eu fosse você – o musical” e o “Vampiras lésbicas de Sodoma”. Não sei como administro.

– E esses trabalhos são muito diferentes?

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– Totalmente. “Se eu fosse você” é um musical bem tradicional, padrão Broadway, com uma história brasileira e bem gigante. Aqui o grupo já se conhece há muito tempo, tem muita gente que fez o “Beatles”, que ficou em cartaz por cinco anos, muitas pessoas passaram pela peça. Isso está acontecendo também com “Nada será como antes”. A Ester Elias nunca tinha feito o “Nada será como antes”, mas já tinha trabalhado com ela em “Cristal” e “Ópera do malandro”. O Rodrigo Cirne é um dos meus melhores amigos e fez “Beatles”, “7”. Esse companheirismo faz muita diferença. Nos divertimos muito.

– E na sua carreira solo, porque decidiu gravar as músicas do seu pai só no segundo disco?

– Porque ele morreu, e logo depois muita gente me pediu para gravar programa, fazer especial ou um disco. E eu nem pensava nisso. Depois fui chamada para fazer um show. Na mesma semana, tinha saído para tomar um café com a Gottsha, e ela me falou para fazer um show com as músicas dele: “Você tem que fazer antes que alguém faça. Você que é a filha mais velha, a filha de cuca legal”. Fiquei com isso na cabeça e fiz uma temporada no Sesc Copacabana. O DJ Zé Pedro (do selo Joia Moderna) me escreveu e disse que queria que eu fizesse o disco. Foi acontecendo, não foi planejado.

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– E agora você fala de ditadura.

– Esse show foi encomendado pelo Sesc Copacabana, que fez um projeto de duas semanas falando sobre esse tema. Chamei o Rodrigo Faour (pesquisador) para me ajudar no repertório, porque não sou dessa área, do samba, da MPB, ouço hard-core, hip-hop gangsta, não ouço musical. O que escuto em casa é muito diferente de tudo o que faço. Quando comecei a ouvir o repertório, me senti muito afastada e fiquei muito insegura. O que me fez sentir a vontade foi entrar em estúdio com a minha banda e transformar todos os arranjos. Esse disco é a maior surpresa da minha vida. Foi muito libertador.

– Nele também está a atriz dos musicais?

– Vai estar sempre. Nesse show do “Comportamento geral”, fizemos o cenário todo coberto de jornal, com as cabines de luz e som acesas, com os técnicos de óculos, como se fossem policiais e como se eu estivesse em uma sala de interrogação. Não falei com ninguém, não dei “boa noite”, não falei nome de músicas, não olhei para a cara de ninguém na plateia, tocamos “Comportamento geral”, a banda continuou e eu saí de cena. Enquanto todo mundo pedia bis, começou um off com uma pessoa lendo a carta dos direitos humanos. Tudo ficou muito forte.

– Apontam você como um dos nomes da nova geração. Você se vê dessa forma?

– Acho difícil dizer isso, porque ainda não consegui um espaço para mostrar tudo. Espero tê-lo, porque acho importante existirem vários estilos musicais, vários cantores. Espero poder mostrar minha identidade. Tenho essa coisa de cantar com dramaticidade, que é o musical dentro de mim, e adoro a intensidade. Quero que as pessoas me ouçam.

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