
Animais de fibra enfeitam entrada do circo
O apresentador do circo, Geovane Brascuper, e a mãe, a pipoqueira Maria da Penha
O espaço ocupado por malabaristas, palhaços, acrobatas e bailarinas se torna ainda mais encantador quando se tem acesso aos bastidores. Fora do alcance do público, trailers fazem às vezes de moradia. Enquanto os artistas andam de cidade em cidade, histórias vão sendo escritas, casamentos vão sendo feitos e desfeitos, e crianças vão chegando ao mundo. O endereço da festa, em temporada em Juiz de Fora, é a Rua Benjamin Constant, próximo à sede do Tupi. Para quem se animar, os espetáculos do Babilônia Circus acontecem às quartas, quintas e sextas-feiras, às 20h30, sábados e domingos, às 16h30, 18h30 e 20h30. Tem até show com Peppa Pig e companhia.
“Quando a gente veio embora, nossa mãe nos colocou na frente do ônibus e disse: ‘só quero que prometam uma coisa para mamita: não se separem nunca’. Depois disso, a gente só ficou longe uma vez, quando eu fui para a Argentina e o Taba foi para Manaus. Passamos tantas coisas sozinhos que, ao nos reencontrarmos, decidimos que nunca mais íamos nos separar.” É curioso, mas quem disse a frase que, nem de longe, arranca gargalhadas, é Thiago Ugalde, 27 anos, o palhaço Chingolito. Ele e o irmão, Taba, 28, são os responsáveis pelos momentos mais hilários das apresentações.
Chilenos, eles vieram para o Brasil passar férias de três meses com o pai, separado da mãe, e nunca mais voltaram. “Estudamos, jogamos bola, minha mãe tentou nos colocar no karatê, na natação, na ginástica, mas não teve jeito”, conta Chingolito, explicando a razão do apelido conquistado na infância. “Chingolito é um passarinho peludinho, e eu era cabeludo, andava de cabelo solto e tinha as canelas finas. Dizem que eu sou muito parecido com um.”
Com o rosto pintado, Taba se torna Tatin. A alcunha também tem relação com a aparência física. “Eu era magrinho e cabeçudo, igual a um pirulito do Uruguai, que chamavam de Tatin”, confidencia o artista, que divide com o irmão um trailer, estacionado logo atrás da tenda. Se a aptidão para o picadeiro surgiu de forma natural, as técnicas são aperfeiçoadas com a cumplicidade. “Basta a gente olhar um para o outro”, afirma o mais velho, sendo completado pelo mais jovem. “Aprendemos diariamente nos espetáculos. O público não é igual. A arte de fazer rir é difícil, falhamos muitas vezes. Mesmo com nossos problemas, tentamos fazer o máximo.”
Escrito em algum lugar
Estava escrito em algum lugar que Geovane Brascuper, 44 anos, seria apresentador. Sua experiência pode ter sido herdada da avó, que, aos 15 anos, largou casa e família em Serra (ES), para ir atrás do namoradinho que estava de passagem pelo município com uma companhia circense. “Os pais dela nunca nem ficaram sabendo disso. Ela nunca mais voltou”, diz o locutor de voz firme, dono de um motorhome avaliado em R$ 90 mil. O veículo não deixa nada a desejar a uma residência fixa. Tem fogão, televisão, cama, guarda-roupa, ar-condicionado e cômoda. Acompanhado da mãe Maria da Penha, “a melhor pipoqueira do circo”, ele trabalha (ou se diverte) de janeiro a janeiro. “Enquanto todo mundo quer passear, a gente rala. Só paramos no Natal e no Ano Novo”. Mineiro de Belo Horizonte, ele tem dois filhos e já foi casado, inclusive, com uma ex-dançarina do “Domingão do Faustão”. Na época em que a bailarina largou a profissão, ele era apresentador de O Circo Mundo Mágico de Beto Carrero. “Quero ter casa normal e morar em Fortaleza”, comenta ele, para logo se render aos encantos do seu “vício”. “Quem bebe água da lona não quer sair mais daqui, diz um ditado.”
Beneficiando-se de uma Lei Federal que assegura vaga em uma sala de aula de instituições públicas do país, o trapezista Jorge Ugalde garantiu a educação dos filhos, Bruno, de 23 anos, e Sara, de 13. “Assim que chegamos a um lugar, a primeira coisa que minha mulher faz é procurar um colégio. Sempre há uma diretora que desconhece a lei. Por isso, a gente já leva o documento que comprova nosso direito. O Bruno chegou a estudar quatro dias numa escola. Era a conta de matricular num dia, estudar no outro e depois viajar.”
É com a filha que o trapezista se joga em suas performances aéreas, atividade um dia praticada com a esposa, colega com quem casou em 1989. A passagem do tempo foi o que provocou a troca de parceira no trapézio. “É uma vida inteira no picadeiro. Estou com 56 anos, bastante passado para o ofício. Sinto dores nos joelhos e nos ombros. Por isso faço fisioterapia. Não treino muito, porque o desgaste é maior que durante o espetáculo. Minha filha é mais leve, mas está crescendo, pegando corpo. Daqui a pouco, não aguento mais”, conclui. “O número que fazemos machuca muito, porque é no cabo de aço.”
Entre os maiores
Robson Sousa Alves Assunção, 35, o homem sapo, esteve entre os contorcionistas do Ringling Brothers Circus, considerado o maior circo dos Estados Unidos. Entre os cerca de 70 profissionais que se dedicam a colocar o Babilônia de pé, ele é um dos poucos não oriundos de uma família circense. “Descobri tarde que podia trabalhar com isso, mas sempre tive flexibilidade. Por indicação de uma professora, entrei para a Escola Nacional de Circos, do Rio de Janeiro, e, em seis meses, viajava para todo lugar”, conta ele, que, desde então, foi visto por plateias de 11 países, entre eles México, Canadá, China e Hungria. “Me aqueço muito bem antes de entrar, porém não treino. Só sinto cansaço”, comemora o carioca, que se casou a primeira vez aos 18 anos. “Ela não se adaptou.” São duas ex-mulheres e dois filhos.
No momento em que Vitor Santiago Junior, 26 anos, se equilibra em um monociclo, o filho Felipe, de 8 meses, fica com a mãe, a bailarina Vivian. “É legal demais saber que o espectador está ali na nossa frente. Tenho que ter 100% de atenção porque posso cair, e é isso o que o público quer. Para não acontecer, tenho que ficar me movimentando o tempo inteiro”, entrega o paulista de Barretos, formado em educação física. Ele aponta semelhanças entre a forma como ocorrem as contratações em um circo e em um time de futebol. “Você está num time, chega alguém de outro, oferece um valor mais alto e te leva. Muitos artistas sonham em ir para o Cirque du Soleil. Eu quero trabalhar em um Cassino de Las Vegas.

