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O silêncio do telefone

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Já disseram alguns poetas: o mal do século é a solidão. Fulaninha e Dona Coisa, um texto de Noemi Marinho, resvala exatamente esse ponto, tão intrigante quanto conhecido. Não que as personagens, uma patroa e sua empregada, escancarem as ausências do cotidiano em um drama sofrido. Pelo contrário, é com bom humor que a autora discute os desafios da convivência e a beleza da amizade. Há tempos, o ator e diretor Cláudio Ramos pensava em criar sua versão do espetáculo. Procuro escolher as comédias com conteúdo e emoção, justifica. A montagem, com participação dos atores Márcia Mello, Sandra Almeida e Diogo Martins, estreia nesta sexta, no Pró-Música.

Pela primeira vez em uma carreira de 25 anos, Cláudio decidiu não sair dos bastidores. Preferiu exercitar sua porção diretor. Sempre acumulei funções e me preocupei com a atuação. Fora da cena, pude dar atenção a detalhes. Para reciclar o próprio fazer e achar novas fórmulas, o artista também selecionou um elenco com o qual não havia trabalhado. Estou vivendo um caso de amor com os atores. Tive que entender o processo deles, e eles, o meu.

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A construção do espetáculo, como sinaliza Cláudio, acabou alcançando um realismo vivo. Sob as luzes, estão duas mulheres que se apoiam uma na outra, apesar das diferenças. Dona Coisa é fina, rica, bem-sucedida e aparentemente feliz. Fulaninha veio do interior, de algum lugar distante dos avanços da modernidade. Tanto que ela confunde a piscina do prédio com um açude. Não sabia que havia outra serventia para tanta água, diz, depois de ter lavado roupa ali, para desespero do síndico. Essa junção improvável aguça a relação entre as duas, que se transformam no correr do tempo. Fulaninha, inclusive, encontra um possível namorado, técnico da companhia telefônica. Para dar mais veracidade à cena, o diretor optou por seguir à risca o texto de Noemi, evitando cacos e o humor rasgado. Aprecio o riso que também toca as pessoas.

Aliás, foi por ter sido afetado pela rotina dessas figuras que Cláudio resolveu levá-la, a seu modo, para o lado de lá das cortinas. Ao conferir uma versão em Belo Horizonte, encantou-se com a delicadeza da proposta. Não sossegou até conseguir os direitos. Sou assim. Há dez anos tento montar ‘A partilha’, de Miguel Falabella. Uma hora vai dar certo.

Outro motivo para optar por Fulaninha e Dona Coisa foi a estreia da peça, em 1990, sob a batuta de Marco Nanini, com Louise Cardoso, Aracy Balabanian e Paulo César Grande. É uma honra ocupar a mesma posição do Nanini, resume. Na opinião de Cláudio, o público irá se identificar com a história. Todos conhecemos aquele momento em que olhamos para o telefone no sábado à noite implorando para que ele toque. Sem patrocínios, o espetáculo segue em cartaz até domingo.

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FULANINHA E DONA COISA

Sexta e domingo, às 20h. Sábado, às 21h

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Até 16 de setembro

Pró-Música

(Av. Rio Branco 2.329)

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3215-3951

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