Logo na entrada do Tattoo Fusion Fest, o som era uma mistura de rock com o ruído vindo das máquinas de tatuagem em operação. Pelos corredores do evento, que reuniu tatuadores de todo o Brasil, entre sexta e domingo, no Exposhop, difícil mesmo era encontrar alguém que não tivesse a pele ornada por desenhos. E nesse ambiente, é claro, não faltavam histórias curiosas e cheias de personalidade. Em uma das salas do espaço, o tatuador Alexandre Dallier ministrava um workshop sobre realismo. "Não somos normais. Somos malucos, artistas", anunciava para uma atenta plateia de tatuados. O tom usado pelo profissional já mostrava uma das principais bandeiras do Tatto Fusion, que era a legitimação da tatuagem como arte. Segundo ele, os bons tatuadores devem ter uma intimidade quase que "sexual" com a arte, sendo capazes de lançar um olhar diferenciado sobre as imagens do cotidiano. "O realismo nada mais é do que tatuar aquilo que você vê." Enquanto ensinava que o desempenho é diretamente relacionado à dedicação, Dallier citava pintores importantes, como Renoir e Monet, que "gostavam de trabalhar com as mãos sujas para sentir a energia das tintas."
Do lado de fora, em alguns estandes, os tatuadores mostravam o que sabiam fazer de melhor. Em um dos espaços, pai e filho dividiam o ofício. André Matosinhos, de 48 anos, e André Ribeiro, de 22, vieram de Belo Horizonte. "Ele escolheu a profissão por conta própria e só fez a primeira tatuagem depois dos 18 anos. Queria que tivesse consciência do que estava fazendo", contava o pai, que, diante da inclinação do filho, fez com que aprendesse desde a parte administrativa do estúdio até chegar aos desenhos. "Hoje é uma satisfação ver a evolução dele. Também é importante a forma como ele traz coisas novas para o estúdio."
No mesmo local, a tatuadora juiz-forana Sarah Mendes tomava uma cerveja e confiava sua pele às mãos de André, que desenhava o rosto de La Catrina, famosa personagem do "Dia dos Mortos" mexicano. "Achei uma mulher muito sensual, e gostei dos traços dele. O efeito de sombra valoriza o desenho", dizia Sarah, que não foi ao evento com a determinação de fazer uma tatuagem. "Gostei do desenho e quis fazer na mesma hora."
Em outro espaço, o tatuador peruano Adolfo Gutierrez dava novos ares ao braço do fotógrafo Frederico Pitol. O trabalho havia sido iniciado às 15h30, e a previsão era de que fosse concluído por volta das 20h. "É doloroso, mas, quando acaba, ver o desenho bem feito é compensador", pontuava Frederico. Já Adolfo vem ao Brasil com frequência para participar de concursos. Na visão dele, as tatuagens escondem muitas histórias. "Na minha cultura inca, cada tatuagem tem um sentido especial, seja religioso ou guerreiro. É uma arte que marca." Para dar vida aos desenhos, ele procura unir diferentes ilustrações em uma mesma tatuagem. "Gosto de fazer uma mistura de elementos culturais, como se fosse um suco de frutas batido."
Personalidade
O paulista Kyko Tattoo largou o emprego de editor de imagens na Revista Vogue, onde chegava a gastar quatro horas fazendo reparos em uma única imagem de modelo, para se dedicar exclusivamente à carreira de tatuador. "Prefiro gastar dez horas em uma tatuagem", comprava. Com piercings no rosto e cabelos tingidos de azul, além de várias tatuagens, Kyko, que colocou seu primeiro piercing aos 12 anos, define a modificação corporal como parte da personalidade. "Se não tivesse nenhum desses elementos, seria como se não possuísse identidade."
Desde adolescente, a empresária Jaque de Carvalho, que administra um estúdio de tatuagem com o marido, em Vila Velha (ES), queria fazer tatuagens, mas sempre foi reprimida pela família. Entretanto, há cerca de dois anos, ela radicalizou. Começou a cobrir o corpo com desenhos que contam parte de sua história. Não por acaso, a primeira delas foi a frase "meu destino pertence a Deus". Segundo Jaque, tratam-se de registros de recomeço de vida. Por isso, uma das primeiras imagens grandes foi justamente o fênix, pássaro que renascia das cinzas na mitologia grega. De lá para cá, seu corpo passou a abrigar desde homenagens aos filhos ao Salmo 23, que a mãe lia para ela. "Acho que falta ainda uma bandeira do Brasil. Mas preciso finalizar uma que está em andamento para achar o lugar ideal", contava Jaque, que já tem a aceitação dos pais. "Estou muito feliz. Minha autoestima ficou bem melhor."
O tatuador Manuel Garcia, de Sorocaba (SP), também vê nos desenhos sobre a pele uma extensão de sua personalidade. "A gente consegue passar o que está no nosso interior." Por conta dessa constatação, ele não poupou o rosto das marcas, que se apresentam no lugar das sobrancelhas e sobre a testa, acompanhadas de dreads no cabelo e alargadores. Perguntado se já enfrentou dificuldades por conta das ousadas modificações, a resposta é simples: "Fiquei mais bonito. Aí virou um problema."
