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Ecos de pertencimento

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Edimilson acaba de lançar três livros de poesia (Olavo Prazeres)
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Edimilson acaba de lançar três livros de poesia (Olavo Prazeres)

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40 milhões. Estimativas recentes dão conta de que 40 milhões de negros foram forçados a deixar a África entre os séculos XVI e XIX. Para as Américas, foram trazidos cerca de 10 milhões. Para o Brasil, 4,5 milhões. Ontem que ainda é hoje. “Os negros têm os índices de educação, saúde e segurança mais precários possíveis. Esse é o lado nefasto do tráfico Atlântico”, pontua Edimilson de Almeida Pereira, professor da Faculdade de Letras da UFJF, pesquisador de cultura afro-brasileira e escritor atento às raízes. “Por outro lado, se o tráfico negreiro desqualificava o sujeito, o colocava na condição de objeto, esses sujeitos criaram mecanismos de reação, de sobrevivência”, pondera.

O blues e o jazz norte-americano, o tango argentino, o candombe uruguaio. “Quando se fala no Brasil, a questão é incontornável. Existe, hoje, um percentual de 200 milhões de habitantes, e 51% são afro-descendentes. Dá para imaginar, então, o quanto, ao longo de quatro séculos, essas culturas negras interferiram na formação do pensamento brasileiro, da percepção estética, da organização social. Embora essa interferência não garanta para essa população afro-descendente uma participação plena nos melhores patamares da vida social”, avalia.

Ainda que caminhem por lugares diversos, “Relva”, “Guelras” e “Maginot, o” (Mazza Edições/Sans Chapeau) dizem de um autor comprometido com uma coerência total, com uma linha que perpassa todos os textos. “Tento criar uma perspectiva que considere o lugar de onde falo. Dos séculos XV a XVIII, a escravidão era um processo racionalizado de um modelo de economia que alimentou as bases do capitalismo moderno. Esse aspecto deixou marcas muito violentas. Para mim é impossível pensar a nossa sociedade excluindo essa herança”, conta.

“A escravidão só se dá quando transforma o homem em objeto, em animal. Mesmo hoje, como afro-descendente, sei que esse passado não está preso lá. Em muitas e muitas vezes, os negros são tratados da mesma maneira. Isso não foi resolvido, não foi superado. Então, qualquer indivíduo negro que queira desconstruir esse modelo precisa ter algumas perspectivas”, diz, para logo pontuar: “Primeiro, trabalho com uma sociedade que, antes de mais nada, é hostil à minha forma de vida e às minhas heranças culturais”.

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“E, ainda, quando essa sociedade escravocrata ‘aceitou’ os afro-descendentes, aceitou-os como objetos lúdicos. Os negros só têm que sambar, cantar, jogar futebol ou praticar outros esportes. Atividades interessantes, mas muito limitadoras quando pensamos na dimensão humana em sua extensão maior. Não quero fazer uma poesia lúdica, porque já é uma recepção para esse modelo muito estereotipado. Quero fazer, frontalmente, um tipo de linguagem poética que seja contra esse modelo de estereótipo do ludismo. Por isso, uma poética extremamente racionalizada que tenta construir uma linha de pensamento do primeiro ao livro mais recente.”

‘Tenho um projeto de escrita’

Porções de um projeto de escrita que já soma mais de três décadas, os novos títulos de Edimilson de Almeida Pereira complementam a leitura de sua obra reunida, lançada entre 2002 e 2003, em quatro títulos que agrupam quase duas dezenas de obras. “Minha obra poética aponta quatro vertentes de criação, como os heterônimos de Fernando Pessoa. Nos últimos anos, no entanto, encontrei uma quinta vertente de escrita, de linha mais auto-irônica”, comenta, referindo-se aos novos “Guelras” e “Relva”, que se alinham com certo expressionismo inédito em sua trajetória.

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Enquanto “Zeosório blues”, de 2002, lida com o manancial das heranças do pensamento afro-diaspórico; “Lugares ares”, de 2003, trabalha com elementos cotidianos; “Casa da palavra”, de 2003, enfatiza experiências de oralidade (o novo “Maginot, o” também); e “As coisas arcas”, de 2003, explora uma visão metafísica do humano. Cinco olhares, já que dois dos novos títulos indicam novo horizonte, capturados por um escritor consciente de si mesmo. Professor que fala do outro, mas também lê as próprias páginas.

“Tenho um projeto definido de escrita. Como se tivesse uma racionalização do processo poético e cada conjunto de obra segue ramificações específicas. Não sou da vertente da poesia por inspiração, por acaso. Trabalho com isso, dou aula sobre isso, mas não é o que me interessa particularmente. Gosto do contrário. Como trabalhei por muitos anos com cultura popular, percebi que a visão estereotipada é de que tudo é espontâneo. O mestre de folia de reis é espontâneo, o rezador é espontâneo, o contador de história é espontâneo. É uma visão de quem está de fora. Há um mecanismo de racionalização muito articulado. A demonstração pode parecer ilógica, festiva, simbólica, mas o processo é articulado”, explica.

Segundo Edimilson, “uma das vertentes fortes da poesia moderna é a imagem do poeta crítico, que é capaz de trabalhar o processo criativo, a realização do texto de invenção, e, ao mesmo tempo, tem um acompanhamento muito refinado do próprio processo e reflete sobre ele. Pedagogicamente o professor tem que dominar questões de estilos de época, relações histórico-sociais, linhas estéticas, envolvimento dos autores com a própria obra e meio. Ele se torna um mediador entre a obra e o público, um leitor crítico. No meu caso, a configuração do eu poético se deu com a configuração do eu crítico.”

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‘Queremos ficar’

Expoente da prolífica geração de poetas da Juiz de Fora dos anos 1970 e 1980, tempo das revistas “Abre Alas” e “D’Lira”, Edimilson – o poeta e o ensaísta – é reverenciado hoje com sua obra servindo a seleções de vestibulares, sendo adotada por escolas e objeto de estudos universitários, como “Recitação da passagem – A obra poética de Edimilson de Almeida Pereira”, tese de doutorado transformada em livro e assinada por Maria José Somerlate Barbosa. “Como um ourives, burila minuciosamente os sentidos linguísticos que essa vivência com o tempo histórico e com o espaço cultural lhe oferece”, analisa a pesquisadora na obra de 270 páginas.

Edimilson – o intelectual – , homem discreto na fala e na postura literária, ecoa pela honestidade com a qual encara o tempo. Escreve para si e para o outro. Fala do hoje com a consciência do ontem e com a fé no amanhã. Estupefato, observa o entorno nos novos “Guelras”: “O mundo contemporâneo não tem sido muito generoso com a gente. Atravessamos, hoje, retrocessos em muitos aspectos que já imaginávamos ultrapassados, seja no campo político, das relações pessoais ou estético.”

Em “Relva”, por sua vez, e não menos perplexo, diz do esvaziamento da interlocução. “Acho que nunca tivemos tanto acesso aos meios de comunicação como hoje. Mas o fato de ter acesso não quer dizer que você constrói diálogo, comunicabilidade. As pessoas se falam, mas não se entendem. Se veem, mas não se percebem. A comunicabilidade é quando você fala com o outro, se desdobra sobre o outro e o outro sobre si”, pontua ele, que, em “Maginot, o” expõe fotografias de família e registros afetivos de uma Juiz de Fora pretérita, como a que mostra Congo, o lendário motorista de táxi.

Título do livro, Maginot era um homem refinado, que dançava numa juiz-forana casa chamada Elite, semelhante à boate homônima do Rio de Janeiro, em plena década de 1950, era dos cassinos. “Havia um detalhe, ele não tinha uma perna. Era um dançarino quase completo. Do ponto de vista estético, é como se fosse a experiência de vida de boa parte da população brasileira. Tem muitas coisas que constrói, mas sempre falta alguma coisa. No caso dos afro-descendentes, mais ainda. O sujeito pode ascender socialmente, mas a sociedade sempre vai cobrar dele alguma coisa a mais”, reflete Edimilson, um autor de ecos, um escritor que fez da palavra, uma expressão, de luta e de lida, de resistência e de resignação, de originalidade e de compartilhamento, da certeza de que pertencer é a melhor forma de fazer narrativa. “Fomos trazidos forçadamente, ajudamos a articular o país, e, uma vez que essa contribuição é dada, boa parte da sociedade continua nos rejeitando. É um mecanismo odioso, perverso. Agora, não queremos voltar e queremos continuar contribuindo e participando de um processo cultural complexo que ajudamos a construir.”

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