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Entrevista com Adriana Carranca, jornalista

adriana carranca na casa de sana seu tradutor no vale do swat arquivo pessoal

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Adriana Carranca na casa de Sana, seu tradutor, no Vale do Swat (ARQUIVO PESSOAL
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Adriana Carranca na casa de Sana, seu tradutor, no Vale do Swat (ARQUIVO PESSOAL

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Adriana Carranca conta a história da menina paquistanesa que quase perdeu a vida por querer ir à escola Cortesia da Associação de Correspondentes da ONU)

“Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.” As palavras que comoveram o globo em 2014 foram disparadas pela mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, a paquistanesa que atiçou a ira dos radicais islâmicos. Seu crime era lutar pelo direito de continuar estudando. Em “Malala – A menina que queria ir para a escola” (Companhia das Letrinhas, 95 páginas), a jornalista Adriana Carranca traz para o público infantil a trajetória dessa heroína nascida no Vale do Swat. Em outros tempos, sua terra foi cobiçada por célebres conquistadores, como Alexandre, o Grande, e protegida pelos bravos guerreiros pashtuns. Por lá, reis e rainhas, príncipes e princesas fizeram moradia. “É um livro com muita fantasia, que parece de mentira, mas é tudo verdade”, afirma a autora, que é repórter especial do jornal “O Estado de S. Paulo.”

Para levantar informações para a publicação, Adriana hospedou-se em uma casa de uma família local e se vestiu com os mesmos trajes das mulheres da região. “E tive de me disfarçar, porque os perigos ainda assombravam o vale, e ninguém podia saber que eu estava lá”, conta a escritora, que, na época, não pôde falar com Malala. Naqueles dias, enquanto voltava da escola de ônibus, a menina havia sofrido um atentado e estava internada em estado grave. “Estive com ela depois. Sempre mantive contato com o pai dela e entreguei o livro na semana passada, nos Estados Unidos. É uma história dela também, e eu fiz questão de levar o livro pessoalmente”, diz Adriana. Com o livro, Adriana inaugura, no Brasil, o gênero livro-reportagem para crianças.

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Tribuna – Não era sua intenção escrever um livro para crianças, mas você acaba inaugurando, no Brasil, o gênero livro-reportagem para esse público. Por que a mudança de percurso?

Adriana Carranca – A ideia era escrever um livro adulto, usando a história da Malala para falar sobre a guerra do Afeganistão que tinha vazado para além da fronteira para o lado paquistanês. O Matinas Suzuki, da Companhia das Letras, me convidou para escrevê-lo no dia seguinte em que publiquei uma matéria sobre o atentado da Malala. Quando cheguei lá, as pessoas nem falavam dela, ninguém sabia direito quem era ela. Durante a minha pesquisa, começaram a surgir histórias de que ela era uma menina blogueira, uma ativista ao lado do pai ali naquela região. Viajei até a cidade dela e me hospedei na casa de um tradutor, algo que costumo fazer para mergulhar no cotidiano da sociedade sobre a qual estou pesquisando. Comprei uma roupa como a das mulheres locais para poder me infiltrar melhor e não chamar tanta atenção na rua porque os talibãs tinham dito que executariam jornalistas que eles encontrassem no Vale. Havia oito crianças na minha casa, e eu convivia com elas e com as mulheres diariamente. Brincava com elas, e, à noite, como não tinha energia elétrica, a gente sentava em volta do fogo para ouvir as histórias do Vale contadas pelo avô delas. Depois veio a convivência com as crianças da escola da Malala. Foi daí que começou a surgir na minha cabeça que isso era uma história muito bacana para crianças, de ser contada para crianças. Toda hora eu falava: “Puxa, se as crianças do Brasil soubessem que existe essa escola aqui no Vale do Swat. Puxa, se as crianças do Brasil soubessem como é a vida das crianças daqui. Puxa, se elas soubessem a história da Malala e se elas soubessem que a Malala não tinha nem luz elétrica…”

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– E a ideia do livro adulto foi abandonada ali mesmo?

– Quando eu voltei, comecei a criar um livro adulto mesmo, mas com aquela ideia de escrever também um livro infantil. Tudo o que eu achava para crianças destacava num arquivo do lado. Chegou um momento em que achei que o arquivo do lado estava muito mais legal, interessante e cativante do que aquela análise política que eu estava tentando fazer da região. Inicialmente, abandonei o projeto de fazer o livro adulto, porque também eu já tinha feito um livro sobre o Afeganistão. Fiquei com a história na cabeça e fui estudar literatura infantil com o professor Cláudio Fragata que ganhou o Jabuti no ano passado com literatura infantil.

As coisas foram surgindo, as coisas de os talibãs serem os homens barbudos da montanha, por exemplo. O livro tem personagem da literatura infantil, como o Barba Azul. Essa história de um povo valente, guerreiro, que são os pashtuns, e desses conquistadores que nunca conseguiram conquistar esse povo foi crescendo.

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– Você fala numa entrevista que essa poderia ser uma história de uma criança brasileira…

– É a história de uma criança, porque, na primeira vez em que a Malala deu uma entrevista defendendo a educação de meninas e falando do que estava acontecendo no Vale do Swat, ela tinha 10 anos, foi em 2007. Quando ela começou a escrever o blog, ela ligava para o jornalista da BBC, contava o que tinha acontecido no dia, relatava como era viver sob a guerra, sob o cerco do talibã, e ele transcrevia, porque ela não tinha nem computador. Puxa, se as crianças do Brasil soubessem que elas podem fazer isso, que elas têm essa força, que esse blog poderia ser escrito por qualquer criança de uma favela brasileira… Era como uma comunidade sob o comando do tráfico, por exemplo. Na época da guerra, em que as escolas fecharam, o exército tinha invadido o Vale do Swat, e era como se uma polícia invadisse uma comunidade. Havia trocas de tiros, e as crianças acabavam conseguindo ir para a escola.

– Você relata que as crianças foram proibidas de falar com estranhos, mas que elas arrumavam um jeito de conversar com você através de bilhetes. O clima na escola era de medo?

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– Dentro da escola não, porque a escola era um oásis no meio daquele vale. No momento em que as crianças chegavam à escola, elas se sentiam protegidas. Claro que tinha um estranhamento com os policiais vigiando a entrada, o que nunca havido ocorrido antes. Tinha uma recomendação do próprio exército de que eles não conversassem com ninguém, mas com as várias visitas que eu fiz, com o tempo, eles foram ganhando confiança, e as meninas, muito espertas, me passavam bilhetinhos, endereço de Facebook.

– A casa em que você ficou tinha sido bombardeada dias antes. Como foram esses dias no Vale do Swat? Como é estar em uma região de conflito?

– A casa tinha sido bombardeada durante a guerra porque o irmão do Sana, meu tradutor, era um talibã e estava preso. Quando eu cheguei lá, achei que tinha sido sequestrada. O Sana tinha sido indicado para mim por um jornalista do “The New York Times”, mas esse jornalista nunca tinha estado no Vale do Swat. Era muito perigoso ir até lá, principalmente para um americano. Quando eu cheguei lá é que o Sana me contou sobre o irmão. Foi no mesmo momento em que ele me apresentou um primo dele que tem uma milícia armada antitalibã. Eu os vi armados antes de ele me contar que era uma milícia. Achei que tinha sido uma armadilha para mim. No fim, não era. Fui para lá com um motorista que contratei, mas que não pôde ficar hospedado comigo porque ele não podia ver as mulheres da casa. No Paquistão, as casas são separadas em ala das mulheres e dos homens.

– Seu livro é voltado para crianças e traz algumas passagens violentas. Tem sido questionada por isso?

– Sempre brinco que a gente se esquece das histórias infantis. O lenhador manda cortar o coração da Branca de Neve para levar até a rainha como prova da sua morte, o lobo mau que come a vovozinha inteira, o guarda florestal vai lá e corta a barriga do lobo vivo e tira a vovozinha. Numa história contemporânea, os pais do Harry Potter foram assassinados. É importante que você não passe às crianças uma coisa que não é realidade, uma vida de contos de fadas. Tentei passar essa história sem poupá-las da verdade. Tento contar de uma forma delicada, não falo em morte, porque acho que não precisa. Falo que a Malala dormiu, mas as crianças estão bem mais espertas que a gente imagina. Quando falo em palestras que a Malala dormiu, as crianças falam: “ah sei, ela está em coma?” Minha história é a de uma heroína moderna, da menina que não queria se casar e se realizar por um príncipe encantado, mas ir para a escola e aprender a se realizar por ela própria. Ela é uma Cinderela dos nossos tempos. Uma heroína que sofre com a opressão, com a violência, mas que, ainda bem, vive um final feliz.

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