O calor latino encontra a grandeza de uma orquestra sinfônica. Assim será o concerto que a Orquestra Ouro Preto fará amanhã, na abertura da 23ª edição do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora, às 20h30, no Cine-Theatro Central. Sob regência do maestro Rodrigo Toffolo, a Orquestra vem à cidade com um concerto fortemente inspirado na efervescência cultural da América do Sul, característica peculiar que durante anos vem conformando a identidade artística do grupo.
Além de fazer referência ao universo musical latino, o concerto trará arranjos e composições de Rufo Herrera, membro fundador da Orquestra Ouro Preto. As obras executadas compreendem a trajetória de Herrera. Argentino, radicado no Brasil, sua vivência musical é marcada pela pesquisa de sonoridades por locais onde peregrinou durante alguns anos de sua vida e pela técnica no bandoneon, desenvolvida ao longo de sua carreira. "É curioso que, na história do festival, já mostramos bastante coisas, mas não tivemos a oportunidade de mostrar a obra do Rufo, que é nosso compositor residente", pontua o maestro Rodrigo Toffolo. A segunda parte do concerto será dedicada ao tango e terá o percussionista Sérgio Aluotto tocando vibrafone. "Vamos mostrar a história do tango e os arranjos orquestrais em cima dos temas do tango, não os clássicos para serem dançados, mas o ritmo como uma música de concerto", explica.
Para Herrera, o principal do concerto será proporcionar às pessoas o contato e a sensibilidade com a música para o público "sentar e ouvir", e, com isso, abrir espaço para a música de orquestra. "Não se progride sem o público. Fazemos música para nossos semelhantes. A música só tem sentido quando o outro entra em contato com ela."
A Orquestra Ouro Preto também vai contar, por aqui, com a participação do maestro Matthew J. George, do departamento de música da St. Thomas University, Minneapolis (EUA), que dividirá as batutas do concerto com Toffolo. "Não é algo usual, mas regras estão aí para serem quebradas. Convidamos o Matthew para vir ao Brasil este ano, e, quando surgiu a oportunidade da apresentação no festival, decidimos fazer juntos. Vai ser bem interessante mostrar a visão de dois maestros em um mesmo concerto."
Criação própria
Diferentemente de muitas outras orquestras, o caráter experimental da Orquestra Ouro Preto se reforça com a manutenção de um compositor exclusivo para criar peças para o grupo. "É muito difícil encontrar orquestras com esse perfil. Quando tocamos algo totalmente novo, imagino a primeira pessoa que leu um texto inédito de William Shakespeare, por exemplo. Hoje há muita preocupação em fazer algo que já foi gravado anteriormente, e perdeu-se o compromisso com o novo. Os grandes mestres sempre vão ter espaço, mas sinto falta do equilíbrio entre os grandes compositores e um repertório próprio", afirma o maestro, destacando a necessidade de se primar pela música brasileira nos repertórios orquestrais. "É um patrimônio nacional, e não se deve abrir mão disto. Estamos trilhando este caminho em busca do equilíbrio."
O trabalho de um compositor residente é, tanto para Toffolo quanto para Herrera, fundamental para que a orquestra possa, cada vez mais, experimentar. "Em meu trabalho, tenho absoluta liberdade de criar. E os músicos da orquestra têm a possibilidade de vivenciar tudo aquilo que faz parte da formação de um músico orquestral", comenta Herrera, que destaca ainda a abertura do leque de opções da orquestra com a busca pela variedade. "Passamos por barroco, clássico e romântico, mas estamos sempre priorizando a música do nosso tempo, mais aberta. Vamos de Bach aos Beatles, passando por Alceu Valença."
Colhendo frutos beatlemaníacos
No ano passado, a Orquestra fechou o festival com o concerto "The Beatles", somente com canções do quarteto de Liverpool. Clássicos como "Hey Jude", "Lei it be" e "Yerterday" ganharam toda a roupagem e a sonoridade que somente uma grande orquestra pode dar. A iniciativa agora vai atravessar os mares e aportar, em agosto, na International Beatles Week, na terra daqueles quatro garotos que mudaram o mundo. A Orquestra irá se apresentar no Philarmonic Hall de Liverpool, umas das principais salas de concerto da Inglaterra. Toffolo vibra ao lembrar que participar do maior festival do mundo de bandas covers dos Beatles é um grande desafio e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade.
A presença no festival, considerado um dos mais importantes para os fãs dos Beatles no mundo, se deu, segundo o maestro, muito por conta do patrocínio que a orquestra recebeu da Petrobras, anunciado para o público na apresentação que o grupo fez na cidade no ano passado. "O patrocínio trouxe a possibilidade de manter uma agenda e o status da orquestra. Foi um apoio sem precedentes."
Amanhã, às 20h30
Cine-Theatro Central
(Calçadão da Halfeld)
Convites retirados na bilheteria do Pró-Música
(Avenida Rio Banco 2.329) a partir de amanhã, às 8h
