Foi preciso correr e se esquivar por entre a multidão para alcançar o homem que tocava violino em uma das ruas de Hamburgo, na Alemanha. Aquele som era a única ponte capaz de levar o pianista juizforano Moisés Mattos ao sonho que o fizera chegar ao outro lado do planeta. "Por favor, senhor, sou brasileiro e gostaria de estudar música." Ao ouvir essa frase, o tal homem se afastou com pressa. Começo difícil. Hoje, quatro anos depois, o músico nascido no Bairro São Pedro dá aulas em duas escolas alemãs – uma delas, Kulturhof, é a segunda maior do país – e comemora a aprovação em vestibulares de cinco destacadas universidades. De férias na cidade até o início de agosto, Mattos apresenta-se hoje na Sociedade Filarmônica.
Pouco depois de resolver sair do Brasil, o mineiro já tinha lugar para ficar e passagens garantidas. "Ganhei os bilhetes de um amigo que fiz em um curso." A Alemanha se tornou o destino oficial quando Mattos conheceu, por meio de um site, um artista interessado na cultura brasileira. Aceitou recebê-lo em casa. "Ele, então, me convidou também para ir a seu país", lembra o pianista, de 22 anos. Assim aconteceu. A essa altura, o jovem já falava alemão, além de inglês e francês. Havia aprendido sozinho, assistindo a filmes com ajuda do dicionário. Mesmo esbarrando em algumas dificuldades, ele logo se matriculou no instituto MenschMusik, onde estudou pedagogia instrumental e performance ao piano. Suas apresentações na escola, como afirma Mattos, estiveram sempre lotadas. "Não sei exatamente o porquê", brinca.
Curiosamente, o piano não foi o primeiro instrumento do juizforano. Antes dele, veio o violino, descoberto na igreja. "Dizia para minha avó que queria aprender a tocar aquele ‘serrote’." Aos 11 anos, o menino já dava aulas para iniciantes, mas não tirava os olhos do órgão que, naquele espaço, era exclusivo das mulheres. Até ser pego pelos adultos, Mattos tocou inúmeras vezes às escondidas. "Distante do órgão, fiz um teclado de papel e passei a praticar", conta o músico, que até os 14 estudou em um piano de brinquedo e em um teclado de quatro oitavas dado de presente pelo pai.
Até que Mattos conheceu o maestro André Pires, professor da UFJF, com quem trabalhou um repertório composto por Mozart, Villa-Lobos, Prokofiev, Rachmaninoff e Chopin. Pires ofereceu uma bolsa ao jovem talento, mas exigiu que ele tivesse disciplina e persistência. "André acreditou no meu talento e me deu um prazo de três meses para mostrar resultados. Acabei ficando três anos."
Filho de pais analfabetos, Mattos nunca pôde pagar seus estudos. Fez amizade com porteiros de escolas de música que o deixavam praticar à noite. "O mundo da minha infância é muito diferente do da arte. Foi preciso ter garra", ensina o juizforano, acrescentando que nunca foi visto no palco pelo pai e apenas uma vez pela mãe. "Quem sabe hoje eles vêm."
Com longa estrada pela frente, Mattos não pensa em voltar. Pelo menos por enquanto. De acordo com ele, é na Europa que as portas estão abertas para sua arte, ainda que o orgulho de ser brasileiro siga sempre em seu encalço. "Estando lá, posso ajudar a minha família, principalmente minha irmã, que tem síndrome de Down." Disposto a estudar cada vez mais, o jovem já pensa no futuro. "Quero construir carreira nos dois países." Para quem aprendeu a tocar sem instrumento, a proeza não parece ser das mais difíceis.
MOISÉS MATTOS
Hoje, às 20h30
Sociedade Filarmônica
(Rua Oscar Vidal 134)
3217-9120
