Ícone do site Tribuna de Minas

Terror submarino

PUBLICIDADE

Poucos roteiristas chamaram tanto a atenção dos fãs dos quadrinhos, nos últimos anos, quanto Scott Snyder. Autor da cultuada “Vampiro americano”, da Vertigo, e responsável pela já clássica fase atual do Batman, na DC, o escritor é um dos mais versáteis autores da sua geração, transitando facilmente entre os quadrinhos mainstream e seus trabalhos autorais. Este é o caso de “O despertar”, minissérie em dez partes que a Panini começou a publicar no Brasil em dois encadernados e que reúne o melhor que os contos de terror e ficção científica pós-apocalíptica podem oferecer.

Com o título original de “The wake”, “O despertar” começou a ser publicada em 2013 pela Vertigo/DC e conquistou os prêmios Eisner (o “Oscar” dos quadrinhos americanos) de melhor desenhista/arte-finalista (Sean Murphy) e minissérie. A princípio, ela parece ser mais uma (excelente) história de terror: a bióloga marinha Lee Archer é convocada a contragosto pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA para investigar uma estranha gravação obtida no Círculo Polar Ártico. Chegando lá, ela descobre que foi enviada, com um grupo de especialistas em diversas áreas, para uma plataforma de petróleo clandestina construída nas profundezas do oceano, onde uma criatura subaquática, parecida com uma “sereia do mal”, foi capturada.

PUBLICIDADE

Como tudo que pode dar errado vai dar errado, a criatura se liberta e convoca centenas de outras semelhantes – inclusive uma de proporções gigantescas -, e “O despertar” vira um thriller de terror eletrizante, como se fosse uma versão submarina de “Alien”, que encerra o primeiro arco da minissérie de forma aterradora e com mortes por atacado. Snyder desenvolve, aos poucos, o clima de mistério envolvido na missão secreta do governo americano que vai resultar na carnificina oceânica.

A cada quadrinho e página, a sensação de que há algo maligno por trás de tudo só vai crescendo, e a luta dos remanescentes para sobreviver ao ataque das criaturas submarinas é cheia de tensão e medo. Para isso, a arte de Sean Murphy (“Punk Rock Jesus”, “Vampiro americano” e “Batman”) é perfeita, com traços arrojados, cenários escuros, claustrofóbicos e realistas e as devidas expressões de terror, desespero e até mesmo resignação dos protagonistas, envolvidos em uma situação que logo descobrem ser impossível de escapar.

O grande mérito de Scott Snyder em “O despertar”, todavia, é dar pequenas mostras no arco inicial da minissérie de que ela não vai ficar restrita ao terror, com idas e vindas no tempo – de milhares, milhões e bilhões de anos no passado a algumas centenas no futuro -, deixando claro que há muito mais na história das criaturas marinhas do que se poderia supor. A segunda parte da minissérie não terá os personagens principais dos primeiros cinco capítulos, mostrando um futuro pós-apocalíptico em que as cidades foram tragadas pelos oceanos e a humanidade precisa se refugiar em cidades-árvore para sobreviver aos ataques das criaturas malignas, deixando o terror de lado para beber na fonte da ficção científica. Para quem já teve a oportunidade de ler “The wake”, Snyder faz uma mudança na trama com a mesma destreza utilizada por Robert rodriguez em “Um drink no inferno”.

Independentemente das mudanças de rumo e narrativa, a leitura do volume um de “O despertar” torna irresistível a espera pela conclusão da obra da dupla Snyder/Murphy.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile