No primeiro instante, a bossa-nova e Vinicius de Moraes – em particular – foram muito criticados. De um lado, por uma ala da literatura mais conservadora que achava "aquilo um rebaixamento lamentável do seu talento poético" e de outro pela turma da "pureza musical". Passados alguns anos, a discussão ganhou ares mais rebeldes, principalmente na figura de nomes como Chacal, militante da geração "marginalizada" de artistas dos anos 70 – a geração mimeógrafo -, que se tornou um dos raros exemplos de multiartistas, cuja produção, ainda hoje, consegue transitar entre música e poesia. A julgar pela intimidade que sustenta a relação entre a música e a literatura, a poesia surge como a grande responsável. Hoje, quando é comemorado o Dia Nacional da Poesia, a Tribuna aborda as fronteiras entre poesia e letras de música.
De mãos dadas com os livros, o bom e velho violão é o que conduziu, por exemplo, o poeta Kadu Mauad ao estúdio. O resultado? "Avatar", primeiro CD do compositor, todo de inéditas, a ser lançado na próxima terça, durante uma tarde de autógrafos na Livraria Liberdade. "A minha ligação com a literatura se deu por intermédio da música. Isto é um motivo muito forte para eu lançar o disco em um ambiente considerado o da literatura", justifica Mauad, sobre sua escolha em divulgar o conceito da obra antes de apresentá-la no palco. No dia 14 de abril, será a vez de a Quarup Antiquária Livraria receber o poeta/compositor e as 11 faixas, coassinadas por nomes como Walter Pissolato, Roger Resende, Érico Zanzoni, Edson Leão, Lucas Soares, Arnaldo Huff, Fred Fonseca e Giovanni Stroppa.
Em sua obra, Kadu Maud se inspira em grandes nomes da literatura. "’Algaravia’ tem Freud, ‘Zarolho’ é meio Fernando Pessoa e Mario Quintana, ‘A coluna’ tem a biblioteca inteira! (risos)", destaca. "Ávila" é inspirada em Santa Tereza de Ávila, e o mote principal de "Xote" é Camões e Pessoa.
"Hoje, são estudados grandes compositores enquanto letristas, como Chico Buarque, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro. As palavras são a musicalidade linguística", opina Cláudio Luiz da Silva, proprietário da Quarup. Já com relação ao mercado, o livreiro Edwald Winand, proprietário da Liberdade, defende que a música estaria à frente da literatura, pela tecnologia empregada no ramo. "Desde os anos 80, quando descobriram que o negócio era transformar música em produto, a poesia ficou para trás, principalmente entre os mais jovens. A poesia foi sendo abandonada", observa.
O poeta, historiador e compositor Tiago Rattes acredita que, atualmente, há um número menor de artistas que trafegam entre a literatura e a música, entre eles, ele destaca a cantora Adriana Calcanhoto e suas referências de Waly Salomão e Ferreira Gullar. "A música como porta de entrada para a poesia seria o natural também", ele diz. "Conhecer Jards Macalé pela poesia de Waly Salomão", exemplifica. Quanto à maior popularidade do gênero musical, o compositor Arnaldo Huff argumenta contra o distanciamento entre a universidade e a vida cotidiana. "É a concepção de arte ‘mais’ ou ‘menos’ erudita", apregoa. Huff é o parceiro de Kadu Mauad em "Ávila", canção flamenca cujo traço melódico e literário remete à "sensualidade ibérica". "Mandei a melodia, ele me retornou com uma estrofe, escrevi mais uma estrofe, mandei de volta, e ele mandou outra", detalha Huff, reforçando a ideia de que a música alcança a palavra, sobretudo, pela veia da parceria.
Poeta ou letrista?
Enquanto a crítica ainda pergunta se Chico Buarque é poeta ou letrista, o contista e tradutor de poesias Paulo Henriques Britto, em entrevista ao livro "Azougue 10 anos", de Sergio Cohn, afirmou que "as letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgam por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do dia a dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia". Mas e Noel Rosa, foi ou não foi o poeta da Vila? E o que dizer do Cartola?
Segundo o poeta maranhense Antonio Miranda, membro da Academia de Letras do Distrito Federal, a distinção entre poeta e compositor tem muito a ver com o tipo de composição. "Alguns músicos pautam melodias em quadras fixas, como o bolero ou o samba, levando-os à intervenção nas letras para ajustá-las, seja podando-as ou ampliando os versos. Também alguns poetas se enquadram em compassos e ritmos assinalados. Mas alguns compositores, como Arrigo Barnabé e Tom Zé, criam livremente", assinala, por e-mail, Miranda.
Outro compositor, Arnaldo Huff, aponta os locais Kadu Mauad e Dudu Costa como exímios letristas, que, no momento da criação, pensam na musicalidade de sua obra. "Nesse caso, a proposta vem muito redondinha", diz. "De uns tempos para cá, porém, houve uma liberdade muito grande nesse sentido, em que as regras mais rígidas da poética foram quebradas, muito em função do surgimento de ícones considerados poetas da música brasileira, como Cazuza e Renato Russo." Nesse caso, o título de poeta, na opinião do compositor Tiago Rattes, vem de pessoas que acreditam serem poetas, "pessoas que dizem palavras bonitas".
"Se for para exemplificar, sugiro compositores que tenham uma ideia de poesia muito mais forte em sua obra, como é o caso de Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc e Chico Buarque, cujo trabalho e um dos mais detalhados e preciosista", sublinha Rattes.
Ao pensar em "Ligia", Tom Jobim primeiro escreveu a melodia para depois fazer a letra, uma das mais cobradas em vestibulares. "Prefiro dizer que tudo é, basicamente, um jogo de sons, e também de sentido (vide José Miguel Wisnik). Primeiro trabalho a melodia para depois fazer a letra", afirma Kadu Mauad. Diante disso, fica difícil dizer quem nasce primeiro. A letra ou a poesia?
"Em tese, podemos dizer que o verso nasce da musicalidade, mas depois ganha vida e se torna independente", opina Tiago Rattes, destacando, contudo, a importância da música para a divulgação da poesia. Em "As rosas de Hiroshima" e "Ronda do capitão", o grupo Secos e Molhados tornou famosos versos de Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira, respectivamente, o que, conforme Rattes, só deixa ainda mais livre a interpretação de versos, rimas e métricas por parte da música. E vice-versa.
