
Octacílio completa 80 anos em março, com festa no Renascença e três dias de orações (Marcelo Ribeiro)
Em 1985, a Legião de Garibaldi conferiu “o grau de Grã-Cruz da Legião de Honra Giuseppe Garibaldi – ‘O herói dos dois mundos’ em nome de Octacílio Pereira do Valle, como reconhecimento aos seus dotes de dignidade, magnanimidade e fraternidade humana”. No quadro debaixo, um diploma de honra ao mérito concedido pela Associação dos Vereadores e Câmaras da Zona da Mata. Em outra parede, o título de cidadão rubro-negro, oferecido pelo Clube de Regatas do Flamengo. Num canto próximo, o certificado de comparecimento ao XXIV Congresso de Hotéis e Restaurantes, realizado em Recife, em 1982. No corredor e num quarto do apartamento de primeiro andar na Avenida Rio Branco, Octacílio preserva mais de 250 títulos, entre troféus, medalhas, certificados e outras provas de reconhecimento.
Fundador e dirigente de diferentes entidades, como o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora e o Rotary Clube local, Octacílio – um senhor elegante, de voz firme e discurso resignado – completa oito décadas de vida no próximo dia 10. Para comemorar, uma festa no hotel que comprou em 1962, o Renascença, e três dias de oração na igreja na qual é pastor, a Batista Jardim das Oliveiras, no Manoel Honório. “Não sou de desistir”, orgulha-se ele, casado há 52 anos com Elzy, pai de quatro e avô de seis.
Mais de 50 cursos
Filho de um fazendeiro de Valença (RJ), Octacílio conheceu o suor do trabalho ainda muito criança. “Na roça, naquela época, a vida não era tão confortável. Fomos criados no trabalho. Seis horas da manhã tínhamos que levantar e buscar a vaca para tirar leite. Era trabalho da manhã a noite, serviço pesado, capinando e roçando junto com os empregados”, recorda-se ele, que na adolescência serviu o Exército e, ao sair, foi trabalhar numa lavanderia. Em 1957, voltou a vestir a farda, partindo para a Guerra de Suez, conflito entre Egito e Israel, onde permaneceu por pouco mais de um ano. Ao voltar, escolheu Juiz de Fora para fincar raízes e entrou como sócio numa sacaria. “Comprava sacos durante o dia, de bicicleta. Ia para todo lado, do Retiro a Benfica, comprando sacos de arroz, de açúcar. Reformava eles, lavava e vendia. Com isso fui subindo, crescendo”, conta. “Sou um semianalfabeto, com pouco estudo, mas com mais de 50 cursos.”
Mais de 30 países
“Hotel era e é um bom negócio”, defende Octacílio, que em 1962 comprou o Hotel Renascença e, tempos depois, muitos outros da região da Praça da Estação, no Centro, tornando-se reconhecido empresário e onipresente liderança. “O Renascença era o principal, tradicional, bonito e bom. Foi hotel de luxo que hospedou, na minha época, três presidentes da República”, lembra. Chegou a conhecê-los? “Não só conheci como reivindiquei algumas coisas para o bem do povo daqui”, responde. Hoje, dois de seus filhos administram cinco hotéis da região que Octacílio viu mudar ao longo dos anos. “A praça, quando cheguei, tinha muitos casais suspeitos. Proibi a presença deles e comprei os principais hotéis de prostituição e, assim, ali ficou melhor. Hoje acho uma praça muito boa, ainda que tenha muito barulho, cachaça e grito”, comenta o homem que conheceu mais de 30 países em sua vida agitada. “Tinham dias que eu ia para três reuniões em três cidades diferentes num mesmo dia.”
Mais de 50 anos de fé
Nascido num berço evangélico, Octacílio estudou teologia e há 52 anos tornou-se pastor. Desde então lançou 12 livros, 14 discos e dez DVDs com mensagens edificantes. “Qual homem que nunca nasceu? E a avó que deixou de ser virgem com a morte do neto?”, pergunta ele. “Sabe não?”, indaga. “O homem foi Adão, que foi feito pelas mãos de Deus. E a avó, vai ter que comprar o livro para saber”, ri, fazendo propaganda de seu “Como obter vitória?”. Homem de muitos títulos, Octacílio justifica na fé os reconhecimentos de uma história de 80 anos, da qual é enfático ao caracterizar: “Minha vida é de vitórias”.

