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Entrevista Helena Ignez Atriz e Cineasta

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LEO LARA/UNIVERSO PRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO
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Antes do fim há uma vida inteira. O início é 23 de maio de 1942. A tal vida inteira, portanto, diz de uma mulher de longos cabelos loiros e corpo escultural, que levou multidões aos cinemas afim de ver as narrativas inusitadas de estéticas precárias das quais fazia parte. Diz também de uma vigorosa senhora de 74 anos em plena atividade, autora de um dos mais elogiados longas de 2016, “Ralé”, no qual jovens cineastas rodam um filme na mesma fazenda onde o fundador de uma seita ligada ao Santo Daime faz seu casamento com um dançarino.

A vida inteira, ainda, faz referência à questão central de “Antes do fim”, longa-metragem de Cristiano Burlan sobre um homem que escolhe por um suicídio consciente para driblar sua longevidade, enquanto uma mulher, com a qual ele gostaria de fazer par no momento do adeus, decide pela vida em toda a sua intensidade. Nos papéis principais da obra em processo, que ganha sua primeira exibição no segundo dia da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, no próximo sábado, dia 21, às 16h, estão o veterano crítico e professor de cinema Jean-Claude Bernardet e Helena Ignez, atriz musa do Cinema Novo, autora de “Ralé” e uma das vozes mais potentes do independente cinema brasileiro, homenageada, ao lado de Leandra Leal, na vigésima edição do festival na cidade histórica.

Casada por quatro anos com Glauber Rocha, responsável por sua estreia na telona em 1959, no curta “O pátio”, e viúva de Rogério Sganzerla, morto em 2004, após mais de 30 anos de união, Helena Ignez viveu e conviveu com todo o Cinema Novo, do qual tornou-se musa e com o qual faz sua resistência diante da vulgarização imposta pelo comercial cinema nacional. “Não é por acaso, não é por capricho, que uma mulher se chame, ao mesmo tempo, Helena e Ignez”, disse, profético, o dramaturgo Nelson Rodrigues, referindo-se às duas lendárias mulheres, Helena de Tróia e a portuguesa Inês de Castro.

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Forte, a mãe de Paloma Rocha (da relação com Glauber) e Sinai e Djin Sganzerla (com Rogério) prepara para este ano o lançamento de um roteiro escrito por Sganzerla há exatas três décadas, “A moça do calendário”, baseado em contos de Luis Antonio Martins Mendes. Na história, um mecânico apaixona-se pela modela do calendário e passa a sonhar com a mulher. Sem qualquer compromisso com a linearidade e com a realidade, o trabalho, uma vez mais, resulta em fôlego da produção marginal, influenciadora direta de uma geração à qual Helena irá encontrar em Tiradentes, onde o independente assume-se como o Novo da década de 1960.

“Se você chamar marginalidade de independência, ela existe sim”, comenta a veterana atriz, que aprendeu nos palcos a arte da interpretação. “O lugar do teatro é central”, afirma ela em entrevista por e-mail à Tribuna. Em “Uma vigília”, obra de Nuno Ramos, na qual diferentes pessoas leram durante 24 horas, do dia 11 para o dia 12 de novembro de 2016, os 111 nomes dos mortos no massacre do Carandiru, Helena Ignez mostra-se, novamente, generosa com as minorias. Na leitura que faz, a atriz opta pelo tom de oração misturado à indignação, entre sussurros e gritos. Tudo para dizer da humanidade silenciada no presídio em 2 de outubro de 1992, por 74 policiais, cuja Justiça anulou a condenação, ato que deu origem à arte feita como protesto. “Esta criação do Nuno foi também para mim um acréscimo à sensibilidade”, refletiu a artista em seu Facebook, elencando o ato como um dos momentos mais felizes de 2016. Antes do fim, demonstra a artista, tudo é flor da pele.

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Tribuna – O que o cinema marginal representa na sua história?

Helena Ignez – Pra mim, o cinema marginal é apenas um título. Faço um cinema de bons filmes, premiado, elogiado pela crítica e de alcance internacional. Esse cinema é um cinema de invenção, seja ele cinema novo ou marginal.

Quando observa sua trajetória em retrospecto arrepende-se de alguma escolha?

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Não, sem arrependimentos.

Quando jovem, lá no início, ao conhecer Glauber, tinha um projeto artístico em mente?

Quando jovem eu conheci Glauber e comecei a fazer teatro e cinema, claro, de qualidade. Era esse o projeto.

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Com Sganzerla você formou uma família, que também se encontra na arte. Era possível não levar a arte para dento de casa?

O meu interesse sempre foi levar arte para dentro de casa, claro, já que arte foi o que escolhi para fazer na vida.

O que há da Bahia em você hoje?

A baiana.

Entre a Helena Ignez atriz e a diretora há muitas diferenças?

Nenhuma. A exigência por um bom trabalho é a mesma.

Sua história, seu início, conversa com o teatro, que ainda se mostra vivo na sua produção quando escolhe um elenco oriundo do teatro, como o Zé Celso, o Bortolotto e a própria Djin. Qual o lugar do teatro no seu fazer artístico?

O lugar do teatro é central, está no eixo do meu trabalho.

Ney Matogrosso é um parceiro constante. Qual sua ligação com ele?

De admiração e amizade.

A Mostra de Tiradentes tem por característica a investigação de uma cena jovem da cinematografia brasileira, que ainda se mostra à margem no país. Ainda acredita em marginalidade na arte brasileira?

Se você chamar marginalidade de independência, existe sim. Felizmente!

Homenagens como a que recebe agora mostram que todo o seu trabalho, do passado mais distante ao mais recente, mostra-se definitivamente atual. Concorda?

Concordo plenamente. Obrigada!

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