Em sua 17ª edição, a Mostra de Cinema de Tiradentes, entre 24 de janeiro e 1 de fevereiro, deve receber cerca de 35 mil espectadores, que poderão se dividir entre pré-estreias nacionais e internacionais, exposições, lançamentos de livro, teatro de rua, shows e debates sobre as produções apresentadas. Entre os 102 curtas selecionados pela curadoria, cinco produções juiz-foranas serão exibidas em diferentes mostras do evento, sendo elas "A ratoeira", de Diego Casanovas, "Boniek Bauer", de Ana Clara Nunes Roberto, "Conte-me um segredo", de Rodrigo Souza, "O próximo", de Yuri Westermann, e "Quem vem lá", de Carol Gavioli e Maria Barra Costa.
Tendo arrancado menção honrosa do júri especializado do Festival Primeiro Plano de 2013, "pelas qualidades técnicas e pelo domínio da linguagem audiovisual", além do segundo lugar na votação do júri popular, "A ratoeira" será exibido na mostra Cena Mineira, que busca apresentar a diversidade de olhares do estado. " A produção teve o baixíssimo orçamento de R$ 300 e foi inspirada em um conto do escritor baiano Paulo Soriano. "O filme que eu tinha em minha cabeça quando terminei o roteiro é 100% o que está sendo exibido. Mesmo com todos os problemas que acontecem durante a fase de produção, para mim, conseguimos um resultado técnico melhor do que eu esperava, o que é bem difícil de acontecer em produções independentes como a minha", diz o diretor Diego Casanovas, que comemora a participação na mostra. "Ver todo o trabalho e estudo que eu e a equipe tivemos ser reconhecido e apresentado a um público grande, na maior mostra de cinema do país, é excelente", avalia.
Também inserido na Cena Mineira, "Conte-me um segredo" é parte de um mix de linguagens artísticas do diretor Rodrigo Souza. O filme foi gravado durante uma intervenção no Calçadão da Halfeld, onde Rodrigo Souza permaneceu por uma semana, distribuindo papéis para os pedestres e pedindo que eles escrevessem segredos e os depositassem em uma urna. "Tudo foi pensado em conjunto: a intervenção no centro da cidade, a gravação dessa performance e a exibição de tudo depois na forma de uma instalação. E tudo isso motivado por uma inquietação em relação a uma criação que fazemos de nossa identidade, tudo acontece num jogo de revelar e esconder, de montar imagens que queremos passar para os outros", adianta o diretor, que diz dever à Mostra de Tiradentes parte da sua concepção de cinema. "Acho que ela tem uma relevância na formação do olhar. No ano passado fui ao evento, assisti a todos filmes da Mostra Aurora e fui aos debates para conversar com os realizadores. Saí de lá com um olhar completamente transformado em relação às possibilidades da imagem do cinema."
Já "Quem vem lá" integra a programação da Cena Regional, que afunilou, dentre as produções mineiras, as que estavam em cidades mais próximas de Tiradentes. O documentário foi gravado em um terreiro umbandista no Bairro Progresso, em Juiz de Fora, e, nele, o Pai de Santo, um médium e o Pai Pequeno narram suas experiências com a incorporação e como isso é visto dentro da religião. "No filme, retratamos a incorporação como ponto chave do rito umbandista e procuramos mostrar, por meio das entrevistas e das cenas, que são fortes, o significado deste fenômeno", diz uma das diretoras, Maria Barra Costa. Para Carolina Gavioli, que também dirige o curta, o reconhecimento fora da cidade é um passo importante para a produção. "Grandes filmes do cinema nacional já foram lançados em Tiradentes. Com as portas se abrindo agora e o reconhecimento do trabalho, já pensamos em novos roteiros", garante a realizadora.
Único curta juiz-forano da Mostra Formação, que reúne curtas universitários ou frutos de oficinas, "O próximo" abriu a edição de 2012 do Festival Primeiro Plano e foi produzido com recursos do Prêmio Incentivo Primeiro Plano, vencido pelo diretor Yuri Westermann em 2011. O curta mostra Carlos, um jovem inerte, recém-formado em sociologia, que se vê às voltas com o universo da burocracia. "Quis tratar de temas universais e abstratos e pensei na burocracia, que pode ocorrer em Juiz de Fora, Moscou, Pequim ou qualquer lugar. Em tom kafkiano, o documento que o personagem principal busca também nunca é revelado: trata-se de uma metáfora sobre qualquer documentação engendrada numa estrutura burocrática", explica Yuri, que também vê na Mostra de Tiradentes uma promissora vitrine para novos diretores. "A pluralidade dos formatos e a nova Lei de Audiovisual fazem com que haja enorme interesse nas outras formas de mídia – e não só o cinema – exploradas pelos filmes dos festivais. Além disso, o festival de Tiradentes é respeitado pela tradição de bons filmes, debates, oficinas, pré-estreias e tudo mais."
