Ao longo dos dois últimos anos, oito exposições ocuparam o Espaço Cultural dos Correios na Rua Marechal Deodoro. Juntas, seis delas receberam da empresa pública o montante de R$ 706.835,54 para executarem as mostras que levaram ao lugar 17.572 espectadores. Por pessoa, portanto, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) gastou R$ 40,22. Números superlativos para uma cidade que trabalhou, em 2016, com montante da mesma ordem para financiar projetos culturais de toda uma classe artística. Diferentemente do que ocorre na Lei Murilo Mendes, mecanismo municipal de incentivo, cujo teto dos projetos chega a R$ 28 mil, nos patrocínios praticados pela ECT é possível reconhecer rubricas como “locação de obras de arte”, avaliada em R$ 70 mil no projeto da mostra “Marc Chagall, fábulas de La Fontaine”. Valor próximo a esse teve toda a montagem da exposição “Qual é o pente que te penteia?” com retratos do coletivo de mulheres negras Candaces. Discrepâncias que chegaram ao fim na última semana de outubro, quando a estatal anunciou o cancelamento dos patrocínios culturais da instituição. A torneira secou.
Em crise, a empresa deixará de investir cerca de R$ 11 milhões em cultura, comprometendo a execução de 41 projetos, aprovados em 2015 e agendados para até o final de 2017. A situação faz parte do contingenciamento que os Correios projetam para driblar quatro anos consecutivos de déficit nos resultados. Esta semana a empresa teve seu plano de demissão voluntária (PDV) revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, além de um possível déficit de R$ 2 bilhões em 2016, valor próximo ao de 2015. A empresa, no entanto, assume o corte na cultura, mas nega as especulações acerca do encerramento do patrocínio dos Correios às confederações esportivas.
Em Juiz de Fora, um único projeto pode ter seu financiamento cancelado. Trata-se da exposição “Um encontro com Minas”, do pintor Marcos Vilela, programada para janeiro de 2017. “A informação que tive é que ainda não foi cancelada. Já saiu no Diário Oficial e aguardo um e-mail com as informações. Tive que pedir uma prorrogação no Ministério da Cultura para 2017. Ainda estamos dentro do prazo”, afirma, otimista, o artista que, pela primeira vez, faria uma mostra com financiamento público. Para a exibição de 33 de suas telas, Vilela receberia R$ 93.110 mil, sendo quase R$ 12 mil, apenas, para a compra de tintas.
De acordo com a Diretoria Regional de Minas Gerais dos Correios, o objetivo dos espaços culturais é “atrair visitantes, democratizar o conhecimento e as identidades históricas da cidade e de nosso estado”, com a meta de atender uma média de 2.500 visitantes por mês. A visitação, no entanto, desde 2014 tem se reduzido, partindo de 4.920 espectadores em janeiro de 2015, em “Os Geraes de Minas”, para 2.343 em “Imagem sonora”, encerrada em setembro passado. A estes números são acrescidos os 400 estudantes não contabilizados pelo contador da entrada do espaço por se tratar de contrapartida exigida pelo patrocinador.
(Arma de) choque cultural
Única unidade cultural da estatal no interior do Brasil, o Espaço Cultural dos Correios de Juiz de Fora apresenta outra realidade a uma cidade acostumada com cifras reduzidas para a montagem de exposições e públicos ínfimos pelas galerias. Ainda que a visitação do local pudesse ser bem maior – tanto por comportar um público mais amplo quanto pelo período em que as mostras ficam em cartaz (cerca de dois meses) -, o saldo é positivo, haja vista a excelência das produções. Ao lado do Museu de Arte Murilo Mendes, o lugar promove raras oportunidades de o juiz-forano tomar contato com grandes nomes da arte visual nacional e internacional.
E o grande risco não passa apenas pela seca da torneira, mas pela própria extinção da peça. Questionada se há algum risco de o espaço fechar, a Diretoria Regional de Minas Gerais afirma que “não há qualquer projeto nesse sentido”. Sobre o impacto que o cancelamento dos patrocínios causará à agenda do local, a empresa nega. “Não podemos falar de impacto no cancelamento, uma vez que temos uma grade preenchida até meados de 2018”, afirma a diretoria. A sobrevivência das casas pelo Brasil (há unidades no Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Paulo, Fortaleza, Brasília e Niterói, além de Juiz de Fora) se dará, exclusivamente, pela cessão do espaço.
Segundo o edital cujo resultado foi divulgado na última semana de agosto passado, com oito projetos de exposições para a unidade juiz-forana, a estatal arcará, apenas, com o financiamento de dois banners, mil convites e mil folders. Contudo, as montagens da ampla sala no edifício tombado da Marechal Deodoro exigem muito mais que isso. Demandam pinturas nas paredes e o ajuste das mesmas, que podem se mover, além de custosas plotagens de textos e etiquetas. O documento para uso das unidades, contudo, não prevê qualquer padrão de qualidade, sequer a presença de monitores ou número mínimo para visitações públicas.
Caso as exposições agendadas se portem como as oito mostras dos dois últimos anos – que não recorreram a outras fontes de recursos, utilizando apenas o valor destinado pelos Correios -, os resultados, certamente, ficarão muito aquém do que é visto hoje. Atualmente, por exemplo, está em cartaz a mostra “Selfie & serve”, que se utiliza do discurso contemporâneo das selfies, apropriando-se de registros enviados virtualmente, para discutir a fotografia em sua essência ou falta dela. Para tal, lança mão de R$ 100.144 mil da estatal, que pratica os financiamentos via isenção fiscal proporcionada pela polêmica Lei Rouanet.

