Com proposta inicialmente funcional, voltada para atender as necessidades práticas do mercado consumidor, setores como o da moda, o da gastronomia e o do design de produtos vêm conquistando espaço em museus e bienais. Investindo em pesquisa e buscando maior complexidade de linguagem, criadores dessas modalidades da cultura não se satisfazem apenas em vender. Desejam, sobretudo, provocar diferentes experiências nas pessoas, cultivando um campo de aproximação com a arte. "Se tem uma coisa que os pensadores da arte contemporânea proporcionaram de bom foi estender muito o campo da poesia. Hoje, é possível compor com qualquer signo, olfativo, gustativo ou sonoro", comenta a professora do curso do Instituto de Artes e Design da UFJF e da pós-graduação em Moda, Edna Rezende.
A mudança de perspectiva no ato de criação é apontada como um fator decisivo para credenciar novos segmentos a um olhar artístico. "A diferença está na postura do autor, que deixa de ser artesão para ser artista", sintetiza o professor do Instituto de Artes e Design e da pós-graduação em Moda da UFJF, Afonso Rodrigues.
O professor da Escola de Design de Moda da UFMG, Augustin de Tugny, destaca que o conceito de alta costura surge no século XIX como uma afirmação da criação artística. Considerado pai da chamada "haute couture", o inglês radicado na França Charles Frederick Worth foi retratado na época usando as vestimentas típicas de um pintor.
Tugny faz menção a estilistas contemporâneos que buscaram referências no vocabulário das artes, a exemplo de Martin Margiela, que movimenta o circuito da moda desde os anos 1990. Suas criações, fortemente conceituais, o credenciaram a expor algumas de suas peças em museus. Em uma dessas mostras, comprovou sua originalidade ao exibir sua coleção ao ar livre. Expostas às intempéries da natureza, as roupas se deterioraram diante dos olhos do público, em uma metáfora da passagem do tempo.
Edna Rezende cita o trabalho futurista de criadores como Hussein Chalayan, autor de roupas com dispositivos tecnológicos que permitem transformações em plena passarela, como o vestido que vira uma mesa.
Assim como a moda e, mais recentemente, a gastronomia, objetos de design frequentam museus famosos. Na entrada do Museu d’Orsay, em Paris, há uma seção dedicada ao mobiliário antigo, com ambientes inteiros transportados para o espaço. Em Londres, o Tate Modern dedica uma sala a cartazes de propaganda socialista criados na extinta União Soviética.
O professor da UFMG também destaca as referências de Yves Saint Laurent a formas geométricas das telas de Piet Mondrian, em uma célebre coleção da década de 1960. Contudo, Tugny destaca que, ao aplicar as formas do pintor em seus vestidos, o estilista não faz uma obra equivalente à do artista holandês. Pelo contrário, a criação de Saint Laurent o aproximaria de outro contexto, mais condizente ao da época em que as roupas foram criadas, o da pop art. "Ao pegar um ícone já popularizado e divulgá-lo em outros circuitos, ele estaria muito mais próximo de Andy Warhol", explica.
Afonso Rodrigues ressalta a existência de uma via de mão dupla. Atualmente, há exemplos de criadores que já passaram por fases de aproximação com a alta cultura e, hoje, voltam o olhar para a criatividade popular. É o caso do estilista Ronaldo Fraga, que busca processos artesanais em cidades do interior brasileiro para depois reinventá-los na passarela.
Uma de suas mais elogiadas coleções surgiu de uma visita a comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco. A experiência se desdobrou na exposição "Rio São Francisco, um rio brasileiro", que circulou por Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Para o professor do IAD, a mesma análise se aplica à gastronomia do chef Alex Atala, proprietário do restaurante DOM, classificado como o sexto melhor do mundo. "Ele não vai em direção a ingredientes diferentes, mas recorre principalmente à sabedoria das pessoas nessas regiões e introduz esse recorte em sua produção", avalia.
Experiência gastronômica
Edna Rezende teve a oportunidade saborear a arte do chef catalão Ferran Adrià, apontado como o autor de uma verdadeira revolução na gastronomia, ao modificar a estrutura de alimentos conhecidos em busca de reações inéditas. No jantar em Madri, foi oferecida uma carta com cerca de 30 pequenas porções, capazes de proporcionar as mais diferentes sensações nos convidados. "Esse gosto acaba criando uma experiência rara, que o estado natural não é capaz de provocar. Esse é, por excelência, o campo da arte", descreve.
Na análise da professora, a apresentação dos pratos, que se assemelham a esculturas, funciona como um primeiro impacto, de ordem visual, na intenção de deslocar a pessoa da atmosfera do dia a dia. "Esse desenho ajuda a abrir os campos da percepção, chamando atenção para coisas às quais não estamos habituados."
O coordenador do curso de Gastronomia do Centro de Ensino Superior (CES-JF), Tibério Alfredo Silva, acrescenta que, mesmo sem os procedimentos modernos, a busca por uma experiência ampla sempre rondou a gastronomia. De festas no Império Romano, com pratos ricamente decorados e regadas à música, aos projetos quase delirantes do cozinheiro François Vatel, que criava banquetes impecáveis para o rei da França, Luiz XIV, a apresentação dos quitutes sempre foi um espaço fértil para a criatividade culinária. O chamado food design (desenho de comida, em tradução livre) é tema de uma disciplina específica na formação profissional.
A relação entre arte e design também é ancestral. Apesar de criada sob um caráter de funcionalidade, os conceitos que fundamentam essa modalidade compartilham de muitos ensinamentos de pintores e escultores. "O nascedouro de uma teoria do design, na escola Bahuaus, ocorreu entre professores advindos de uma formação artística", explicita o diretor do IAD e designer Ricardo Cristofaro.
Embora tenha objetivo funcional, distinto da arte, o design pode buscar referências como forma de obter um diferencial. Cristofaro cita o exemplo dos designers paulistanos Fernando e Humberto Campana, que assinam peças criadas pelo reaproveitamento de materiais, como cadeiras feitas de madeira recolhida na rua ou sapatos produzidos com emaranhados de fios plásticos. "As solução de reaproveitamento que eles dão a esses produtos estão presentes em técnicas como a colagem. Os Campana revisitam um processo que a arte já havia testado."
