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Portas (não) abertas para o mundo

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Carolina Araújo tem 13 anos e é aluna do sétimo ano de uma escola particular da cidade. O smartphone e o tablet que ganhou da mãe só serviam para a diversão até que ela descobriu o Duolingo para estudar inglês e o Khan Academy para a matemática. “Os aplicativos me ajudam muito, mas não deixo de lado os livros”, comenta a garota, que está na faixa etária dos participantes de uma pesquisa realizada pela TIC Kids Online. O estudo mostrou que, pela primeira vez, em 2014, o acesso à internet por celular no Brasil foi maior do que por computadores e revelou, ainda, que, embora as redes sociais sejam o maior atrativo, 68% dos jovens, com idade entre 9 e 17 anos, já usam a web para trabalhos escolares.

Assim como a garota, dez entre dez crianças e adolescentes reclamam do modelo tradicional de ensino/aprendizagem. Por isso, de uns tempos para cá, o termo TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) é o que mais tem sido dito em rodas de professores. A onda agora são os livros digitais. “Na Dinamarca, não usamos mais o impresso na sala de aula”, conta o professor Christian Moeler Larsen, da Mariagerfjord Gymnasium/ Dinamarca, levantando a bandeira de que a ideia é que os alunos tenham, através das telas dos aparelhos, uma grande biblioteca virtual em mãos. “Eles podem procurar qualquer resposta para qualquer pergunta na hora”, dispara.

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Para confirmar os aspectos positivos da nova ferramenta, Christian tira o celular do bolso e mostra que seus alunos estão o tempo todo conectados com o professor, mesmo que ele esteja em outro ponto do globo. Eles têm o mundo inteiro nas mãos. “Eles podem, por exemplo, ter acesso ao discurso da Dilma de ontem e ao comando de greve que estava aqui embaixo”, diz o professor, no intervalo do IX Seminário de Institutos, Colégios e Escolas de Aplicação, realizado no Colégio João XXIII, entre 15 e 18 de setembro. Segundo ele, a tecnologia ajuda a lidar de uma forma particular com cada estudante, e, usando-a em sala de aula, o professor assume a função de mediador. “O computador é um só, é padronizado, mas temos 30 alunos diferentes numa mesma sala, e o nosso papel é desafiá-los em diferentes níveis, aumentando a dificuldade das perguntas. A máquina não dá conta de fazer isso.”

Puro fetiche

O professor vira as costas, e lá está o aluno viajando nas redes sociais. O resultado, frequentemente, é o mesmo: ele toma o celular do menino ou da menina, que não está prestando atenção no conteúdo, manda para a direção e fica ainda mais irado com o uso dos aparelhos móveis na sala de aula. O problema é que aquela experiência acaba contribuindo para dificultar a já penosa relação entre tecnologia e educação. Deixar o quadro negro de lado e se abrir para o mundo digital? Nunca. A resposta pode até demonstrar total falta de abertura a mudanças, mas juntam-se a isso as dificuldades de infraestrutura das instituições. Em Juiz de Fora, os novos aplicativos da era virtual ainda passam longe de colégios particulares e públicos.

“Depois da década de 1990, criou-se um pressuposto de que a boa escola é a que está extremamente bem equipada. ‘Vamos investir em maquinário e tecnologia para melhorar a educação de alguma forma’. Só que a tecnologia por si só não vai melhorar a educação contemporânea, essa é uma perspectiva fetichizada”, acredita Lauriana Gonçalves de Paiva, autora do livro “Do giz colorido ao data show – uma conexão desconectada” (UFJF, 133 páginas) e do recém-lançado “O fetiche tecnológico na educação” (UFJF, 201 páginas). Sobre o uso de aplicativos em sala de aula, Lauriana afirma que eles devem atender os objetivos pedagógicos do professor. Um risco que se corre é o de que o aluno, que tem uma ferramenta mais avançada em casa, se frustre com o que é ofertado na escola. “Não posso fazer do quadro negro o datashow de hoje, porque vai ser desmotivante para o aluno, porque é uma mera transposição da minha aula. Estou tentando modernizar meu método, mas na verdade não existe nada de moderno.”

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Por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria de Estado da Educação afirmou que ainda não existe um projeto para o uso dos livros digitais nas escolas da rede estadual, mas que trabalha para que a tecnologia chegue a todos os estudantes. A nota ainda diz que as escolas estaduais receberam cerca de 23 mil novos computadores nos meses de novembro e dezembro de 2014, o que representa uma média de 12 máquinas para cada instituição mineira. Também de acordo com a assessoria, houve investimento nos Núcleos de Tecnologias Educacionais (NTEs) das 47 Superintendências Regionais de Ensino, e 2.129 computadores estão sendo distribuídos para 117 escolas em 88 municípios onde há polos da Universidade Aberta Integrada (Uaitec).

Nas escolas públicas municipais de Juiz de Fora, não há projetos de implantação de livros didáticos digitais. “No entanto, há momentos em que os alunos são instigados a lidar com a tecnologia, como acontece nos laboratórios de informática, dando suporte ao que é ensinado em sala de aula. Nos laboratórios, os estudantes podem fazer pesquisas, trabalhos, ler jornais e textos informativos de maneira geral, sempre orientados e acompanhados pelos professores”, informou a assessoria de comunicação da Prefeitura de Juiz de Fora.

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Já no âmbito das escolas particulares, o cenário não apresenta grandes diferenças. “Tem faculdade aqui de Juiz de Fora que usa o livro digital. É um recurso útil e que deve ser utilizado sem substituir outros instrumentos. Eu desconheço qualquer escola daqui que tenha feito a substituição, mas sei que muitas usam a ferramenta como complemento”, comenta Cristina Castro, coordenadora de comunicação social da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee).

Troca de experiências

Especialista no tema, a professora Juana M. Sancho Gil, da Universidade de Barcelona, na Espanha, defende que o educador precisa saber explorar o potencial dos novos recursos tecnológicos e falar a mesma língua da criança e dos adolescentes. Enfática, Juana acredita que não resta outro caminho a não ser aderir ao mundo virtual e a todas as potencialidades trazidas por ele. “Se não formos capazes de entender que há dois momentos, duas lógicas diferentes e ver que as tecnologias estão aí, que elas não vão desaparecer e que nossos meninos têm que entender o mundo em que vivemos, elas nos engolirão”, projeta ela, derrubando qualquer possível visão pessimista de que as instituições brasileiras não têm condições de entrar, de vez, na era digital.

“Essa questão é curiosa porque, na história da humanidade, pode haver saltos tecnológicos. Por exemplo, na África, muitas comunidades saltaram do nada, não tinham nem telefone sem fio, para os celulares e computadores. O ser humano tem muita capacidade de aprender”, assevera. Fazendo coro com Lauriana, a professora espanhola afirma que, para mudar o tradicional método de ensino e aprendizagem, antes de tudo, é preciso resolver a precarização do acesso a equipamentos e ter o olhar mais atento para a formação dos professores.

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“Mais que usar a ferramenta, é urgente que os responsáveis pelas políticas educacionais e os próprios professores comecem a entender do que estamos falando, porque eu acho mesmo que eles não entendem”, sentencia. “Agora, na Europa, estamos começando a falar da necessidade de incluir na formação do professorado toda a dimensão da sabedoria digital. Não basta saber utilizar o computador sem entender todas as lógicas que estão por trás dessas ferramentas”, afirma a pesquisadora.

Se a resistência de alguns mestres à nova realidade está relacionada às redes sociais, Christian Moeler conta que, na Dinamarca, elas, também, são o maior desafio hoje. “Desligar o computador é uma das formas que temos para lidar com esse problema. O celular nunca pode estar ligado, e o próprio professor tem que tentar manter a atenção dos alunos para que eles não precisem recorrer aos celulares. Os professores mais velhos de lá também estão tendo dificuldade para lidar com essas novas tecnologias, mas estão aprendendo com as crianças”, afirma. “É uma troca, uma construção de conhecimento coletiva”.

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