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O preço da memória

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Se nos idos de 1964, Marshall McLuhan afirmava que os meios de comunicação são extensões do homem, potencializando suas funcionalidades, o crescente avanço tecnológico das mídias nas últimas décadas parece, por outro lado, também ter limitado a ação humana.

Enquanto nossos avós sabiam poemas e músicas de cabeça, as mídias digitais e conectivas fizeram com que nós não precisemos mais fazer isso. Sabemos que o que precisamos está lá, em algum lugar, argumenta Anna Reading, pesquisadora do King’s College, de Londres, que estará em Juiz de Fora amanhã, às 14h, em palestra que integra o projeto Memórias possíveis, do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), em parceria com o grupo de pesquisa Comunicação, Cidade, Memória e Cultura, da UFJF.

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PhD pela Universidade de Westminster, no Reino Unido, Anna estuda a memória do ponto de vista social e cultural, e uma de suas propostas para a compreensão dos mecanismos que compõem as lembranças e recordações na contemporaneidade é o conceito de memória globital. É uma combinação da palavra ‘global’ com o termo ‘bit’, a unidade básica de informação na computação e na comunicação digital. Ela sugere uma ideia de globalização, mas ocorre de maneira desigual, já que o acesso às tecnologias de mídia digital e à conectividade não é uniforme, observa a professora.

Para ela, o desenvolvimento meteórico dos gadgets – dispositivos móveis de comunicação – também afetou a concepção do tempo e da vivência do presente na atualidade. Por meio deles, em particular os smartphones, podemos compartilhar o melhor e o pior do conhecimento humano ao mesmo passo que o experienciamos. Mas ao mesmo tempo, perdemos outras habilidades cognitivas e culturais: se confiamos na memória da Terra que o Google Earth oferece, o que acontecerá quando tivermos que seguir um caminho nos orientando pelas estrelas ou usando um mapa de papel?, questiona.

No evento gratuito em Juiz de Fora, Anna discute questões como materialidade e sustentabilidade no contexto da memória globital, questionando, por exemplo, que tipos de fontes e energias compõem a nuvem digital, que contém os elementos formadores desta memória. A metáfora da nuvem faz com que nos esqueçamos que a memória globital tem um preço para diversas comunidades do mundo, bem como um preço para o meio ambiente frágil e singular de nosso planeta, pondera. Em entrevista à Tribuna, ela expande alguns de seus conceitos e fala sobre seus projetos atuais.

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Tribuna – Como a mídia digital transformou os processos cognitivos que compõem a memória?

Anna Reading – De muitas e importantes maneiras. Enquanto a memória parece estar se expandido crescentemente, ela também é diminuída: não nos lembramos mais de detalhes como números de telefone, nomes e datas, procuramos no Google. A mídia digital continua com o desmembramento da memória humana, que começou quando a humanidade passou a fazer registros nas paredes rochosas, deixando uma marca que poderia ser ‘abandonada’ ali. Com a mídia digital, mais do que com a mídia baseada em legados, vivemos o presente enquanto o estamos registrando e pensando como ele poderá ser visto futuramente como memória. Em algumas culturas, a necessidade de fotografar, capturar, conectar, compartilhar, divulgar este presente já é central ao comportamento das pessoas.

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– Como a noção de tempo é afetada por esse compartilhamento do presente ao mesmo tempo em que ele é vivenciado?

– Os smartphones acabam com a ideia de testemunhar o presente, porque o instante em que algo acontece é praticamente o mesmo em que compartilhamos isso com o resto do mundo. Às vezes, isso é perturbador, como quando vemos imagens instantâneas de atrocidades ou violências. Por outro lado, isso abre possibilidades nunca antes pensadas, como a fotografia de um bebê tirada por sua avó assim que a criança adormece, que é compartilhada com a mãe para que ela saiba que está tudo bem com seu filho.

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– No livro Save as… digital memories, seu artigo examina os telefones móveis e a emergência de tecnologias ‘vestíveis’. Que tecnologias são estas e como é nossa relação com elas?

– São as que temos acesso por meio de tecnologias móveis e conectivas, já que os telefones, ao contrário dos desktops, laptops e tablets vivem em nossos corpos, bolsos e bolsas. Normalmente a última coisa que as pessoas tocam antes de dormir são seus celulares. Carregamos conosco, fisicamente, o conhecimento conectivo em livros digitalizados, arquivos de jornais, imagens de museus, músicas, tudo que podemos acessar pelo celular. Mas as memórias ‘vestíveis’ também têm seu preço: pensamos que elas são gratuitas, mas toda vez que acessamos a internet, postamos uma imagem no Facebook, também estamos permitindo que sejamos acessados.

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– No mesmo livro, há um artigo dedicado ao Museu da Pessoa. O que iniciativas como estas representam para a memória coletiva na atualidade?

– O Museu da Pessoa é um antídoto importante contra a hierarquização da historicidade, que prioriza somente grandes feitos em detrimento das tramas do cotidiano. Um projeto como esse é fundamental para as bases da democracia, arquivando as histórias de vida de cidadãos comuns em um banco de dados público, algo fenomenal em termos do que se pode fornecer para gerações futuras como dados e informações. Outro aspecto interessante dele foi a forma como as vozes das pessoas que deixaram seus registros foram gravadas, com a instalação de cabines de gravação abertas para qualquer pessoa, em espaços públicos. O projeto acabou estimulando outras iniciativas com ímpeto parecido pelo mundo todo. Essas iniciativas feitas pelas e para as pessoas transformam certos espaços e aproximam o capital cultural- amplamente centrado na alta cultura- da cultura e memória populares. Vou visitar o museu pela primeira vez e mal posso esperar para aprender mais sobre este trabalho pessoalmente.

– Que tópicos você pretende abordar em sua vinda a Juiz de Fora?

– Minha palestra em Juiz de Fora é parte de um trabalho em desenvolvimento, de compreensão da memória globital. Nesse trabalho, meu foco é trazer a nuvem digital de volta à Terra, questionando que energias e materiais compõem a memória eletrônica e digital. A memória globital nos é vendida como abundante, barata e sustentável; nossas memórias e conhecimento vêm a nós aparentemente por mágica. Mas em nome dela, somos forçados a garimpar metais raros, destruir nosso meio ambiente e prejudicar comunidades com poluição radioativa. Esses minerais compõem chips de computador, conectores e telas. Na outra ponta da cadeia produtiva, nossos produtos eletrônicos descartados são enviados a milhares de quilômetros e vendidos como lixo eletrônico para as pessoas que trabalham na lixeiras para extrair pequenas quantidades de mercadorias valiosas para os baixos salários, em condições muitas vezes desumanas. Como acadêmica e escritora, eu participo desta cadeia, escrevendo livros, usando um computador, checando meus e-mails no meu iPad e acessando vastas quantidades de conhecimento pelo celular, além de poder enviar toda esta informação para a nuvem digital. A magia da memória globital significa que, mais e mais, passamos nossas vidas de trabalho encarando telas, esquecendo do que está em nossas casas e nossos corações.

ANNA READING

Palestra amanhã, às 14h

Mamm

(Rua Benjamin Constant 790)

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