
“Alegoria sobre a falência das ideias”, de Afonso Rodrigues
“Qu’est-ce qu’un corps”, de Guilherme Landim
Série “Promete que também não vai embora”, de Matheus de Simone
Ao fundo da cena, cercado por outras crianças, Matheus de Simone, com cerca de 2 anos de idade, está nu, molhado por uma mangueira. Num auditório, com os amigos sentados a seu lado, Matheus de Simone aparece sério, vestido com uma fantasia própria das apresentações escolares. Maior, mas ainda criança, Matheus de Simone é o último do canto direito, na primeira fileira da turma da primeira comunhão. Os registros dão conta de lembrar-lhe as vestes, os rostos, os lugares, mas não os sentimentos. São passado. Integram a memória em suas inconstâncias e injustiças, em seus esquecimentos e reescritas. As fotografias restam no álbum de família, mas resistem distintas nas lembranças do Matheus que não é o mesmo em nenhuma delas. No recorte de três das 20 imagens que integram a série “Promete que também não vai embora”, o jovem artista visual de 21 anos diz da fotografia que é ficção até mesmo quando se propõe a ser literal verdade. Ponto alto da coletiva “Eterno efêmero”, com curadoria do professor e artista visual Afonso Rodrigues, o trabalho de Matheus de Simone recorre aos registros feitos por sua família, para duplicá-lo e retirar, de todas as cenas, os personagens que a compõem. Com uma caneta preta, “apaga” os outros e se deixa sozinho, solitário, nos mais diferentes espaços e tempos. Recria o próprio álbum. “É como se eu reiterasse a ausência delas. É algo meio sombrio, porque os corpos assumem outra função, de passar a solidão e não a afetividade como seria comum ou ideal”, aponta o artista, que cursa o bacharelado em artes e design na UFJF. Num saudosismo às avessas, a obra não reverencia as recordações, mas confronta-as. “Há certo deboche com a ideia da memória”, admite. “A fotografia não foi realizada por mim, então pego os registros afetivos e, na intervenção sobre eles, crio uma nova memória, discutindo até mesmo a falta de controle sobre o tempo que a fotografia se pretende realizar. Existe ali a questão da auto-ficção, de um exílio afetivo”, afirma. “A morte, ali, se dá pelo tempo, um amigo que não morre, mas perde sua função como amigo. E é como se a minha versão também morresse. A memória se transforma.”
Exposição passageira
Do corpo à fotografia, a morte em “Eterno efêmero”, como uma síntese de todo o “JF Foto 16”, retrata o contemporâneo, da arte e do mundo. “Essa exposição é efêmera”, adverte o curador Afonso Rodrigues. Expostas como adesivos, fixadas na parede, as imagens não serão aproveitadas ao término da mostra. Descartáveis como a espécie humana, que pouco a pouco se apercebe da mesma transitoriedade no que acreditava ser a transcrição fiel do real. A fotografia, pelo contrário, é frágil. “O suporte da fotografia sempre deu a ela o estigma da fragilidade, ela é passiva de desaparecimento até mesmo por conta da exposição à luminosidade. A escultura e a pintura sempre tiveram destaque maior no mercado pela longevidade. Suportes de papel sempre estiveram em segundo plano, já que até a restauração é algo difícil”, aponta Afonso. “A fotografia inicialmente tinha como suporte folhas de metal. Os primeiros daguerreótipos se mantiveram intactos por serem mais resistentes. O papel, por sofrer um processo químico, fica muito suscetível às intempéries. Mesmo o processo químico continua acontecendo. Imagens da virada do século já amarelaram. Hoje a tecnologia de retenção da imagem chegou a um patamar de qualidade muito alto, mas a fotografia continua sendo muito frágil”, completa o curador, reforçando que a era digital não resolveu a problemática, mas a intensificou, já que os arquivos virtuais são mais ou tão frágeis quanto o papel. E a morte da arte não se limita aos suportes. Em seu próprio trabalho, intitulado “Alegoria sobre a falência das ideias”, Afonso reflete sobre a morte criativa. Sobre a reprodução de uma detalhe do famoso quadro “Alegoria do triunfo de Vênus”, de Agnolo Bronzino, o artista exibe uma lâmpada quebrada. “Por denominações diferenciadas se fala de releitura, citação, o que na verdade é o artista refém de um contexto que não é o trabalho dele. Isso não um demérito, mas se tornou, para o mundo da criação, uma questão importante. Na história da arte, as ideias se alimentam uma da outra”, pontua. “A pintura é uma alegoria do amor e do tempo. O que é efêmero e o que é perene. A lâmpada é o ícone da luz, da ideia.”
Um discurso para somar
Segundo Afonso, seu trabalho simboliza “uma ideia que não se forma em si e precisa de outro discurso para se sustentar”. Eis, então, outra discussão fundamental para a fotografia contemporânea. E algumas das imagens de “Eterno efêmero” confirmam, já que crescem à medida em que ganham referências e adendos. As três imagens da série de “Elegia à sombra”, de Paulo Couri, existem fortes e potentes sem complementos. São esteticamente corretas, precisas e instigantes. Mas quando acrescido o dado de que retratam o espaço de criação do artista plástico Arthur Bispo do Rosário, na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, ganham ainda mais sentido. Na cena, o lugar esquecido de um artista crescentemente lembrado. “A luz e sombra reforçam esse contraste. O Bispo hoje é muito conhecido, ele está renascendo. Há um interesse enorme na obra dele. Quando tomei essa noção e fui até o espaço onde ele construiu a obra dele, senti tristeza”, conta o fotógrafo, que retrata uma morte diferente do fim enfocado por Guilherme Landim em “Qu’est-ce qu’un corps” (“O que é um corpo”). Simples, mas forte em sua crueza: a imagem do esqueleto de uma ave morta sob um chão de areia. “Era um lugar de tanta vida, ao mesmo tempo tinha esse contraponto no chão. Aquele corpo corroído por outros organismos”, diz, referindo-se à cena captada na praia de Ilha Grande, em São Paulo. “Vi aquele corpo que me impactou muito. O que é um corpo? Seria uma dúvida sobre o que é vida, também. A concepção de morte na nossa sociedade é um tabu, ainda temos uma visão a descobrir”, afirma Guilherme, referindo-se à morte dos corpos e também às outras tantas mortes que a vida parece esconder, inclusive a morte da cena que, ao ser fotografada, já não existe mais. JF FOTO 16 Coletivas e individuais com visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 18h. Até 11 de setembro Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)

