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‘Não existe uma literatura infantil’

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O sotaque forte de Biagio D’Angelo não dá margens para dúvida: eis um estrangeiro. Mas o brilho nos olhos e a facilidade em se articular, alinhada ao grande conhecimento da língua portuguesa confirmam: eis um filho apaixonado. Nascido na Sicília, ilha italiana, e formado na Universidade de Veneza, D’Angelo tornou-se professor e escritor, além de exímio viajante, com passagens por Moscou, Bruxelas, Lima e São Paulo, onde permaneceu de 2008 a 2010. Nesse período, escreveu "Benjamin – Poema com desenhos e músicas", vencedor do Prêmio Jabuti no ano passado. Como um monólogo interno, o livro conta as recordações de um garotinho que não se chama Benjamin, mas é conhecido como tal, já que segundo ele seu nome é mais difícil. Asmático, o menino espera a cura quando souber desenhar, mas, nas lembranças de uma voz possível para um adulto, um velho ou até mesmo uma criança mais crescidinha, a história na verdade versa sobre os pequenos desafios da meninice. Professor de literatura comparada e teoria literária, atualmente D’Angelo mora em Porto Alegre, lecionando na PUC do Rio Grande do Sul. De passagem por Juiz de Fora, na última sexta, quando lançou a premiada obra de estreia, ele conversou com a Tribuna e confirmou sua brasileirice nata: "Tenho um carinho pela língua portuguesa, pela literatura, pela cultura em geral, pelas novelas. Todo mundo acha que eu nasci aqui".

 

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Tribuna – Como nasceu "Benjamin"?

Biagio D’Angelo – O livro nasceu quando eu morava em São Paulo. Lá eu entendia, no momento, que o Brasil era a minha casa e eu queria fazer uma homenagem a minha memória da infância. Tinha uma coisa e queria passar para o papel sem nunca ter pensado que poderia ser literatura infantil ou infantojuvenil. Até porque não acredito que exista uma literatura infantil. Claro que existe um tipo de texto que pode ser lido pelas crianças, mas ou a literatura é boa ou é ruim. Escrevi esse livro muito rapidamente, e isso foi divertido. Me fechei num quarto e redigi em um dia. Passei o texto para uma colega, teórica muito fina de literatura infantojuvenil, dar uma olhada, e depois de quatro dias ela me ligou para tomarmos um café. Ela começou a ler e chorar, dizendo que era muito tocante. Eu não dava conta disso. Pensava que era como se abrir, se revelar. Tem muito de biográfico, lembranças próprias da minha infância, de certos meninos com quem eu frequentava a escola.

 

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– Como foi a recepção do prêmio?

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– Quando ganhei eu nem sabia da inscrição. Soube do prêmio pelo Facebook e achei que fosse um trote. Acreditava que como estrangeiro não poderia participar de premiações. Quando a Câmara Brasileiro do Livro me ligou não consegui entender e liguei para um amigo. Ele me disse: "Isso quer dizer que você é mais brasileiro do que eu". Foi a coisa mais comovente para mim. Sinto pelo Brasil um carinho como se tivesse nascido aqui.

 

 

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– Existe um olhar diferenciado para nossa literatura enquanto estrangeiro?

– Cada estrangeiro tem um olhar diferente porque vivenciou outro mundo. Às vezes, ele tem uma percepção de certos textos, de certa produção estética e cultural de uma cultura não-própria mais apurada, mais fina. Esse distanciamento que vem de uma circunstância biográfica ajuda muito na leitura. Eu, por exemplo, tenho um olhar muito especial sobre a novela brasileira. Na literatura, não sou um crítico que descobriu talentos, mas posso dizer que li Clarice Lispector e Guimarães Rosa e divulguei na Itália, em meu pequeno mundo de amigos, dizendo que tinham que ler. Isso é um componente do estrangeiro, porque ele se torna um tradutor de culturas. Sempre digo para meus amigos que o carnaval não é uma questão de bunda, é uma festa de povo e é preciso ir ao Sambódromo para ver. Ou, por exemplo, sugiro que escutem um samba para que vejam a capacidade estética que o Paulinho da Viola tem de enxergar a Mangueira. A Mangueira é um lugar metafísico. Acredito que isso um estrangeiro tem facilidade e privilégio para olhar.

 

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– Então você considera que haja mais legitimidade através da comparação?

– É um processo bonito e natural. Como italiano não consigo enxergar coisas na Itália. E não digo só pelo viés da cultura, mas da política também. Tenho que me afastar para me orientar melhor. É a mesma coisa de quando você vai a um museu: no caso dos impressionistas, por exemplo, é preciso se afastar para ter uma ideia. Quando escrevi "Benjamin", tinha referentes que não eram italianos, eram brasileiros, como Ana Maria Machado, o próprio Guimarães Rosa e sobretudo o Monteiro Lobato. O "Sítio do Picapau Amarelo" – a construção da personagem Emília, que é uma heroína brasileira – é curiosíssimo. Isso me influenciou, não sei se na escrita, mas em pensar que não existe uma literatura infantil.

 

 

– Quando você diz existir essa literatura boa ou má, você cita clássicos. Dentro dessa boa literatura brasileira existem autores pouco conhecidos?

– Acho que hoje, com o trabalho das instituições oficiais, das universidades, há uma conscientização de que o Brasil tem uma boa literatura, uma boa produção intensa. Há autores que não são menores, são menos estudados, como o Cornélio Pena e o Pedro Nava, que ainda não chegaram a um ponto de divulgação mais amplo, mas nem sempre a divulgação joga a favor do autor. Às vezes ela se restringe ao "gosto" ou "não gosto". Penso na função que o Facebook tem de difundir material literário, e ela não é sempre boa. Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector são os autores mais citados no Facebook, como pílulas, e são insuportáveis. Isso desvirtua o autor de um certo contexto. Aquela frase retirada da Clarice pode ter outro valor, outro significado na obra.

 

 

Você, novamente, citou autores de outra geração. Qual é seu recorte da literatura contemporânea?

– Em primeiro lugar: o que é contemporâneo? Contemporâneo é um texto que fala a mim, leitor, hoje, no presente. É um texto que tem a me dizer alguma coisa sobre culturas, políticas de vida, existência, sexualidade e mais um monte de questões. Nesse sentido, Guimarães Rosa é contemporâneo, mas do ponto de vista histórico não é contemporâneo. Contemporâneo hoje é Bernardo Carvalho, Milton Hatoum e Marçal Aquino. São grandes escritores. Cada um deles tem uma linha peculiar que faz a diferença dentro da literatura. Admiro muito essa nova leva, que não é tão nova, mas já consolidada. Esses brasileiros têm muita leitura.

 

– Você defende que muito do que é feito hoje já foi desenvolvido num passado nem tão distante…

– Não acredito muito numa etiqueta de pós-modernidade para a literatura. Ela, no fundo, é uma continuação de uma vertente da modernidade. Tivemos experiências que começamos apenas agora a digerir, a "antropofagizar". Essa questão da memória, da fragmentação não é coisa nova. Machado de Assis faz fragmentos com as "Memórias póstumas de Brás Cubas". Há um viés memorialístico que começa e se conclui com a arquitetura proustiana. O que acontece agora é uma reflexão sobre esses pontos que foram declarados como fundamentais da cultura durante um tempo propício.

 

– Então, existe algo novo nessa literatura brasileira?

– Não sei. Quando pensamos em algo novo, esperamos uma ruptura com o passado. No fundo, o novo é essa ideia de contemporaneidade que existe ainda, ou seja, quanto esse texto é presente a mim. O novo é se ele me fala ainda.

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