Juiz de Fora amanheceu nesta semana sentindo e ouvindo os primeiros acordes de instrumentos seculares. O 24º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga só começa neste domingo, mas, nos últimos dias, representantes nacionais e internacionais da música erudita se reuniram em um mesmo palco para a gravação do 14º CD da Orquestra Barroca, uma prática que já virou tradição na cidade. Pela primeira vez, a sonoridade de violinos, violas, sacabuxas, cellos, violones, corni de basseto, fagotes clássicos, trompetes naturais, tímpano e órgão se misturou às vozes de um coral, representado pelo premiado Conjunto Calíope, do Rio de Janeiro. Juntos, deram ao Teatro Pró-Música, durante ensaio, ares de fins do século XVIII, quando Mozart criou uma de suas últimas obras. Os músicos voltam a se reunir nesta segunda, às 20h30, para concerto no Cine-Theatro Central com a presença de quatro solistas, 20 vocais e 27 instrumentistas. Também serão interpretadas "Dies Sanctificatus" e "Gradual de S.Sebastião", do padre José Mauricio Nunes Garcia.
Com regência do violinista Luís Otávio Santos, também diretor artístico do evento, o grupo apresenta ao público o réquiem do compositor austríaco em uma versão para instrumentos de época, o que, segundo o maestro, pode ser considerado um registro inédito na história da discografia brasileira. "É uma peça crucial que marca uma época e um estilo não só por ser uma obra-prima, mas também por ser cercada de mitos, além de ser uma obra inacabada. Por isso, existe essa áurea em torno dela. O réquiem é muito executado em salas de concertos, mas com essa interpretação é a primeira vez", garante. "É uma peça coral suntuosa, que exige muitos músicos", explica.
Se em seu tempo, a crítica foi unânime em considerar as composições de Mozart complexas e de difícil compreensão até mesmo para iniciados, o mesmo não se pode dizer nos dias atuais, conforme aponta Luís Otávio. Suas criações estão cada vez mais pulando das salas de concerto para ambientes populares, o que comprova que o autor de mais de 600 obras toca e emociona o espectador. "As composições dele estão presentes em espaços frequentados por especialistas, mas também tomou conta de toques de celulares."
Precursora no resgate da música colonial brasileira, a Orquestra Barroca agrupa profissionais de diversas partes do país apenas nesta época do ano. O desafio é disseminar as sementes de um gênero ainda apreciado por poucos. Em seus 13 álbuns, já foram imortalizados trabalhos de G.F.Handel, G.P. Telemann, A.Vivaldi, entre outros, chegando a ser agraciada pela Revista Diapason com o prêmio "Disco de ouro" pela gravação de J.F. Rebel, J.S. Bach e Lobo Mesquita.
Nestes poucos dias de contato, as distâncias culturais chegam a ficar menores, na visão do espanhol Alvaro Iborra Jiménez, que se juntou ao projeto, empunhando seu corno di basseto. " Há uma proximidade entre as duas línguas, tornando a experiência mais fácil. A nossa forma de tocar é parecida, sem contar que conhecemos pessoas fantásticas. Creio que estamos fazendo um bom trabalho", defende o músico da região da Pamplona. "Não está sendo difícil encontrar uma harmonia entre todos. Vivemos como em uma mesma família", endossa Carlos Cerrada, outro integrante da terra das touradas.
Italiana de nascimento, mas radicada em São Paulo, a violoncelista Alessandra Gioavannoli se considera a mais brasileira entre todos os estrangeiros. Para ela, que não sabe se "de fora" é possível captar a energia que sai da combinação de todos os sons, o festival colabora para aumentar o número de adeptos da música antiga. "Acho muito emocionante esta experiência, ainda mais no Brasil, onde o gênero ainda não chegou completamente. O nível dos convidados é muito bom, cada nota tem uma vibração incrível."
O Calíope – agraciado em 2002 com o Prêmio Carlos Gomes e considerado um dos melhores grupos vocais em atividade no Brasil – chegou a Juiz de Fora para ensaio com a orquestra, apenas na última quarta-feira, a cinco dias da apresentação no Cine-Theatro Central, mas o entrosamento dos vocais ao réquiem de Mozart é de quem é profundo conhecedor do que está sendo feito. "A vantagem é que estamos reunindo cantores e instrumentistas de muita qualidade e experiência. Já cantamos esta obra algumas vezes com orquestras sinfônicas bem maiores e com coro maior. São todos músicos que conhecem o repertório com propriedade. Luís Otávio esteve conosco no Rio revendo a questão de interpretação e de fraseado para fazermos uma versão única", comenta o regente Julio Moretzsohn.
Embora a parceria com a Orquestra Barroca seja inédita e tenha se realizado no ano em que o grupo carioca completa 20 anos, as duas formações guardam relações de longa data. Segundo Moretzsohn, que já foi professor do festival em seus primórdios, o coral debutou em apresentações públicas em uma das edições do evento. "O grupo vem se desenvolvendo muito por estímulo do festival, que trabalha a música antiga com tanta seriedade. Estamos muito honrados por estar aqui", conclui.
ORQUESTRA BARROCA
Nesta segunda, às 20h30
Cine-Theatro Central
Entrada gratuita, retirar ingressos no dia do evento, a partir das 8h, no Teatro Pró-Música (Av. Rio Branco 2.329)
