"Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo." Engana-se quem pensa que esta é uma frase dita antes de uma apresentação teatral. Em vez disso, é um bordão que era utilizado por Fiori Gigliotti, consagrado locutor esportivo, antes de uma partida de futebol. No campo, assim como no palco, existem todos os ingredientes do rádio, como emoção, paixão e interatividade, que são ferramentas que este veículo sempre utilizou e que seduz o ouvinte, como aponta Márcio Guerra, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Compreender os motivos que fazem a narrativa radiofônica do futebol ter a preferência do público em detrimento da TV é a proposta principal defendida por Márcio em sua tese de doutorado. O trabalho deu origem ao livro "Rádio x TV: o jogo da narração. A imaginação entra em campo e seduz o leitor", cujo lançamento será nesta segunda, às 19h30, no Forum da Cultura. "Eu queria entender por que o torcedor de futebol, mesmo hoje, com toda a tecnologia que a TV oferece por meio de inúmeras câmeras, tira-teima e VT de algum lance mais perigoso, ainda tem um fascínio pela narrativa do rádio. E por que, mesmo indo ao estádio, ele ainda sente a necessidade de levar o aparelho como companhia." O autor, entretanto, faz questão de dizer que seu livro não coloca em jogo os julgamentos da transmissão dos dois veículos. Ele apenas defende que o rádio consegue encantar o torcedor pela narrativa, e aí está a deficiência da TV.
Fruto da observação de um garoto que admirava as locuções dos narradores esportivos e do resultado de mais de 20 anos de experiência na transmissão de futebol, a obra, composta por 198 páginas, não só apresenta um estudo sobre o assunto, mas também a vivência e a paixão de quem frequentou os estádios aos domingos. Márcio, primeiramente, fez uma revisão bibliográfica do tema, recorrendo a vários teóricos do rádio e da TV. Para encontrar pistas que o levassem a compreender melhor a relação entre a locução de futebol, o público e a mídia, ele foi a campo ouvir torcedores, comentaristas e narradores.
O livro também apresenta um mapeamento das escolas de narradores. Na visão do professor, cada locutor tem um estilo. Há os que são mais velozes e outros que preferem uma narrativa mais lenta. Cada um à sua maneira, utilizando bordões, procura causar uma identificação com o público, chegando mesmo a fazer do futebol um show. "Às vezes, eu transmitia um jogo do Flamengo, e, quando saía da rádio, os torcedores do Botafogo me cobravam, diziam que eu estava muito animadinho com a partida, porque eu abria a transmissão falando que, naquele dia, ia dar Mengão na cabeça. Imagina um botafoguense falar de Mengão na cabeça? Mas eu falava para um torcedor que precisava ouvir aquilo."
O professor destaca que a redundância do trabalho do narrador da TV, que repete o que está sendo mostrado pela imagem, é decisiva para que o torcedor ainda prefira a locução radiofônica. "Se a pessoa que estiver assistindo televisão fechar os olhos e continuar imaginando o jogo, é porque o narrador está se aproveitando da técnica do rádio. Se fecha e não entende nada, é porque é TV." A publicação, com prefácio assinado pela professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e orientadora do autor, Raquel Paiva, tem projeto gráfico da Voilà! Estudo Criativo e edição da Juiz-forana Gráfica Editora.
Das histórias curiosas que envolveram a confecção do livro, o autor se lembra de uma entrevista que quase o fez questionar sua própria ideia. "Quando conversei com o comentarista Sérgio Noronha, ele me perguntou se eu assistiria a uma decisão de Copa do Mundo pela TV ou pelo rádio. Disse que veria pela televisão, mas ouvindo o rádio, porque, dependendo do narrador, podia não sentir a mesma emoção. Isso só veio reforçar o que eu pensava", finaliza o autor.
Lançamento de livro nesta segunda, às 19h30
Forum da Cultura
(Rua Santo Antônio 1.112 )
