Rios magros obrigados a trabalhar descascam barrancos gosmentos/Raízes desdentadas mastigam lodo. Artesão da linguagem, Raul Bopp reescreveu seus poemas à exaustão. Cortando excessos, refinando imagens, buscando soluções mais precisas e imprevistas, Bopp é autor de uma das mais importantes obras do movimento modernista. Dando continuidade às comemorações dos 90 anos da Semana de Arte Moderna de 22, o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) apresenta, hoje, às 20h, a leitura teatral da obra Cobra Norato. Com coordenação do ator e diretor Marcos Marinho, a adaptação contará com atuação de Marinho, Julio Phenix e Aliciane Rodrigues, além da participação especial do músico Fabrício Conde.
Desde 2003, o Grupo Teatral Paulatino, do espaço Mezcla, realiza ciclos de leituras de peças teatrais e textos de cunho literário, como forma de divulgar o universo da cultura e da literatura brasileira e sul-americana. Esse tipo de poema chama a atenção para o Brasil profundo, desconhecido especialmente por nós, do Sudeste, avalia Marinho. O fim do poema faz um convite justamente ao povo do Sul e do Sudeste, para que conheçam esse universo muitas vezes inacessível a nós, ressalta.
Lançado em 1931, o livro apresenta um drama épico e mitológico nas selvas amazônicas, incorporando à moderna estrutura do verso livre elementos da fala da região, absorvidos no estudo detalhado de lendas e ritos da Amazônia. Concebido inicialmente como história para crianças, o poema é considerado hoje um clássico da literatura brasileira, por seus relatos vigorosos, pelo lirismo e uso criativo das raízes populares.
Murilo Mendes afirmou que, na linguagem, Bopp, forjador de um léxico saboroso, fundiu sabiamente vozes indígenas e africanas, alterando a sintaxe, sem cair nos exageros e preciosismos de Mário de Andrade. Referindo-se à própria obra, Bopp destacou-a como audácias extragramaticais e uma movimentação de material de camada popular.
O poema Cobra Norato trata da história de um eu poético que mergulha no mundo maravilhoso do sonho, encarna a cobra lendária da Amazônia e segue para as terras do Sem-Fim em busca da mulher desejada. Um dia/eu hei de ir morar nas terras do Sem-Fim:/ Vou andando caminhando caminhando/Me misturo no ventre do mato mordendo raízes/Depois /faço pussanga de nó de cabelo/Então mando chamar a Cobra Norato, dizem os primeiros versos de Bopp.
A aventura segue o padrão de unicidade, ao descrever a trajetória do herói mítico, com partida, iniciação e retorno. Na história, o poeta estrangula Cobra Norato, um dos personagens de lendas do folclore amazônico, e enfia-se no couro elástico do animal. Então, percorre os caminhos da floresta em direção a Belém do Pará, em busca da filha da Rainha Luzia, com quem deseja se casar.
COBRA NORATO
Leitura teatral, hoje, às 20h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790 – Centro)
