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Última loja especializada em itens de RPG e HQs, Conclave fecha as portas

Taberna Conclave fernando priamo 13destacada
RPG
Marcelo Oliveira, um guerreiro da cultura nerd em sua última trincheira física (Foto: Fernando Priamo)
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“Pode vir pegar em outra hora. Sem pressa. Vou estar aqui até sábado.” Marcelo Luiz de Oliveira está vendendo uma geladeira antiga, daquelas que a cor é amarelada pelo tempo. A Taberna Conclave, inclusive, ainda tem marcas da época em que a geladeira ainda era branquinha, nova. Certo dizer que os clientes de Marcelo são os mesmos há 19 anos. O dragão que te recebe bem na porta, em cima da sua cabeça, e é motivo de brincadeiras na Rua Padre Café, quase na esquina da Avenida Itamar Franco, se despede dos transeuntes incansáveis do Bairro São Mateus. A porta da que era a única loja de “role-playing game” (RPG) e histórias em quadrinhos de Juiz de Fora, fecha para entrar de vez em uma nova era: a digital.

Marcelo foi insistente, é verdade. A transição do físico para o digital não é de hoje, apenas foi intensificada pela pandemia, que acelerou o fechar de portas das livrarias, por exemplo. Há 19 anos, o professor e tradutor, que além da faculdade de letras cursou administração e engenharia, assumiu as rédeas daquilo que era um hobby desde a infância, ler e jogar RPG, para ter uma loja toda sua. Assim que entrou na faculdade, Marcelo começou a trabalhar como vendedor na Compendium Quadrinhos, no Shopping Santa Cruz, loja que já frequentava. Mas, antes disso, o nome Conclave já rondava sua cabeça, já que ele e seu irmão, Cristiano Chaves, organizaram um encontro nerd naquela loja com esse nome. Marcelo começou a trabalhar na Compendium em 1998 e ficou 4 anos como funcionário. Quando a antiga dona quis fechar a loja, ele decidiu comprar e ficar no mesmo ponto, trocando o nome. E começou, assim, a era, que, apesar de não terminar, abandona sua dimensão física. Não é mais um ponto de encontro. “Lá (a loja do Santa Cruz) era um ponto de encontro. A gente constituiu uma família basicamente, 90% dos meus amigos foram feitos lá ou aqui dentro.” O “aqui” da fala de Marcelo é a Conclave, que, em maio próximo, completaria 11 anos na Rua Padre Café, depois de rodar por alguns outros pontos da cidade. E rodou tanto porque precisava de uma única coisa: pessoas. E ali, elas passavam.

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Entrar na Conclave é como entrar no quarto de um adolescente dos anos 1980. Na parede ao fundo, bem atrás do balcão, um poster do He-Man, também amarelado. Em uma outra parede mais tímida, um escudo e uma espada de brincar. Entre tudo isso, uma série de quadrinhos e livros – coisas de “gente antiga”. Três mesas de ferro em fileira formam uma mesa maior, com seis cadeiras. Era nesse espaço que os clientes, incluindo Marcelo, jogavam os jogos de tabuleiro e o RPG. Ele pega um RPG chamado “Crepúsculo” para me mostrar como funciona. Tirou, primeiro, a poeira que cobria toda a caixa. É um grande livro. Para jogar, você tem que ler. “E ninguém mais lê, né?!” Naquela mesa, quando juntava todo mundo, até tímido ficava extrovertido. Marcelo tinha até uma história para comprovar, de um cara que não atendia nem o telefone, mas… “Só um minuto.” Ele saiu para atender um cliente que pedia um xerox, e acabou não contando o que aconteceu com o tal cara. Mas terminou: “O RPG nada mais é do que você colocar sua imaginação para funcionar”.

(Foto: Fernando Priamo)

Quando ainda lotava

Lembrando de quando a loja foi para aquele ponto, no auge dos jogos, Marcelo diz que as pessoas tinham que sentar no chão, porque não havia onde ficar. “Na inauguração, a sorte é que tinha ar-condicionado, senão a gente não aguentava.” Além das duas fileiras de mesas de ferro, havia outras duas que também eram para jogar. Aquela geladeira era onde ele guardava sanduíches para que as pessoas pudessem comer durante a jogatina. E são essas mesmas pessoas que até hoje frequentam o lugar e compram os produtos da loja. Tanto que Marcelo, apesar de estar triste por sair do espaço, sabe que os clientes serão os mesmos que comprarão de maneira on-line. “Quando eu mandei mensagem no grupo falando que a gente ia fechar, todo mundo entendeu. A gente é realmente uma família. Para você ter uma ideia, amanhã (sexta), um amigo meu combinou de vir aqui para a gente jogar a última partida na loja. Eles também vão me ajudar na mudança no sábado. Eu não acho que fui derrotado. Eu estou no lucro. Na minha época, tinha cinco lojas iguais a minha. E só a minha sobreviveu.”

Marcelo não tira férias há anos. A vida dele era acordar e levantar a porta da Conclave. Seus amigos sabem disso. “Um amigo meu me mandou uma mensagem que eu fiquei emocionado, falando que nossas histórias se cruzam com a história da loja. Meus amigos têm entre 35 e 40 anos. Quando eu abri, eles estavam com 20 anos, mais ou menos. Nessa época, o RPG era a coisa mais importante das nossas vidas”, brinca ele, que fundou também a editora Conclave. Ela começou a partir do desejo do irmão de Marcelo de realizar a publicação de alguns RPGs em português, assim como sua distribuição. O impedimento para a continuidade nesse segmento, de acordo com ele, foi a pirataria, que fez as vendas despencarem. Logo depois de uma pausa, eles viram a possibilidade de voltar com a editora, mas, dessa vez, com os jogos de tabuleiro, que tiveram um boom de consumo em 2014. Alguns livros de contos desse universo também foram publicados pela Conclave, incluindo um escrito por Marcelo. Agora, tudo isso pode ser on-line, dos RPGs aos jogos e livros. “A verdade nua e crua é única: minha loja está abarrotada de coisas que ninguém compra.”

(Foto: Fernando Priamo)

Nerd à moda antiga

E não só a Conclave, mas parece que todas as decisões tomadas por Marcelo giram em torno do RPG. “Muito de eu ter feito letras em inglês foi porque, quando eu era novo, não tinha RPG traduzido no Brasil. Um amigo meu viajou, trouxe, e a gente quebrou a cabeça aprendendo a jogar.” Ele assume que é nerd, sempre foi e resiste nisso. Na sua bolsa, leva dois livros. Em casa, coleciona RPG, uma série de PlayStation e muito jogo de tabuleiro. Ainda traduz alguns livros. Escreve poesia. À moda antiga, Marcelo vai continuar vivendo para o mundo que ama. Mas, agora, um pouco mais entregue à tecnologia: suas vendas serão virtuais, mas ele faz questão de entregar a encomenda pessoalmente. Gosta do encontro.

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