
Ele faz um pacto com o diabo. Dono de fortunas, o empresário Ricardo Jordão vê seu império desmoronar e decide sucumbir às questionáveis alianças. O diabo, por sua vez, deseja uma alma, e ambos escolhem, ao léu, um humilde pescador de uma aldeia distante. Ao ver o diabo retirar a vida de um desconhecido, o rico ouve o grito de uma mulher. A lamúria parte de uma viúva, que lhe mostra a dor de toda a sua família. Atormentado, o empresário segue até lá, em busca de redenção. Qualquer semelhança com os dias de hoje, mera coincidência. Apesar de atual, a trama de “Barco sem pescadores” foi escrita por um espanhol, Alejandro Casona, na década de 1940. Encenada agora pela companhia T.O.C., a peça, que retorna à cena em curta temporada neste fim de semana, chega a assustar pela correspondência com o momento atual do país.
Quando o grupo começou a ler o texto e estreou a montagem, há quase dois anos, logo sentiu a necessidade e a pertinência de transpor a narrativa para o solo brasileiro, terra de Eike Batista e muitos outros bilionários em franca decadência. De acordo com o diretor e ator Gustavo Burla, que interpreta o diabo no espetáculo, o texto original não é situado, mas a história se passa no norte e no sul de um continente, o que possibilitou que a trupe desse a esse “sul” olhares do Sudeste nacional e a esse “norte” uma leitura do Nordeste com suas pequenas embarcações de madeira. “As gerações conflituosas estão presentes em qualquer lugar”, pontua Burla.
“A peça trata das intenções do ser humano, o que está por trás de cada gesto, de cada ato. O que cada um de nós é capaz de fazer para conquistar suas metas, mesmo que essas intenções não venham à tona”, acrescenta o ator Marcos Araújo, que faz o papel do tio da viúva. “A peça fala de consciência e como cada um de nós lida com ela, como lidamos com os arrependimentos e como isso ajuda no nosso crescimento enquanto seres humanos. Quando olhamos para o diabo, vemos o nosso próprio reflexo. É ele quem vem apontar nossas fraquezas e brechas para a nossa corrupção diária, nos levando a uma reflexão”, completa ele.
Ainda que o autor do texto seja reconhecido como “O solitário”, dono de uma elogiada escrita poética, a peça não se estabelece apenas em tensão. Há momentos cômicos e até românticos. “O Casona tem, ao mesmo tempo, um texto denso e cômico. Ele fala de amor e ódio, morte e vida, som e silêncio. Há um colorido no texto, que nos permite diversas nuances de sentimentos, o que faz com que a peça se aproxime do público, que ora ri e ora se emociona”, destaca Araújo. Após desembarcar dessa pequena temporada, a companhia se prepara para estrear, em maio, “Canção de ninar”, primeira montagem autoral do grupo, com texto assinado por Táscia Souza.
BARCO SEM PESCADOR
Desta sexta até domingo, às 20h30
Centro Cultural Bernardo Mascarenhas
(Avenida Getúlio Vargas 200 – Centro)

