Ícone do site Tribuna de Minas

Juiz-forano Kalli participa de megaevento de rap no Rio

PUBLICIDADE

Baco Exu do Blues, um dos maiores nomes do rap nacional, tuitou na tarde desta quinta-feira: “O que vou fazer no REP festival vai entrar pros livros de história”. Ele se refere a um dos maiores festivais de rap do Brasil, que teve início neste sábado (12) e continua neste domingo (13). Assim como as outras duas edições, o evento estava previsto para acontecer em apenas um dia, no Riocentro, mas a procura por ingressos foi tanta que a produção optou por colocar mais um dia e procurar um local maior, o Parque dos Atletas, ex-palco do Rock in Rio. A produção, encabeçada por Fabrício Stoffel, espera receber mais de 40 mil pessoas. No line-up, mais de cem shows foram agendados para os dois dias, com os principais nomes da cena, como o próprio Baco, Djonga, Xamã, entre outros. No meio deles, está o nome de Kalli, rapper juiz-forano que estourou nas redes sociais.

Juiz de Fora, realmente, tem um movimento do hip hop como um todo e não é uma surpresa ver aparecer nomes nesses grandes eventos. Télcio Clemente, produtor de eventos da GTM produções, diz que os shows de rap são os mais fáceis de vender na cidade. Além de serem, na maioria das vezes, acessíveis (apesar de artistas cobrarem cachê que chega aos R$ 20 mil), existe uma grande busca por esse tipo de atração. Quando apresenta nomes de reconhecimento nacional, Télcio gosta de mesclar com os da cidade, para que haja reconhecimento do próprio público. Isso, de acordo com ele, é o que ajuda a estourar os artistas. Outro fator fundamental que ele elenca é a rede de contato que se cria nesses momentos. Tanto os shows quanto os lançamentos ainda têm pouca valorização da mídia, mas isso não impede, por exemplo, que, no top 5 do Spotify, três músicas sejam de rap. Além da comunicação boca a boca, há também as redes sociais como principais engajadoras do movimento hoje em dia. Isso, então, explicaria o aumento no número de grandes eventos com o REP Festival.

PUBLICIDADE
Kalli, rapper juiz-forano, é um dos nomes presentes no REP Festival (Foto: Divulgação)

“Não dá para ‘amaciar’ esse grito tão doloroso”

Solange Santos, publicitária e mestre em comunicação, desenvolveu uma pesquisa sobre o rap com foco no fenômeno de ascensão do Djonga, intitulada “O Novo Evangelho de Djonga: Secularização do corpo negro no mundo do rap”. Sobre o fato da falta de reconhecimento pela mídia brasileira de um movimento crescente, ela desenvolve: “Hoje o jovem fortalece muito mais a correria dos seus. Muitas vezes, esses rappers chegam nesses espaços por uma ligação conjunta de uma pessoa que conhece outra e por aí vai. Obviamente é necessário o reconhecimento, o fomento, a entrada, mas é inegável que estar fora dessa bolha de tradicionalismo faz com que a cultura se movimente para além do horário nobre. Porque não só o Djonga incomoda, mas todos aqueles que ele traz consigo. Por isso, hoje ele está em um palco de festival, mas não no Faustão, porque ainda não dá para ‘amaciar’ esse grito tão doloroso que ele evoca”.

O “grito doloroso” de Djonga está presente nas principais músicas, mesmo aquelas que não falam diretamente sobre o que é ser artista de rap, na maioria das vezes negro, e habitar o espaço da música. Para Solange, mesmo que incorporado pelo mercado musical, eles falam sobre a dor e estar ali não apaga toda a história que existe por trás dessa luta. “Hoje a gente tem rappers que estão nos principais eventos de música espalhados pelo Brasil, vozes brilhantes, mentes que, sinceramente, refletem pingos de alegria em cima de muita dor, mas que ainda são vistos como margem. Ou seja, mesmo estando entre os mais ouvidos, movimentando 40 mil pessoas em um festival, o rap continua sendo marginalizado.”

Quando o grito começou a sair

Mas para entender a explosão do rap é necessário voltar aos anos 80, quando Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay se encontraram e criaram o grupo “Racionais MC’s”, que viria a mudar não só o rap, mas a música brasileira como um todo. Solange explica que eles surgiram em um momento de “ressaca pós-ditadura militar, quando as pessoas tiveram de reaprender o que era a liberdade”. Nesses anos, o hip hop já tinha força nos Estados Unidos, e ela acredita que só ainda não tinha aqui porque as pessoas não queriam, realmente, o ver.

“A junção de Brown com seus companheiros de rima vai muito além do encontro na Estação São Bento de metrô em São Paulo, porque a fundação dos Racionais não marca somente uma vocalização da própria inadequação desses jovens, mas a potencialidade representativa deles de colocar para fora aquilo o que eram, nesse caso, pretos e pobres.” Foi a partir da ruptura que eles proporcionaram que outros pretos e pobres viram a oportunidade de colocar para fora exatamente esse grito sufocado. “Os Racionais, portanto, foram o primeiro chute na porta da indústria musical no pós-ditadura que rompe com o espaço “morro e asfalto”, através de verdades chocantes as quais a própria sociedade brasileira se recusava a ver”, conclui.

PUBLICIDADE

A ostentação também é grito

Pode-se dizer, sim, que houve uma mudança em temas dos raps e na própria presença deles. De acordo com Solange, inclusive, até isso foi causado pelos Racionais, que fizeram palco para os outros que passaram a aparecer. “O rap te joga de cima do muro. Não dá para ouvir aquilo e não se colocar mediante ao que é narrado. Quem consegue fazer isso não entende sobre nada do que está sendo falado.” Mesmo os rappers ostentando, eles estão falando de uma realidade que foi conquistada com dificuldade. Djonga, por exemplo, costuma se chamar de Deus. Isso, de acordo com Solange, demonstra uma aceitação de ser quem ele é e estar naquele lugar com glória. E isso, novamente, só foi possível pelo espaço que vem sendo aberto ao movimento. “Ostentar uma corrente de prata para ele (Djonga) é legal, mas sobreviver é a quebra com o sistema, porque, se ele é Deus, ele pode decidir quem vive. E ele tem optado desde o início pelos seus”, conclui Solange.

Se o rap, hoje, faz festival desse porte, não é porque a sociedade passou a aceitá-lo, mas, sim, porque eles foram construindo um movimento à margem. “O rap é o que nos ensina a trilhar, mesmo quando a gente não sabe mais o porquê disso”, diz Solange. “A música sempre foi sobre reconhecimento, porque é o espaço do eu que toca o outro em forma de canção. O rap toca pois ele é cru, ele é real, ele é o tiro disparado, a criminalidade que é impossível de se renegar, é o tênis que sempre foi visto de longe. O rap é mais que a representação da violência, o rap é vivência. Ocupar a cidade, o rádio, as playlists é a incorporação deste no cotidiano, na vida”, finaliza.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile