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Sua família mandou um beijo

autismo e morte percorrem trama sobre contradicoes familiares

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Autismo e morte percorrem trama sobre contradições familiares
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Autismo e morte percorrem trama sobre contradições familiares

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Tairone Vale, de costas, integra elenco da peça

Irmãs brigam após morte de outra irmã

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Aos 10 anos, o mundo ruiu. Ou apenas se descortinou em sua crua realidade. Repentinamente, o pai viu duas portas se fecharem: a da empresa onde trabalhava, a Companhia Industrial Santa Matilde, em Três Rios, e a da casa da mãe, que precisou ser partilhada após a morte da matriarca. Rodrigo Portella, pequeno, precisou se despedir da avó, da casa e, por consequência, de alguns familiares. “As questões financeiras e sociais criaram perdas irreparáveis para nós. Vi minha família se dissolver a partir da morte dela”, conta ele, que com os destroços íntimos edificou “Alice mandou um beijo”, espetáculo que estreia neste sábado, no Espaço Sesc de Copacabana, no Rio de Janeiro, e segue em cartaz até 13 de março, de quinta a sábado.

Ainda que sirva como inspiração, não é a família do diretor quem ocupa a cena. Mas a de Alice. A montagem começa com os parentes da personagem retornando de seu funeral. A ausência, então, pouco a pouco vai desconstruindo todo o núcleo. O pai se ressente da perda da filha querida. A irmã mais velha resolve investir no cunhado. E a irmã mais nova sofre com a solidão e os cuidados com o pai e o filho autista. Sob os holofotes, contradições de pais e filhos, despertadas pela morte.

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“Os conflitos familiares fazem vir à tona o que há de mais complexo no ser humano, trazem as contradições”, comenta Portella, que divide a direção com Leo Marvet. “Não tive, em momento algum, o desejo de colocar no palco a minha história. Acho que é mais interessante partir de questões que são particulares para avançar. E à medida em que não tenho o compromisso de traduzir minha história para o teatro, posso criar os personagens da maneira que quiser, potencializando alguns embates e investindo mais em algumas discussões”, completa.

Porque falar de família? Portella responde indagando: “Qual o papel da família na vida do homem contemporâneo, que tem tempo para pouca coisa e está cada vez mais buscando sua individualidade? Que força é essa que mantém essas pessoas unidas? Será que é amor? Apego? Tem relação com afetividade ou com o cumprimento de uma ordem social?”. No fim das contas, a peça acerta contas com o passado? “Sinto que através desse processo de escarafunchar lá atrás, consigo me entender melhor. E assim acabo me aceitando mais. Ver as coisas com mais nitidez me faz permitir ser quem sou”, responde, certo de que teatro é, acima de tudo, espelho.

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À luz do interior

Quando “Alice mandou um beijo” irromper a cena, trará consigo a força do interior. Tanto pelo diretor e dramaturgo, quanto por sua Cia. Cortejo, de Três Rios, além da presença de dois atores residentes em Juiz de Fora. José Eduardo Arcuri, cuja última aparição na cena local foi com o emocionante monólogo “Uma pátria que eu tenho”, de 2013, dá vida ao pai de Alice, a morta. “Sempre alimentei o desejo de trabalhar com ele. Em cena, ele tem pouco texto, mas uma presença muito importante. E está fazendo lindamente”, pontua Rodrigo Portella.

Já Tairone Vale, que esteve com Portella no recente “Quase nada é verdade”, curiosa montagem itinerante, interpreta o cunhado. “É um parceiro, de uma lealdade absurda, um talento impressionante. Ele tem a capacidade de falar qualquer coisa e parece que é vida real”, comenta o diretor, sobre o amigo com quem também esteve em “Uma história oficial”, trabalho que rendeu a Portella indicação de melhor direção no Prêmio Shell de 2013. A outra indicação, no mesmo prêmio e no mesmo ano, foi com “Antes da chuva”.

Mesmo tendo vivido por mais de dez anos na capital fluminense, o estabelecimento de Portella no interior, onde dirige o Off Rio – Multifestival de Teatro de Três Rios, é prova de que há uma pulsante produção nas bordas. “Avançamos muito nesse processo de descentralização da produção cultural no Brasil, mas ainda é tímido. As pessoas ainda investem pouco na possibilidade de fazer uma carreira sólida e reconhecida no interior. Hoje vivo confortavelmente e exclusivamente de teatro”, orgulha-se.

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E estão todos atentos ao beijo de Alice. A carreira premiada – sempre alinhada com Juiz de Fora, onde desenvolve diferentes projetos – cerca o novo espetáculo de expectativas, que o diretor diz desejar romper. “Não quero que as pessoas vejam o que querem ver. Tento, a cada trabalho, desafiar a mim mesmo”, diz. “Neste espetáculo o desafio é não ter um caráter espetacular, é ir para algo menor, mais simples e mais contido. E esse é um lugar muito arriscado para o teatro, que, diferente da TV e do cinema, necessita de um contorno de maior expressividade”, completa ele, que desta vez lançou mão de uma narrativa ordinária, com canções que vão de Stevie Wonder a Gretchen, passando pela Xuxa. Para falar de família, Portella optou pelas trivialidades familiares, pelo o que é “de casa”.

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