
João Luiz Azevedo, que é gerente de operações do Teatro Oi Casa Grande, do Rio, fala sobre “Os caminhos das artes cênicas”, hoje, no CCBM (Divulgação)
Numa época em que a palavra crise bate recorde de citações, o produtor cultural e gerente de operações do Teatro Oi Casa Grande, do Rio, João Luiz Azevedo, diz que, na casa de espetáculos considerada um dos principais patrimônios culturais e políticos da capital carioca, ela nem de longe é lembrada. “Não falamos em crise, falamos em trabalho e competência”, afirma o também produtor cultural e jornalista, feliz com uma agenda que conta com nomes como Fernanda Torres, em cena com “A casa dos budas ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, e Claudia Raia, com “Raia 30 anos.” No bate-papo abaixo, ele adianta um pouco do que dividirá com o público na palestra “Os caminhos das artes cênicas”, nesta quarta-feira, dia 13, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, dentro da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Juiz de Fora.
Enquanto programa a vinda à cidade, ele ainda se dedica às homenagens aos 90 anos da amiga e comediante Berta Loran, comemorados em 23 de março de 2016. Além de Berta ter sido a protagonista de “Os Dálmatas – O musical”, de Azevedo, dois de seus espetáculos – “Divirta-se com Berta Loran”, estrelado em 1993, e “Ainda estou aqui”, de 2003, tem produção assinada pelo jornalista. Nas comemorações, estão previstos lançamentos de biografia da atriz, documentário, exposição e show dela com alguns artistas convidados. “Se é para homenagear, que se faça em vida! Depois que morrer, não adianta mais!.”
Tribuna – É preciso investir em grandes nomes para atrair o público?
João Luiz Azevedo – Depende do local. Em São Paulo, os grandes nomes não são tão importantes quanto no Rio de Janeiro, mas os grandes nomes da TV não são mais garantia de sucesso. Temos vários exemplos que confirmam isso, espetáculos com artistas consagrados que não fazem o sucesso esperado. Quando isso acontece, ou o espetáculo é muito ruim ou estão fazendo o marketing de forma errada.
– Falta aos produtores a noção de que entretenimento também é negócio?
– O entretenimento é sempre um negócio. O cuidado que temos que ter é de não transformá-lo em um “negócio da China”. Mas o que seria um “negócio da China” hoje em dia? Um evento mal divulgado, mal escalado, direcionado para um público errado, com preços exorbitantes.
– Há produtores que são contra as leis de incentivo, sob a justificativa de que, se elas não existissem, as companhias investiriam mais na criatividade do seu trabalho. O que você pensa sobre elas?
– Concordo! Eu sou de um tempo em que tirávamos dinheiro do bolso, vendíamos carro, apartamento, ou até mesmo telefones residenciais, e pedíamos dinheiro emprestado aos bancos para produzir peças teatrais. As peças tinham que fazer sucesso por muitos anos para se ter algum retorno financeiro. Hoje em dia, os empresários levantam fortunas de patrocínios, montam seus grandes espetáculos e ficam dois, três meses em cartaz no Rio. Em seguida, fazem nova curta temporada em São Paulo e tiram de cartaz para correr atrás de novo patrocínio… e assim “Caminha a humanidade…”. Há quantas décadas os grandes produtores e muitos atores não tiram um centavo do bolso para montar seus espetáculos? Que saudade do tempo em que Marco Nanini e Ney Latorraca ficavam 11 anos em cartaz com o mesmo espetáculo. “O Mistério de Irma Vap”, não por acaso, estreou e encerrou temporada no antigo Casa Grande.
– Em Juiz de Fora, parece imperar aquela máxima de que santo de casa não faz milagre. Você concorda que é preciso investir nas produções locais?
– Sim, com certeza, mas sempre lembrando que, mais importante que isso, é propiciar condições para que as crianças e os jovens possam assistir a bons espetáculos desde cedo, sendo local ou não! Nesse caso, é bom ressaltar que é sempre importante o intercâmbio com atores e companhias de teatro com mais experiência em outros centros culturais. Eles podem mostrar aos iniciantes (ou não!) que se pode obter grandes resultados, mesmo estando longe dos grandes centros.
– A profissionalização é um dos caminhos para as artes cênicas? Quais são os caminhos?
– Como podemos chamar de profissionalização uma profissão que normalmente é mal remunerada e pouco reconhecida na maioria do país? Quantas escolas de atores, diretores, cenógrafos, maquinistas, cenotécnicos, operadores de som e/ou de luz temos no Brasil? A profissionalização deve começar por cima, ampliando o número de escolas para o surgimento de novos profissionais. Somente dessa forma, podemos pensar na profissionalização artística nacionalmente.
– A promessa é que você fale sobre as experiências bem-sucedidas no teatro carioca e brasileiro? Pode dar exemplos?
– Quando se propõe produzir um espetáculo para a ocupação de um teatro de 120 lugares e se consegue, diariamente, um público médio de 100 a 120 pessoas, isso é sucesso ou fracasso? Agora, quando você ocupa um teatrão de mil lugares e coloca um público médio de 400 a 500 pessoas é sucesso ou fracasso? A sabedoria é saber sempre aonde chegar. Tem espetáculos para grandes teatros, e outros, para plateias menores. A experiência mostra também que quantidade de público não determina a qualidade do espetáculo. Algo ser bom ou ruim é questão do gosto pessoal de cada um. Já vi muitas montagens medíocres em teatros lotados. Tem gosto para tudo nessa vida. Se você me pergunta o que faz sucesso hoje no Brasil (nas artes, é claro!), eu diria Paulo Gustavo. Não tem onde ele não faça sucesso. Mais alguém? Como ele, eu não conheço. Talvez o Leandro Hassum com seu show (não gosto da palavra stand up) “Lente de aumento”. Talvez a Cia Baiana de Patifaria, com seus espetáculos populares, na Bahia, o grupo mineiro Galpão, com alguns de seus espetáculos, a Cia de Dança da Débora Colker e o Grupo Corpo. “A Casa dos budas ditosos” com a Fernanda Torres, também é um fenômeno. Há mais de dez anos em cartaz e ainda lotando um teatro de 900 lugares, em sua terceira temporada, em menos de um ano de intervalo entre a primeira e a atual temporada, e um detalhe, sem patrocínio. Um espetáculo mantido em cartaz com recursos próprios e com uma superprodutora. Levante a “bunda de trás da mesa de reuniões” e vá à luta!!!
CAMPANHA DE POPULARIZAÇÃO DO TEATRO
Palestra com João Luiz Azevedo
13 de janeiro, às 19h
CCBM
(Centro Cultural Bernardo Mascarenhas)

