"Seus dias de fartura estão contados." Se no filme "Edukators" a mensagem faz todo o sentido, na carreira do ator juiz-forano, radicado no Rio de Janeiro, Pablo Sanábio, a máxima é o contrário. Os dias de fartura estão só começando. Idealizador do projeto que leva para os palcos, pela primeira vez no mundo, o clássico cinematográfico cult "Edukators", Sanábio confirma hoje as muitas previsões que o apontavam como um dos maiores responsáveis pela reformulação da cena teatral carioca. Há alguns anos eclipsado pela cena paulista, o teatro da terra da garota de Ipanema volta ao centro das atenções nacionais tendo como imperativo a ousadia de monumentais espetáculos.
Lançado em 2004, "Edukators", do diretor austríaco Hans Weingartner, conta a história de três jovens alemães: Jan, Peter e Jule. Numa Berlim contemporânea, de grafites nas ruas e de uma desigualdade expressiva, Jan e Peter decidem protestar contra o capitalismo invadindo casas de grandes milionários e mudando de lugar móveis e outros objetos, sem nada roubar. Ao fim da ação, que ocorre sempre na madrugada depois de muito pesquisarem sobre a ausência dos moradores, deixam mensagens como "seus dias de fartura estão acabados" ou "você tem dinheiro demais", assinando como "os edukadores". Quando Peter viaja a Barcelona, Jan se aproxima da namorada do amigo, Jule, e revela o esquema. Processada por um magnata, a menina sugere que os dois entrem na mansão do homem. A operação fracassa quando Jule esquece o celular na casa e retorna para buscá-lo, mas inesperadamente encontra o dono e é obrigada a sequestrá-lo. Com Peter de volta, os três levam o milionário para um distante casebre, lugar onde surgem discussões sobre capitalismo e desigualdade, e onde se fortalece, também, um triângulo amoroso.
Aparentemente panfletário, o filme foi rodado com uma câmera digital, que não preza pelo rigor, conferindo realismo às cenas. Com diálogos muito mais verdadeiros do que nostálgicos, ele apresenta uma geração e a discute em seus muitos contrastes. Presente na plateia quando o filme foi exibido no Festival do Rio de 2004, Sanábio logo se apaixonou. E como a acreditar na frase dita por Jule em um momento do longa – "as boas ideias sempre sobrevivem" -, no início de 2011, o ator procurou o diretor a fim de conseguir os direitos autorais da obra. "Quando se está apaixonado por um projeto, a negociação fica mais fácil", diz ele, que conquistou muito mais do que a possibilidade de transpor o filme para os palcos: Hans Weingartner virá ao Brasil para a estreia da peça, que conta, ainda, com um vídeo feito por ele e que servirá de prólogo ao espetáculo.
Premiado recentemente pela Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), pela produção da peça "R&J Shakespeare – Juventude interrompida", Sanábio tem se destacado em diversas áreas da arte. No cinema, atuou em "Chico Xavier", de Daniel Filho; "Sem controle", de Cris D’Amato; "A sala de espera", de Lucia Murat; entre outros. Na TV, protagonizou a série "Descolados", na MTV, e atuou nas minisséries globais "O astro", "S.O.S. emergência", e "As brasileiras". Nos palcos, cujo pontapé inicial foi dado em Juiz de Fora, na Cia. de Atores Academia, encenou "A ratoeira", de Agatha Christie, "Dois irmãos – Due Fratelli", de Fausto Paravidino, e muitos outros, entre clássicos e contemporâneos. "Meus trabalhos me colocam como um produtor ativo", avalia o ator, prometendo trazer a peça à Juiz de Fora em julho.
Responsável pela dramaturgia do novo espetáculo, Rafael Gomes espera que essa seja a primeira de muitas parcerias com Sanábio. "O Pablo é uma máquina, ele não para, trabalha o tempo todo. E nessa intensidade é incrível como ele é apaixonado e dedicado, além de ser extremamente amoroso e atencioso com tudo e todos", define. Produtora do espetáculo ao lado do ator, Maria Siman destaca o arrojo dos projetos de Sanábio. "As escolhas dele são sempre muito revolucionárias e corajosas", aponta ela. A coragem de Sanábio, "sempre cheio de ideias" como diz Maria, pode ser percebida nas grandes dimensões de "Edukators".
Desde ontem até o término dessa temporada, que segue em cartaz no Oi Futuro Flamengo até o dia 31 de março, pontos turísticos do Rio de Janeiro, como a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Largo do Machado, serão tomados por grandes esculturas alusivas à peça. Nas obras, compostas por móveis empilhados como no filme, estão as frases marcantes de "Edukators". Além da intervenção urbana, uma das armas dos protestos de hoje em dia, a peça também estará em três modelos de camisa – cada uma com uma frase -, que uma grife carioca coloca nas ruas esse mês, e no livro a ser lançado em fevereiro. "A primeira coisa que o Pablo fala, sempre, é que não quer que a peça esteja apenas nos teatros", relata Rafael Gomes. "Eu penso num espetáculo como um produto artístico, capaz de gerar diferentes formas de levar o público ao teatro", explica Sanábio.
João Fonseca, que dirige "Edukators", reúne em sua trajetória sucessos de bilheteria como "Maria do Caritó", estrelado por Lilia Cabral, e o musical "Tim Maia – Vale tudo", que lançou o ator Tiago Abravanel. Desde 2001 ele conhece Sanábio e dirigiu os últimos trabalhos do ator. "Acho que o Pablo é um dos jovens mais promissores, não só como ator mas como pensador artístico", destaca Fonseca, que junto ao ator e produtor pensou em construir um espaço onde o público pudesse se expressar escrevendo frases na parede, como fazem os atores em cena.
A geração que estará em "Edukators", falando sobre a juventude e o seu espírito contestador, é a mesma que percebe nas vias da arte a possibilidade de transformação do mundo. Além de Pablo Sanábio, que interpreta Peter, o elenco é formado por Fabrício Belsoff, como Jan, Natália Lage, na pele de Jule, e Edmilson Barros, como o magnata Hardenberg. "Sou revolucionário no sentido de ver a arte como algo mais amplo", aponta Sanábio.
Ousado nas dimensões do projeto, o espetáculo também é grandioso pela transposição do cinema para o teatro e pela temática abordada. De acordo com Rafael Gomes, a criação de uma dramaturgia para ‘Edukators’ foi bastante complicada, tendo em vista o grande número de ações e cenários do filme. "A quantidade de informação que eu tinha que dar para a peça começar era muito grande", explica Gomes, que teve parte do problema resolvido através do vídeo criado por Hans Weingartner. Com o intuito de não localizar e não datar a montagem, o dramaturgo também optou por personagens universais. Para Maria Siman, o trio do espetáculo poderia estar em qualquer manifestação pacifista.
Apesar de focado nos transtornos causados pelo capitalismo – num discurso muito marcado pelos reflexos históricos de uma Berlim dividida -, a trama de Jan, Peter e Jule ganhou, nos palcos, um olhar menos exato. "O ímpeto juvenil de mudar o mundo é eterno", explica Gomes sobre o ponto inicial de sua criação. "Sempre há um grupo questionando o porquê das coisas. Faz parte da juventude contestar a forma como as coisas são", concorda João Fonseca. Relativizando ainda mais o drama do trio, Gomes pontua a noção de política que a arte permite compreender. "Estar vivo é um ato político. É inevitável fazer arte e não ser político", discute. Lema para a vida de Pablo Sanábio, a frase que mais marca "Edukators" faz sentido para todo o espetáculo. A intenção da peça é mostrar que "cada coração é uma célula revolucionária".
EDUKATORS
Estreia para convidados nesta quinta, às 20h. Temporada de quinta a domingo, às 20h. Até 31 de março
Teatro Oi Futuro Flamengo
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro) – (21) 3131-3060
